CIDADANIA

Dom Antônio Carlos, o bispo de Caicó: “Toda forma de exclusão é anti-evangélica”

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Dom Helder Câmara nunca atacou nenhum adversário. Mahatma Gandhi também foi incapaz de ofender alguém. Martin Luther King lutou contra o racismo sem disparar um único tiro. Jesus Cristo ofereceu a outra face e entrou para a história em nome da paz. Esses quatro personagens, mundialmente conhecidos e cada um a seu modo, são referências da não violência ativa, uma metodologia humanista que rejeita toda e qualquer discriminação e violência. Adepto deste movimento, Dom Antonio Carlos, o bispo da Arquidiocese de Caicó, defende a militância pela paz sem abrir mão dos princípios éticos.

Um mês depois de virar assunto nacional ao afirmar que a homossexualidade é um dom de Deus (vídeo), durante a homilia de encerramento da tradicional festa de Santana em Caicó, Dom Antonio Carlos, 55, recebeu a agência Saiba Mais para falar sobre seus posicionamentos, as próprias origens e o trabalho que vem desenvolvendo na região do Seridó desde 2014, quando foi ordenado bispo pelo papa Francisco.

O jeito simples, o andar tranquilo, o sorriso fácil e o sotaque forte são características que logo saltam aos olhos quando Dom Antonio se aproxima com a mão estendida para um cumprimento. Em Caicó, onde mais de 85% da população se declarou católica no censo de 2010 realizado pelo IBGE, as pessoas exaltam a simplicidade do bispo ao revelar hábitos comuns da principal autoridade religiosa do município. As caminhadas matinais na Ilha de Santana e a conversa franca com os moradores são pontos destacados pelos fiéis. Alguns relatam a chegada dele a Caicó, com um pequena mala na companhia do pai, da irmã e de Mel, uma cachorrinha que ganhou de presente. O diálogo aberto com representantes de outras religiões presentes no Seridó também conta a favor do bispo.

Carioca do morro do Cantagalo e filho de um casal alagoano de Penedo, Antonio Carlos carrega dois símbolos católicos no sobrenome: Cruz e Santos. Ambos são ligados às duas metades da família que tiveram origem e trajetórias distintas. Enquanto a parte materna usufruiu de certa riqueza antes de perder toda a plantação de arroz para a seca, a paterna carrega as marcas da escravidão na árvore genealógica. Negro, fato raro na história da Diocese de Caicó, Dom Antonio é bisneto de escravos e, vez por outra, recorre ao tema da escravidão para explicar o início das favelas ou a raiz de algum preconceito.

A repercussão da homilia em que defendeu o acolhimento de homossexuais pela sociedade ainda mexe com o bispo pela intolerância de que foi vítima. Nas redes sociais, onde Dom Antonio Carlos costuma acompanhar notícias e se comunicar, foi duramente atacado.

– A gente pode discordar, mas não tem o direito de desrespeitar. Porque tanto ódio ? Só porque pensa diferente ou porque tocou em alguma coisa que, para mim, custa muito ter que repensar ? (Na homilia) eu simplesmente dizia que o evangelho nos pede para ter um olhar de amor, enxergar o que pode ter de positivo. E por que tem que detonar um processo de ódio ?

No comunicado oficial divulgado por Dom Antonio Carlos diante da repercussão da homilia, o bispo reafirmou cada palavra do sermão e fez referência à preocupação com o alto número de suicídios em Caicó. Logo na primeira linha cita o teólogo Leonardo Boff, para quem “todo ponto de vista é a vista de um ponto”. Somente nos primeiros 10 meses do ano passado, 19 jovens tiraram a própria vida e, uma das causas, pode ter relação com a homofobia na cidade.

O religioso sabe que o tema é polêmico e ainda um tabu na sociedade. Porém, acredita que o debate sobre o preconceito pode avançar como, tempos atrás, avançou o debate sobre a escravidão.

Estamos mexendo com questões culturais, difíceis, mas podemos avançar. Se até o século 19 se aceitava a escravidão e hoje é inconcebível, ainda que um ou outro defenda na clandestinidade, hoje já avançamos muito. Toda forma exclusão é anti-evangélica. Não nos esqueçamos que Jesus nasceu numa estrebaria porque foi excluído. E que morreu fora de Jerusalém porque foi excluído da cidade. Todas as vezes que a gente exclui uma pessoa, por qualquer razão que seja, a gente exclui o próprio Deus. Por isso qualquer discriminação, como a homofobia, fere o evangelho.

Avançar nesse debate, para o religioso, significa reorganizar as estratégias e a militância, descruzando os braços sem perder os princípios éticos da paz. Ele cita referências mundiais para explicar que a violência não pode servir como arma.

– Sou adepto da não violência ativa, a exemplo de Dom Hélder Câmara, Mahatma Gandhi e Martin Luther King. Do ponto de vista evangélico, tem que ter uma militância. Eu não acredito que vamos construir uma coisa nova usando métodos velhos. Uma coisa para ser boa, tem que ser boa no início, no meio e no fim, senão vamos cair na teoria de Maquiavel, de que o fim justifica os meios. Se violência adiantasse alguma coisa o mundo já estaria em paz.

Conversando com moradores da cidade e representantes de outros segmentos religiosos é possível ouvir várias definições sobre as características pessoais e a respeito do trabalho de Dom Antonio Carlos em Caicó. Ele é chamado de messias à revolucionário. De perfil progressista e com uma trajetória ligada ao trabalho social desenvolvido em favor dos mais pobres, o bispo se define apenas como alguém que tem procurado aprender com o Evangelho.

– Eu não me classifico como progressista, mas uma pessoa que tenta viver o evangelho dado pela própria igreja, por onde o espírito me conduziu. O papa Francisco nos possibilita abrir janelas. Quando ele diz “uma igreja de portas abertas” não sei se a gente mede as consequências. Uma igreja de portas abertas é uma igreja que vai ao encontro de quem dela necessita, que acolhe a todos. E esse momento vai ter muitas consequências. Isso não é uma poesia, é uma realidade carregada de poesia.

Dom Antonio Carlos é uma das lideranças da ala progressista da igreja Católica

Críticas à reforma da previdência, ao golpe e à ética da mídia

 

O discurso de acolhimento de homossexuais pela sociedade é apenas um dos vespeiros que Dom Antonio Carlos mexeu desde que chegou a Caicó, em 2014. A principal autoridade religiosa da região do Seridó é um crítico da reforma da Previdência do governo Temer, do impeachment que retirou do poder Dilma Rousseff e da seletividade da imprensa tradicional que, na visão dele, só publica o que lhe interessa.

O bispo carioca abraçou algumas lutas históricas da região do Seridó, a exemplo da construção barragem de Oiticica, no município de Jucurutu, que deve abastecer mais de 500 mil pessoas e há 60 anos se arrasta de governo para governo. Ao lado do arcebispo de Natal Dom Jaime Vieira da Rocha e do bispo de Mossoró Dom Mariano Manzana, Dom Antonio Carlos cobra insistentemente ações das autoridades locais e já esteve em Brasília pressionando o Governo Federal pela liberação de recursos para a retomada das obras.

– A novela da barragem de Oiticica já passa de 60 anos, a novela da transposição do rio São Francisco surge no II Império. Se a gente não se coloca ao lado daqueles que mais necessitam, é um pecado evangélico. E a omissão nessa hora se torna cumplicidade.

Já ficaram famosas as missas de Dom Antonio Carlos em que ele critica ações do Governo Temer, a exemplo da reforma da Previdência. O religioso afirma que não tem elementos para afirmar se existe ou não existe um rombo na Previdência, como diz a campanha da União para justificar a reforma. No entanto, o bispo não tem dúvidas de que é o pobre quem está pagando a conta.

– Essa não é uma postura só minha. A igreja é contra essa reforma da previdência porque vai prejudicar os pobres. Agora, mesmo que haja um rombo na previdência, se você é um pai de família, está sem emprego e precisa apertar o cinto, o que você vai fazer: retirar o lazer do seu filho ou o remédio do seu filho doente? A sensação que nós temos é que essa reforma da Previdência está colocando o peso nas costas daqueles que estão mais vulneráveis. Houve cobrança de impostos sobre grandes fortunas? Enxugaram os altos salários? Se diminuiu privilégios? Então porque aquele que pagou a Previdência é quem tem que carregar isso?

O golpe contra a democracia que retirou Dilma Rousseff da presidência da República também merece críticas do bispo de Caicó. A justificativa do combate à corrupção, segundo ele, não se sustenta em razão dos atores envolvidos na queda da presidenta.

– Quando começou a discussão sobre impeachment nós, bispos do Brasil, decidimos que iríamos esperar para ver o que estava por trás. Mas logo veio uma pergunta: se a acusação que recaía sobre a presidenta era de corrupção e se aqueles que a acusavam estavam envolvidos com corrupção, então não precisa ser nenhum grande pensador para dizer: parece que o problema não era a corrupção.

Dom Antonio Carlos também não poupa a imprensa tradicional nesse processo de golpe e tentativa de aprovação das reformas que prejudicam a população. E cita o comportamento da mídia quando a Assembleia dos Bispos do Brasil se posicionou contrária à reforma da Previdência. O silêncio da mídia ecoou dentro da igreja.

– A grande mídia silenciou. Lembro quando estávamos na Assembleia dos Bispos do Brasil e, como decidimos ser contrários, a grande mídia não noticiou porque ela só noticia aquilo que interessa a ela. Garanto que se a igreja estivesse a favor da reforma da Previdência, a assembleia dos bispos estaria em evidência.

As consequências de uma imprensa seletiva e antiética são comparadas por Dom Antonio Carlos aos efeitos da violência urbana. Para ele, o prejuízo provocado pela mídia é muito maior à sociedade.

– Nesse momento midiático que a gente vive, ter um meio de comunicação na mão pode fazer um grande bem ou um grande estrago. E um meio de comunicação na mão de alguém que não tem ética é pior do que uma arma na mão de um marginal porque mata muito mais gente.

Da Cidade de Deus ao sertão do Seridó

 

O longo percurso de Dom Antonio Carlos até chegar a Caicó teve várias escalas no Brasil, na América Central e até na Europa. Em novembro de 2017, ele comemora 25 anos de ordenação. A data marca o ordenamento, em 1992, como vigário da paróquia da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. O fato é a pedra fundamental de uma etapa importante numa trajetória dedicada à formação de jovens e à assistência aos mais pobres. Para quem nasceu e passou a infância numa favela, trabalhar na periferia, onde o Estado pouco chegava, não era nenhuma novidade. Mas havia uma diferença. Até os anos 1960, o narcotráfico não havia demonstrado sua força, o que começa a mudar na década seguinte. Quando o vigário Antonio Carlos chega a Cidade de Deus, o cotidiano da comunidade segue um ritmo próprio, com leis geralmente criadas pelo poder do tráfico de drogas. E, naquela época, o poder atendia pelo nome de Comando Vermelho.

No primeiro ano não houve muitas tensões. Mas no segundo houve. Quando a prefeitura decidiu remover as favelas para tirar os pobres de perto dos ricos, grupos que eram adversários acabaram se misturando num momento em que o narcotráfico entrava com peso nas favelas. Então essas pessoas que dizem que durante a ditadura militar não havia tráfico não conhecem a história. É porque havia censura e, quando há censura, parece que não existe. E no meu segundo ano, houve uma mudança de comando do tráfico e, quando isso acontece, mudam as alianças e os agentes da corrupção.

Dom Antonio lembra de um episódio que foi o estopim de uma grande comoção na favela. Certo dia, dois policiais foram buscar propina e, como o comando do tráfico local havia mudado, os traficantes não quiseram pagar. Na época, falou-se que os agentes do Estado estavam sob efeito de drogas e começaram a atirar à esmo. Uma das balas acertou uma mulher que descia com uma criança num prédio próximo à favela. A vítima, irmã de uma voluntária da paróquia da Cidade de Deus, morreu e a comunidade queria vingança.

– Fui ver o corpo, prestar solidariedade à família e, na volta, vi barricadas na rua, com o povo querendo invadir o posto policial. Algumas pessoas levaram cadeiras de praia para a porta e sentaram para ver o que iria acontecer, como se fossem assistir o espetáculo. Aí chegou a tropa de choque da Polícia Militar. O povo recebeu os policiais com pedras e o Choque reagiu atirando. A gente corria, mas numa favela, com ruelas estreitas, você corre mas não tem noção de nada. Parecia que tinha tiro na sua frente, do lado, atrás. Aquele foi meu batismo.

A tensão acompanhou o vigário Antonio Carlos pelo segundo ano da estadia dele na paróquia. Nas missas, a mensagem tinha que ser passada com cuidado. Vários fiéis eram parentes, amigos ou tinham alguma ligação com traficantes ou policiais que moravam na comunidade e também frequentavam a igreja. Até a denúncia era difícil fazer:

– Numa situação daquela você não sabe com quem pode contar. Na época, uma investigação descobriu que 18 policiais estavam envolvidos com corrupção na Cidade de Deus. Às vezes, até pela proximidade e algumas ações de assistência, a comunidade prefere o traficante ao policial. Então, trabalhar numa comunidade do Rio de Janeiro é uma arte, um malabarismo. Hoje é ainda pior porque existem as milícias. Tiro o chapéu para profissionais dedicados como professores e padres que trabalham nesses locais.

Após os dois anos de batismo, Dom Antonio foi transferido para Contagem, em Minas Gerais, onde voltou a trabalhar na formação de jovens seminaristas, estudantes de teologia. Três anos depois, voltou para a periferia. Dessa vez, ficou quatro anos em Berford Roxo, na Baixada Fluminense.

Passado o período, com novas tensões e experiências, Dom Antonio passou um ano fazendo cursos de formação espiritual na América Latina e Europa. Conheceu a Venezuela, Guatemala, Itália, Vaticano e França. Na volta ao Brasil, passou por outro batismo.

– Quando voltei, fui transferido para Pirassununga, no interior de São Paulo, entre Campinas e Ribeirão Preto. É uma cidade de classe média alta e militar. Para pessoas com minha formação política, que viveram o final da ditadura, a palavra militar provoca arrepio. E aquela experiência exigiu de mim uma virada. Talvez o impacto que alguns sofrem caindo na Cidade de Deus, eu sofri em Pirassununga porque é um universo diferente, a linguagem é diferente, você precisa repensar conceitos. Mas me dei muito bem e fui acolhido pelas pessoas.

Em Pirassununga, Dom Antonio passou a acompanhar um problema que encontrou de maneira mais forte em todas as cidades por onde passou, inclusive Caicó: a dependência química. Foi como se voltasse no tempo e revivesse o alcoolismo do tio, no morro do Cantagalo. Eram histórias semelhantes também às de seminaristas com quem conviveu e de quem ouvia relatos com o mesmo perfil. A maioria pobres, com problemas familiares e entregue às drogas. No interior de São Paulo, o vigário Antonio Carlos passou a apoiar casas de recuperação mantidas por centros de outras religiões, como comunhões de cardescistas.

– Não é possível ser fiel ao evangelho e de uma forma ou de outra não ter compromisso com os pobres. Se foi o caminho que Jesus escolheu para vir até nós tem que ser o caminho que a gente tem que fazer para chegar até ele. De um jeito ou de outro, tem que passar pelos pobres.

Antes de ser ordenado bispo pelo papa Francisco em 2014, Dom Antonio ainda passou pelas paróquias de Limeira e Itajubá. Sempre acolhendo a juventude e se dedicando aos fiéis mais necessitados.

Na região do Seridó, também identificou problemas relacionados à dependência do álcool. E lembrou de uma entrevista do poeta maranhense Ferreira Gullar, que via a questão como uma herança:

– Em Caicó, um dos desafios era ter uma casa para acolher irmãos que vivem a dependência química. Um dia vi Ferreira Gullar se referindo ao alcoolismo como uma herança maldita dos anos 60. Ele disse que aquela geração que lutou tanto para ser livre de tudo, encontrou nas drogas outro tipo de prisão.

Sobre a chegada a Caicó, ao lado do pai, da irmã, de poucos amigos da época de seminário e da cachorrinha Mel, da raça pincher que ganhara como presente de ordenação de uma amiga e teve o coração roubado pela cozinheira da diocese, Dom Antonio se disse inteiramente acolhido pelo povo. Do município do sertão nordestino, só tinha duas informações: de que era terra “do irmão de Dom Eugênio Sales”, com quem conviveu no Rio de Janeiro, e da referência de Cantiga, uma das canções de Milton Nascimento, um de seus compositores prediletos.

A letra traz uma mensagem que não deixa de soar, aos ouvidos do bispo de Caicó e a esta altura do campeonato, como uma convocação:

Ó, mana, deixa eu ir

ó, mana, eu vou só

ó, mana, deixa eu ir

para o sertão do Caicó

 

Carioca da gema, da favela e de raízes nordestinas

 

No morro do Cantagalo, entre os bairros de Ipanema e Copacabana, o pequeno Antonio Carlos viu a vida pela janela até os 9 anos de idade praticamente preso dentro do barraco de madeira e teto de zinco onde morava com a mãe, o pai e um casal de tios. A mãe, uma alagoana dura, impedia a todo custo o contato do filho com os meninos e meninas da favela. Oriunda de uma família de posses em Penedo (AL), que da noite para o dia perdeu tudo o que conquistara com a plantação de arroz, dona Esilda Cruz Lélis não se conformava com a vida de miséria na favela carioca. Quando algum parente nordestino perguntava o endereço da família no Rio de Janeiro, Esilda respondia Ipanema e pronto.

As favelas surgiram na primeira metade do século 20 associadas à escravidão. Com a libertação dos escravos, como ninguém tinha dinheiro, as moradias foram criadas a partir das circunstâncias, como o próprio Dom Antonio explica:

– Com o fim da escravidão, os escravos estavam livres para morrer porque não tinham onde trabalhar nem morar. Muitos foram trabalhar no porto do Rio de Janeiro. Em frente a esse porto tinha um grande morro onde havia uma plantação de fava. Fizeram os primeiros barracos ali e, no local onde haviam favas, nasceram as favelas, por isso o nome. Depois o nome favela foi usado para qualquer conglomerado urbano que existisse no morro. E sempre associados à miséria, a algo negativo, ao malandro que, naquela época, usava no máximo uma navalha e jogava no bicho, não era ligado ao narcotráfico, que só começa na década de 1970.

A sombra da escravidão na família de dom Antonio nasceu bem antes da chegada ao Rio de Janeiro, nos anos 1950. Se a parte materna chegou a ganhar dinheiro com a agricultura em Alagoas, o lado paterno nem histórias têm para contar. Tudo o que dom Antonio sabe sobre o passado do pai é que seu bisavô foi um escravo criado por um frade. Como as famílias de escravos eram separadas na medida em que migravam de propriedade para propriedade, foi só o que o pai conseguiu guardar na memória.

Embora o celibato tenha sido determinado pela igreja católica a partir do Concílio de Trento, no século 16, as exigências só chegam mais de 300 anos depois ao Brasil, o que não deixa de ser curiosa a presença de dois frades na formação da família de dom Antonio. Além do religioso que ajudou a criar seu bisavô, o tetravô do bispo por parte de mãe também era reconhecido como tal.

– Era muito comum naquela época encontrar padres que tinham famílias, havia certa compreensão da sociedade. Difícil era aceitar que padres tivessem filhos.

Trancado em casa e sem muito contato com os demais meninos e meninas da favela, Antonio Carlos sentiu quando passou a frequentar a escola, no pé do Morro. Naquela época, o garoto já dizia que seria padre e rezava, criando missas imaginárias e fazendo dos biscoito Maria, hóstias de brincadeira.

Uma lembrança curiosa que dom Antonio guarda dos tempos de colégio no Cantagalo é do ator Cláudio Marzo, protagonista da novela Véu de Noiva, produzida pela Rede Globo em 1969, que morava num prédio em frente à escola onde Antonio estudava em Ipanema. Ao mesmo tempo em que o artista dividia na televisão as atenções com a atriz Regina Duarte, quando saía para trabalhar era o foco das mães que buscavam os filhos no colégio:

– As mães não sabiam se olhavam para os filhos ou para o ator, que saía sempre do prédio numa baratinha. Ali eu comecei a conviver com pessoas diferentes, de culturas diferentes que não tinham uma tradição religiosa, e tive que aprender a lidar com essas diferenças.

Antonio venceu a timidez e o medo inicial dos colegas usando a cabeça. Estudioso, cuidava de tirar notas boas e ajudar os colegas, dos mais fracos aos valentões, a fazer os exercícios antes das provas. Dar cola estava fora de cogitação.

– As professoras, naquele tempo, eram verdadeiros zagueirões. Eu ajudava os valentões e conseguia a proteção deles. Foi uma fase de adaptação que venci pelo viés intelectual.

Da escola para casa, Antonio pouco encontrava com o pai, que chegara ao Rio de Janeiro depois de servir ao Exército, na ilha de Fernando de Noronha. Na capital carioca, Hermílio Lélis dos Santos trabalhou como faxineiro e vigilante até chegar ao posto de ascensorista. Nos tempos do Cantagalo, o emprego de vigilante não permitia muito contato nem com o filho caçula e muito menos com a filha mais velha, que ainda morava em Penedo (AL).

Em razão dessa distância, a figura masculina mais presente na vida de Antonio Carlos foi o tio João. E por causa dele, o garoto optou pelo Fluminense na hora decisiva de escolher o time de futebol do coração.

– Quando eu cheguei no colégio, a primeira coisa que me perguntaram foi sobre meu time, mas eu não sabia. Na volta para casa, perguntei qual era o time do meu tio João e ele disse que era Fluminense. Então eu virei tricolor e também anti-flamenguista. É que no barraco vizinho ao nosso, todo mundo era rubro-negro. E quando o Flamengo fazia um gol a família do lado soltava foguetes no telhado da gente. Agora imagina o que é um foguete num telhado de zinco ! Por causa disso eu digo que tenho um trauma com o Flamengo que nenhum psicólogo tira e nem eu quero que tire. Mas adoro essas brincadeiras.

Com o processo de remoção das favelas no Rio de Janeiro a partir do final dos anos 1960, as famílias do Cantagalo foram transferidas para o bairro de Jacarepaguá. Cansada e humilhada por morar no Morro, a mãe de Antonio juntou as economias que havia guardado, pegou marido, os filhos e alugou com uma casa no município de São Gonçalo, a segunda maior cidade do Estado. A mudança aconteceu em meio aos primeiros jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970.

O detalhe é que uma das favelas que compunham o cenário do bairro de Jacarepaguá era justamente a Cidade de Deus, para onde migraram as famílias do Cantagalo. Quando decidiu morar em São Gonçalo, dona Maria apenas adiou o futuro endereço do filho caçula. É que 22 anos depois daquela mudança, o jovem Antonio Carlos se ordenaria vigário da paróquia da mesma Cidade de Deus, favela onde dona Maria passou os últimos dias da vida, cuidada pelos moradores pobres do morro, antes de morrer.

 

Adolescência longe da igreja até o encontro com a teologia da libertação

A escola foi a porta de Antonio Carlos para a rua. Se até os 9 anos de idade o barraco de madeira e zinco era quase uma prisão, o tempo da nova morada foi de mais liberdade. Assim, conheceu o escotismo, fez novos amigos e se distanciou afetivamente, por um período, da igreja:

– Mas só afetivamente porque minha mãe, como boa alagoana, continuava indo à igreja e ninguém era besta de dizer que não ia com ela (risos).

Os caminhos do Evangelho se colocaram novamente à frente do jovem Antonio Carlos de uma maneira não muito ortodoxa. Um dia, alguns primos decidiram entrar para o grupo de jovens da igreja e o convidaram a fazer parte. O objetivo, porém, ainda não era seguir os caminhos de Jesus Cristo, mas o das meninas que também integravam o grupo. A irmã de Antonio, por exemplo, é casada até hoje com o namorado que conquistou na turma.

A vida seguiu, Antonio passou a acompanhar os desdobramentos da ditadura militar como expectador e passou a se envolver mais com as questões da igreja voltadas para o lado social até que, em 1978, João Paulo II é eleito Papa e, dois anos mais tarde, o sacerdote polonês visita o Brasil:

Aquela passagem do Papa João Paulo II pelo Brasil foi muito impactante, primeiro porque era a primeira vez que um Papa visitava o país e a homilia dele, em Belo Horizonte, impactou a juventude. Eu já havia entrado para a Pastoral da Juventude onde a gente estudava os documentos da igreja para descobrir como ajudar na transformação dos nossos sonhos e da nossa utopia. E toda essa militância foi despertando a minha vocação e fui me reaproximando da igreja até entrar para o seminário, em 1983.

Uma das figuras centrais da igreja católica na Baixada Fluminense e da luta pelos Direitos Humanos naquele período foi fundamental para a formação política de dom Antonio. Perseguido pela ditadura militar, o bispo de Nova Iguaçu, dom Adriano Hypólito, chegou a ser sequestrado e torturado pelo regime em 1976. Dias após o ataque, dom Adriano foi encontrado despido num matagal com o corpo pintado de vermelho. O carro do “bispo vermelho”, como era chamado pelos militares, também foi destruído numa explosão próximo à Confederação Nacional dos Bispos, cuja sede ficava à época no Rio de Janeiro.

– Nos anos 1970, fazer a opção pelos pobres era ser confundido com comunista. Como havia uma polarização muito grande, era preciso optar por um lado e, obviamente, tínhamos um viés de esquerda.

A Congregação Missionários do Coração de Jesus, a mesma de Antonio Carlos, ajudou dom Adriano Hypólito a fundar o seminário Diocesano Paulo VI, na Baixada Fluminense.

– Entrei para o seminário no final de 1983. Um dia um padre me perguntou se eu nunca havia pensado em ser padre. Como eu estava pensando, achei que ele tinha visto alguma coisa em mim. Eu disse que tinha medo, mas ele insistiu para que eu entrasse para o seminário para fazer o discernimento. Se fosse isso, ficava. Quem não se identifica, deixa. Na perspectiva da fé, aquele que tem o chamado, vai aprimorando. Ninguém entra para o seminário para ser padre, você entra no seminário para discernir. E para mim foi um momento de graça.

 

O trabalho de formação com jovens marcou a trajetória de Dom Antonio Carlos, um bispo à procura de respostas novas para questionamentos contemporâneos

 

No seminário de Nova Iguaçu, os caminhos de Antonio Carlos se abriram. Ele entrou de corpo e alma nos estudos da filosofia e da teologia focada na América Latina. A preocupação no seminário, ele conta, era formar um pastor com visão crítica para acompanhar o povo naquele momento da história.

– Ainda estávamos sob o impacto das conferências dos bispos de Medelin, na Colômbia, e de El Pueblo, no México, que nos deram os pilares para a igreja profética. Foi um momento forte. Não devia ser muito fácil também para os padres que nos formavam porque éramos muito críticos. Na nossa cabeça funcionava a relação opressor versus oprimido, na qual os padres eram os opressores e nós, os seminaristas, os oprimidos. A igreja no Brasil vivia uma ebulição. Quem viveu a década de 1980 entende o que eu estou falando.

Os anos no Seminário, entre 1983 e 1986, ajudaram dom Antonio a entender um modelo particular de Igreja, de mundo e de sociedade, onde a utopia guiava os seminaristas:

– Era muito utópico. Talvez a crítica que a gente pode fazer à juventude hoje é a perda da utopia. De fato nós sonhávamos e imaginávamos que outro mundo estava surgindo e que nós éramos testemunhas. Somos fruto da nossa história.

Os seminaristas entraram em contato com a luta de frei Leonardo Boff em defesa da teologia da libertação e, àquela altura, Antonio Carlos não tinha mais dúvidas sobre o caminho que seguiria. Era o viés social da igreja que lhe conquistara.

– Era enxergar a fé como um farol que pudesse iluminar a vida e denunciar o que chamávamos de pecado social, que gerava morte, abrindo portas para que o ser humano pudesse caminhar para uma vida plena. Não fomos formados num contexto desencarnado. Era fé e vida.

Outro momento fundamental para a formação de dom Antônio foi o período do noviciado, quando entra em contato com os exercícios espirituais de Santo Inácio. Um texto assinado pelo padre Libânio, um jesuíta da Teologia da Libertação, mexeu tanto com dom Antonio que aquelas palavras o aproximaram definitivamente da espiritualidade Inaciana (de Santo Inácio).

– O texto dizia que “não importa se a sua experiência é da sacristia ou da luta porque, mais cedo ou mais tarde, se é experiência de Deus, você só precisa chegar onde chegou Tereza Dávila: só Deus basta.” Isso me impactou porque naquele momento eu pensei: “não é só Deus que me basta”. E aquilo me provocou e me aproximou da espiritualidade Inaciana.

Comparando a experiência na escola de Jesuítas com as ideias disseminadas hoje pelo papa Francisco, dom Antônio não vê diferença:

Muita coisa que o papa Francisco diz hoje e que, para alguns, é uma novidade, para nós, que fomos formados na escola dos jesuítas, não é tão novo assim. A gente já conhecia isso na faculdade.

Como todo padre, Dom Antonio fez as faculdades de filosofia e teologia. A formação como vigário ocorreu em 1992, dia de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina, no mesmo ano em que a Igreja católica comemorava 500 anos da chegada ao continente.

– Não podemos pensar só em termos de Brasil, somos da Pátria grande, da América Latina.

Dom Antônio, o mensageiro de Francisco

 

Até a chegada de Dom Antonio, em 2014, a cúria de Caicó ficou dois anos sem bispo. O último havia sido o baiano Manoel Delson Pedreira da Cruz. Dom Delson permaneceu no Seridó de 2006 a 2012, quando o Vaticano o transferiu para Campina Grande (PB). Geralmente, as mudanças nas dioceses ocorrem por razões políticas ou meramente administrativas.

Dom Delson pertence à ala mais conservadora da igreja Católica e, durante o bispado em Caicó, tomou decisões polêmicas, como a de proibir o batismo por homens e mulheres não casados seguindo os rituais da igreja. O antecessor de Dom Antonio também afastou figuras da cidade de postos-chave na igreja do Seridó, contrariando setores tradicionais da cúria caicoense.

O historiador da UFRN e pesquisador de religiões não oficiais Lourival Andrade Júnior classifica o bispado de Dom Delson como “extremamente conservador”. E compara a relação entre Delson e Antonio a partir da relação dos dois religiosos com a cidade:

– Dom Delson era extremamente conservador, um homem austero, que se vestia de forma austera. As pessoas logo identificavam o bispo da Diocese. Mas com ele a igreja não fez nenhuma discussão social nem política. Dom Antonio é diferente. Anda de chinelo, calça jeans, camiseta, anda na rua, fala com as pessoas, caminha todos os dias às 5 horas da manhã na Ilha de Santanna. Dom Antonio é uma pessoa humilde que sabe o papel dele como porta-voz da igreja. E sabe que não precisa ostentar para ser o que é.

 

Historiador e pesquisador de religiões não-oficiais, o professor da UFRN Lourival Andrade Jr. afirma que as posições de Dom Antonio assustaram Caicó

 

Catarinense radicado há oito anos em Caicó, Andrade conta que é possível identificar uma divisão na igreja do Seridó entre conservadores e progressistas. Para ele, a chegada de Dom Antonio está diretamente ligada ao novo momento da igreja comandada pelo papa Francisco.

As ideias disseminadas pelo bispo carioca são tão avançadas em relação ao que a tradição católica pregava até então que, segundo o professor, têm assustado tanto os fiéis mais progressistas como os mais conservadores.

Francisco trouxe uma nova visibilidade para a igreja mais progressista. Gosto muito de uma frase de Dom Cláudio Hummes em que ele diz: “a igreja não pode dar respostas velhas para perguntas novas”. E parece que o papa Francisco está imbuído nisso. Sobretudo a partir do governo de Dilma, a própria CNBB tem se voltado para questões mais sociais, como a reforma trabalhista, previdência… nessa esteira, recebemos um bispo que vem de uma ala progressista da igreja, sempre pautando os jovens, as comunidades periféricas e começa a fazer discurso com a visão do papa Francisco.

O que mais tem chamado a atenção do professor Lourival Andrade é a proatividade de Dom Antonio, que conversa com as pessoas, participa de atos e manifestações nas ruas e leva discussões sociais e políticas para as missas e homilias, como ocorreu no sermão sobre a necessidade da sociedade acolher pessoas homoafetivas.

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– Houve a repercussão internacional da homilia, mas Dom Antonio já vinha se posicionando antes. Ele se manifestou contra o impeachment da Dilma, contra os processos de corrupção, questionou a inércia do Congresso Nacional, participou na linha de frente de manifestações de rua e autorizou a suspensão das aulas do colégio diocesano para que alunos e pais participassem das manifestações contra o governo Temer. Isso tudo é assustador para uma cidade conservadora, o que é muito bom para a sociedade.

Apesar do discurso avançado e de levantar questões importantes que estão na pauta do dia, Lourival Andrade afirma que não se pode perder de vista, porém, que Dom Antonio é um representante da igreja Católica:

– Eu nunca vou dizer que Dom Antonio é um homem de esquerda, mas ele coloca o dedo na ferida. Diante da letargia provocada por essa direita fascista e horrorosa, o bispo está no lugar de fala que o qualifica a lutar contra tudo isso. Ele tem o discurso dos mais pobres, simples, sem deixar de ser erudito. As pessoas entendem o que ele fala.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"