OPINIÃO

Milton Siqueira e a maldição das letras potiguares

Num sábado de sol, estávamos à toa eu e dilet@s amig@s – a megaprodutora cultural Raquel Lucena e o poeta (em) processo Falves Silva – até aportarmos no Mercado de Petrópolis.

Eu adoro aquele mercado. Não só porque é um deleite para os nossos sentidos – degustar os sabores do restaurante vegano, aspirar os cheiros de peixe fresco, ver as finezas dos antiquários, ouvir o som da gargalhada gostosa de Vera Catalivros, manusear os livros de Eduardo Seburubu. O Mercado de Petrópolis é uma alegria para mim, sobretudo, porque adoro testemunhar aquela prova de resistência de seus locatários em existir diante de toda a estupidez das gestões municipais e governamentais em não aproveitar, estimular e usufruir daquele espaço comercial e cultural.

Então fomos nós teimarmos também em (re)existir, tomar um chá verde e bater um papo com João Cândido no seu belo “Engenho de Arte”.

 

João Cândido resiste no Mercado de Petrópolis

João Cândido é um dos que teimam em resistir no Mercado de Petrópolis.

Pois estávamos lá, felizes em desfrutar do instante eterno, extasiados com aquele som, deslumbrados com aquelas peças que compõem o acervo de sua loja (de máquinas de datilografar poemas a ex-votos milagreiros, de livros raros a cachaças especiais), quando lá vem ele nos presentear com a melhor surpresa do dia: veio nos mostrar uma caixa de sapatos contendo poemas, originais e manuscritos, de Milton Siqueira.

Emocionada com esse presente do Acaso, o primeiro poema que sorteio, ao léu, me dá logo um soco na boca do estômago:

MEU DESEJO

Quando parar meu relógio

Meu infeliz coração

Não faça meu necrológio

Nenhum poeta cagão!

 

Meu necrológio não quero

Feito pelos literatos

Que estão mais longe de Homero

De que os cachorros e os ratos!

 

Desejo ser esquecido

Desta geração sem luz

Basta me ser querido

Do meu salvador Jesus.

 

Dos infames paquidermes

Eu desprezo a hipocrisia

Eu tenho horror a estes vermes

Humanos da tirania!

 

(Natal, 2 de março de 1982)

 

Um poema como este nos diz muito sobre o campo discursivo literário em Natal. Principalmente sobre suas regras de funcionamento, com suas relações de poder e procedimentos de exclusão.

Quem foi Milton Siqueira?

“Meu desejo”, um dos poemas originais de Milton Siqueira.

Com alguma dificuldade, conseguimos encontrar relatos dispersos acerca de sua pessoa e obra. O primeiro que achamos foi uma ligeira homenagem prestada pelo Jornalzinho do Sebo Vermelho, na edição de 4 de dezembro de 1990 (ano 1, n. 4), em que se publicam dois poemas do bardo maldito, “O Corvo” e “Rio Grande do Norte”.

Daí seguimos domingo afora em busca dos sites e blogs onde pudesse haver aquela referência a Milton Siqueira. Laços sanguíneos com Homero e Esmeraldo, certo, e o que mais? Nasceu em 1911 e morreu em 1988, certo, e o que mais? Alguma coisa aqui e ali, mas sobretudo aquela informação que as bocas não conseguem calar: o poeta cometeu um crime passional, matando a facadas uma companheira de (des)afetos. E o que mais?

Só um trabalho lento e de peso para reatualizar a memória de Milton Siqueira. Já soubemos com o pesquisador Thiago Gonzaga que alguns dos poucos livros publicados pelo poeta em vida estão disponíveis na biblioteca da Academia de Letras. E o arquivo de João Cândido, lá do Mercado de Petrópolis, está à espera de olhares curiosos que possam dizer o que significa o nome de Milton Siqueira nas letras potiguares.

Quanto a mim, num primeiro olhar, penso logo naquilo que Maingueneau e Foucault falaram sobre o funcionamento da literatura como campo social e palco de lutas de forças.

Maingueneau, por exemplo, vai dizer, acerca do campo discursivo literário (bebendo na fonte de campo social de Bourdieu), que é de se destacar o seu aspecto bélico – na guerra entre os que estão no centro (nas cadeiras das Academias, nos currículos das Universidades, no Cânone etc. e tal), uma legião de invisíveis está nas margens, poetas malditos, loucos, bêbados e bizarros que, sem serem citados ou bajulados, ousam fazer poesia.

Já Michel Foucault, num textinho enganosamente simples chamado “A Ordem do Discurso”, diz que um dos principais procedimentos discursivos de exclusão é a diferenciação entre razão e loucura. Assim, afirmar que alguém é “louco” é, de algum modo, negar-lhe o direito à palavra, silenciá-lo, enfim.

Com efeito, fomos procurar nas antologias, revistas e demais tratados sobre a literatura da terra alguma referência sobre Milton Siqueira e pouco sabemos além do fato de que ele, espírito nômade, transitava nas ruas do entorno do Café São Luiz e rabiscava seus sonetos de estética parnasiano-romântica. Pouco encontramos além de um registro dispersos aqui e ali.

O jornalista Wolden Madruga, por exemplo, relatou que ele estava sempre reclamando de tudo. Já o sebista Severino Ramos afirmou que lá na Livraria Universitária, “nenhum funcionário dava atenção a ele”.

Mas pungente mesmo é o relato de João Cândido sobre como conseguiu adquirir tal acervo (uma caixinha simplória de sapato lotada de poemas escritos em restos de papel). Eu não me atrevo a fazer aqui o spoiler, quem quiser que vá ao Mercado de Petrópolis nos sábados e pergunte ao prefeito por que um auditório/mezanino como o Abraão Palatinik está ocioso e ansioso por atividades culturais.

Muito há para se falar do bardo. Eu, de minha parte, só peço desculpas a ele por não ter lhe esquecido, tal como pediu no seu poema “Meu desejo”, o primeiro poema manuscrito que encontrei de um poeta que delirava como eu.

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