DEMOCRACIA, ENTREVISTA

Miguel Carcará: “A periferia deve eleger seus próprios representantes”

 

Quantas democracias existem no Brasil ? Mais de uma, certamente. Enquanto o país discute a ameaça à democracia institucional com o julgamento político e parcial da Justiça brasileira no processo envolvendo o ex-presidente Lula, cidadãos e cidadãs à margem da distribuição de renda no país convivem há muito mais tempo com as ameaças de direitos básicos previstos na Constituição Federal.

Neste domingo, a agência Saiba Mais entrevista o professor, educador e grafiteiro Miguel Carcará. Ex-representante da Central Única das Favelas (CUFA) no Rio Grande do Norte, Carcará é o idealizador do Espaço Cultural Nossos Valores, mantido com o apoio dos moradores da comunidade da África, na Zona Norte de Natal.

Miguel Carcará fala sobre democracia, a luta por direitos, o legado do educador Paulo Freire e como a periferia vem se organizando para, num futuro breve, eleger seus próprios representantes.

 

 Muito tem se falado sobre o ataque à democracia institucional. No entanto, na periferia a democracia vem sendo atacada há muito mais tempo. Que avaliação você desse momento no país ?

 Na verdade, esse discurso dessa democracia institucional que eles sempre vêm pregar para nós vejo como se tivéssemos que sempre obedecê-los. É uma falsa democracia porque quando a gente fala do conceito da palavra democracia, que se confunde com o conceito de liberdade, estamos falando de outra realidade. A minha e a de outras pessoas que moram nas periferias do país, no seu dia-a-dia, no trabalho, na base… a democracia institucional é diferente da democracia da realidade.

 

E qual é a democracia da realidade ?

 É a democracia em que as pessoas têm que ser respeitadas para serem o que são. É a democracia que respeita a cultura do indivíduo desde a sua criação, do seu leito familiar, da sua rua, do que veste, escuta, fala… é como se a gente estivesse vivendo dois Brasis. Um que vive essa democracia real, interrompida muitas vezes pela instituição governamental. Por exemplo: quando as pessoas estão na rua protestando, exercendo seu direito à livre manifestação, a democracia governamental manda a polícia bater na galera, entendeu ? É isso que estou falando. Então a gente vive uma democracia onde estamos buscando nossa liberdade. E os caras, não: eles querem que a gente viva essa democracia institucional onde eles dizem o que nós devemos fazer. A primeira coisa que me faz desacreditar dessa democracia institucional é o fato de você ser obrigado a votar. Isso já mostra que esses caras não tem um poder de convencimento. Porque se deixassem, eles teriam que ser mais corruptos do que já são e ter que comprar mais pessoas na rua ou então seria um fiasco a maioria dessas campanhas. E a gente evitaria que muitos caras que estão hoje ocupando cargos chegassem ao poder.

 

Impedir o Lula de ser candidato é um ataque à democracia ? Qual sua visão sobre esse processo ?

 Isso só me confirma aquele ditado que escutamos desde os anos 1990: “pobre tem que sofrer”. Quando eu era adolescente escutava muito isso: “ah, só podia ser pobre”. Se estivesse fazendo alguma de errado era ligado ao termo pobre, pobreza. Isso aí está mais do que confirmado no Brasil. Uma pessoa como eu, você, muitos que estão lutando por um Brasil melhor, por um lugar melhor pelo menos onde a gente mora, transitam, não temos determinados direitos. Conquistar direitos é como se a gente violasse a democracia dos caras. Por isso me vejo como uma pessoa que afronta essa democracia, entendeu ? E não tenho medo não. Sou muito convencido do que eu faço, sei que estou lutando por um pedaço da comunidade melhor, muitas pessoas da comunidade me respeitam através disso e é quando eu vejo o conceito de democracia. Aqui a gente dialoga com as pessoas e até quem não participa valoriza. Isso é democracia.

 

Você citou a pobreza como rótulo da elite para algo errado na periferia. No caso específico do Lula, você também enxerga esse componente de classe ?  

Vejo também. Porque não foi só o Lula. Quando o Lula chegou à presidência não foi uma pessoa apenas que chegou lá, foram milhares de pobres que chegaram à presidência. A gente entrou na faculdade, a gente avançou na educação, entrou em altas escolas técnicas federais, tivemos vários avanços no nosso meio social. Passou aquele período em que, na comunidade, de 100 escapava 1, não é ? Já estava escapando 10, 20… já era um número maior, e isso aí já era a representação da população periférica no Brasil. E a partir do momento em que isso aí afrontou a democracia partidária, institucional dos caras, eles tinham que fazer alguma manobra para fazer tudo isso regredir novamente. Porque quem acompanha a história do Brasil, quem acompanha a história da educação no Brasil, sabe que as cadeias foram criadas para nós. Então, na visão deles, nós temos que lotar as cadeias e não as faculdades. E era muito contraditório para eles verem a mim ou alguns meninos que a gente tem aqui alcançarem um patamar que os filhos deles, que foram financiados a vida inteira, também concorriam de igual para igual. Então, a educação no Brasil não foi criada para nós, a educação aqui foi jogada para nós meio que para regrar uma parte da sociedade. Porque para quem tinha condição naquela época, a educação já era para formação. Lembro que quando o Lula entrou se discutiu muito esse fator histórico, a dívida educacional que o Brasil tinha com a sua população preta, periférica e indígena, que foi a população que sofreu todas as violações de direitos desde que o Brasil foi constituído Brasil. E essa dívida não foi paga. Infelizmente a gente ainda não conseguiu avançar o que iriamos conseguir. Porque tudo isso que foi feito era só o início do processo educacional. E, para quem tem conhecimento, sabe que dura bastante tempo, não é em 10 anos que se resolve o problema da educação de um país.

 

A política de cotas foi a principal política pública de inclusão da periferia nos espaços ocupados por uma maioria branca no país. Qual a importância disso ?

 Hoje ainda é o que está garantindo o nosso acesso. Porque se não fosse através da política de cotas, ainda estaria bem difícil, mesmo com um caminho aberto, encaminhado. Se a gente for esperar pela consciência natural da elite, isso não iria acontecer. Principalmente aqui em Natal, uma cidade que tem um custo de vida alto e que as pessoas têm que ter um certo poder aquisitivo para viver bem aqui. Então isso prevalece. Mas o cara da periferia tem que trabalhar, estudar e ser pai ao mesmo tempo ou ajudar a mãe em casa. Isso é muito complexo na vida de qualquer cara da periferia, que tem que fazer várias coisas ao mesmo tempo e ainda alcançar um mérito desse.

 

Alguns pesquisadores apontam que esse ódio de classe no Brasil está ligado ao fato do nosso passado escravista ainda ser muito recente. Você concorda ?

 A gente tem várias heranças desse período aqui diariamente. A própria comunidade onde estamos agora, a África, é um exemplo disso. O nome da comunidade foi dado de forma pejorativa por veranistas ricos para apelidar os moradores dessa região porque as pessoas faziam casas de palhas e eram negras. E os veranistas passavam nos seus automóveis e diziam: “olha os africanos ali”. E isso faz 60 anos, que é o tempo da comunidade. Então, há 60 anos a gente já tinha se libertado da escravidão, mas ainda tinha o racismo. Até hoje, 2018, a gente vê que o racismo é um fato real na nossa sociedade. As pessoas são racistas. E a gente vê isso claramente, sendo que não vemos assumidamente. Mas quando você fala da abordagem policial isso é outro exemplo. Se você notar os modelos de cadeias que nós temos vai ver que é muito semelhante aos navios negreiros, com presos amontoados. É muito semelhante às práticas que haviam quando traziam 800 escravos e chegavam com 750 porque 50 morriam pelo caminho e a galera conviva todo mundo junto. A abordagem da polícia hoje é muito parecida com a abordagem que os capitães do mato faziam. Então, eu não vejo muita diferença.

 

O que você pensa quando ouve alguém falar que a democracia está ameaçada ?

 A gente nunca teve democracia. Fico decepcionado quando vejo as pessoas insistindo nesse diálogo de democracia, fico vendo uma pessoa iludida, ludibriada. Porque desde que o Pedro Álvares Cabral ludibriou a primeira pessoa no Brasil a gente vive enganado.

 

Você é conhecido também por ser um disseminador das teorias de Paulo Freire nas periferias de Natal. Qual a importância dele nesse momento ?

 Antes da faculdade nem percebia muito o que eu fazia. Eu sabia que gostava de dar aula e os boys me chamavam de professor. Mas quando fui para a faculdade e comparei o que Paulo Freire falava com o que eu fazia, então vi muitas coincidências e fatos que me lembravam a mim mesmo. Então criei uma identidade com aquilo que ele falava. É como se eu tivesse fazendo práticas de Paulo Freire sem nem saber que ele era. Eu já praticava muita coisa. Então quando eu comecei a fazer esses comparativos, me identifiquei muito com a capacidade dele dizer que todo mundo é inteligente. Todo mundo tem capacidade. A gente tem várias inteligências, isso independente de uma sala de aula bonita ou não. Isso foi uma das coisas que mais me chamava atenção, a igualdade. Porque Paulo Freire não via uma educação de pobre e uma educação de rico, para ele era tudo educação. Isso chamou muito a minha atenção.

 

Que legado Paulo Freire deixou para você ?

 Assim como Paulo Freire, eu acredito muito nas pessoas. Acredito nesses boys, em qualquer um que tivesse aqui. Uma vez um menino me questionou. Eu estava dando aula de desenho e ele me disse assim: “professor, todo desenho que a gente mostra para o senhor, mesmo estando feio, o senhor diz que está massa. Por quê ?” Aí eu falei: “se você mostrasse um desenho pra mim e eu dissesse que estava uma merda, você voltaria aqui amanhã para ter aula comigo de novo ?” Começa daí. Arte é arte. Não existe bonito e feio. O que é bonito pra mim pode ser feio para você e vice-versa. Podemos achar bonito junto ou não. A arte é transformação e tem que começar por dentro. Se eu não começar a colocar uma autoestima naquele moleque para que ele vire um bom desenhista lá na frente ele nunca vai chegar. Tem que começar a acreditar nele mesmo. E isso é muito Paulo Freire. Ele falava muito nesse potencial interior que a gente tem. Você pode não saber falar inglês, mas pode saber dizer uma palavra ao contrário. Então ele via inteligência nesses pontos. Coisa que na escola as pessoas reprimem muito. Eu vi uma professora chamar de burro um aluno que escreveu uma palavra ao contrário. E no grafite a gente escreve ao contrário, que é para dificultar a leitura do leitor para que ele fique refletindo sobre aquilo. Então escrever ao contrário não deixa de ser uma inteligência.  Essa descoberta me colocou em contato com Paulo Freire.

 

Uma pesquisa recente mostrou que os seis maiores bilionários do Brasil concentram a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres. De que forma isso se reflete aqui na comunidade, por exemplo ?  

 Isso representa que 6 pessoas controlam a miséria de 100 milhões de pessoas. São seis pessoas que têm um lucro imenso em cima de 100 milhões de pessoas. Isso é uma coisa que sempre aconteceu, principalmente aqui no Brasil. Uma menor parte detém um maior poder aquisitivo em relação à maioria da população. Aqui mesmo em Natal, as pessoas que se dizem milionárias, não tem comprometimento algum com a sociedade. São pessoas em busca de um bem, um poder aquisitivo maior para ele poder ostentar e dizer que é um milionário. É diferente de outros países, onde apesar de serem ricos as pessoas se mexem por questões sociais, ambientais, ajudam alguns países da África , fazem mobilização, às vezes para ganhar nome, matérias em jornais, revistas, mas que tem também um lado social. Aqui no Brasil a gente vê pouca gente que detém riqueza se importando com a miséria da maioria. A galera não se importa porque eles precisam dessa miséria para manter o patamar que eles têm.

 

Há setores da esquerda já defendendo que a democracia só será garantida com mobilização popular, independente da via institucional. É por aí ?

 O que vai garantir, daqui para frente, algum estado democrático para nós acredito que seja nossa própria luta. Não vai ser fácil estabelecer. Eles virão tentar estabelecer um estado democrático para nós e é quando a gente percebe que o que eles propõe não é bem uma democracia… e vamos continuar lutando pelo que a gente acredita, a nossa real democracia, aquela que a gente precisa. Que eu como professor, educador, grafiteiro, preciso para continuar fazendo esse trabalho com os jovens da comunidade.

 

O projeto de Lei que criminalizava grafiteiros e pichadores da cidade, de autoria do vereador Felipe Alves (PMDB), é um exemplo de ataque a essa democracia que você fala ?

Exatamente. Não só aquele como muitos outros. Projetos que buscam um caráter de penalização, punição. A gente não vê aqui vereadores falarem que vão fomentar uma cultura hip hop, somar com a gente num projeto sólido onde a gente consiga ensinar jovens e dar oportunidades. Mas a gente vê projeto de lei para colocar a polícia para penalizar mais ainda a pessoa que quer se iniciar no meio artístico e não sabe por onde. É essa política que a gente não acredita. Eu não acredito que uma pessoa daquela defenda a democracia, ela está defendendo o interesse familiar dela. Está querendo fazer isso para ganhar um status na sociedade e dizer que está fazendo alguma coisa.

 

A periferia está longe de ser representada no parlamento do país em geral, da Câmara dos Deputados às câmaras municipais. Eu já vi você defendendo que a periferia precisa se organizar para eleger seus próprios representantes. Como está esse movimento ?

 Estamos começando justamente em formar nossos próprios candidatos, nossos próprios representantes. A gente não quer mais essa ideia de chegar um aqui, dizer que nos apoia e a gente sair defendendo porque a gente já cansou de ser usado dessa forma. Nossa proposta agora é formar nossas próprias pessoas. É como disse a você: sou um cara que acredita em todas essas crianças e adolescentes, quem sabe um desses não seja o nosso futuro candidato, entendeu ? A gente vai ter que dar um pontapé inicial, vamos ter que quebrar esse paradigma. Seja ele quem for, seja por mim, por outro, alguém vai ter que começar isso. Esse é um projeto nosso, que a gente pretende ir muito mais além do que a cultura hip hop. A periferia vai ter que formar seus próprios representantes.

 

O Frente Favela Brasil é um partido que vem se organizando a partir das periferias brasileiras. Você pretende fazer parte dessa frente ?

 Acompanho desde o início. Nesse ano não vou entrar, mas tenho contato com o Celso Athaíde, que é o fundador do partido, já trabalhei com ele durante quase 10 anos representando a Central Única de Favelas (CUFA), e agora está trazendo essa proposta. Para essa eleição não poderemos concorrer ainda porque nesse “processo democrático” que vivemos fomos impedidos de legalizar o partido. Porque eles já sabem que a gente já está se auto-afirmando.

 

Mas você é parte desse movimento, então…

 Acompanho, pretendo sim fazer parte. Senão for por ele, que seja por outro que a gente se identifique também. Mas que a ideia seja essa: a gente vai formar nossos próprios representantes e conquistar esses espaços. Disputar pela nossa dignidade e pela nossa democracia.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"