DEMOCRACIA, ENTREVISTA

Mineiro: “O Governo Robinson descambou ladeira abaixo depois que o PT saiu”

O deputado estadual Fernando Mineiro (PT) tem se posicionado quase que diariamente contra o projeto de Ajuste Fiscal enviado pelo Governo para a Assembleia Legislativa. Crítico do modelo de gestão adotado no Rio Grande do Norte por Robinson em parceria com o Governo Temer, o petista compara o governador ao presidente da República.

Nesta entrevista, Fernando Mineiro fala sobre o ajuste fiscal do Governo batizado por ele de “Cavalo de Troia” e o rompimento com o governo Robinson assim que o PSD apoiou o impeachment da ex-presidenta da Dilma. O parlamentar do PT também explica os motivos que o fizeram assumir a pré-candidatura a deputado federal lançada no final de 2017 e conta a expectativa para a semana decisiva no tabuleiro eleitoral com o julgamento do recurso da defesa do ex-presidente Lula, pelo Tribunal Regional Federal (TR4), em Porto Alegre, na próxima quarta-feira (24). .

 

 

Agência Saiba Mais: Que avaliação você faz do ajuste fiscal enviado pelo Governo Robinson ?

Fernando Mineiro: É um ajuste fiscal que, na verdade, é um grande cavalo de troia. O centro do ajuste é penalizar o pequeno servidor, disputando com a sociedade uma ideia de que a culpa da crise do Estado é do serviço público, é uma disputa ideológica do sentido do Estado, do público com a questão privada. Ou seja, precisa ajustar porque tem muito gasto e esse muito gasto significa e quando vai analisar é o pequeno e a pequena servidora. E não tem uma medida que mexe com o andar de cima, o setor de todos os poderes que pesam na folha mais. Do outro lado, opera no sentido de abrir espaço para dezenas de privatizações, quer seja diretamente empresas com a entrega de terrenos e patrimônio público imobiliário do Estado, quer seja criando mecanismos para beneficiar devedores com polpudas e atrativas políticas de redução de multas e juros, como é o caso do projeto que, na prática, perdoa a dívida do BANDERN e do BDRN. Agora vem à tona que nada foi feito com os devedores, quanto é a dívida… a conta não fecha porque repete uma receita adotada por governos passados. Se você pegar a história recente do Estado, esse modelo de extinguir empresas, culpabilizar o servidor e colocar pacotes duros sobre o funcionalismo vem sendo adotado desde a época do governo Garibaldi.

 

E é um modelo adotado, sobretudo agora, pelo Governo Temer. O ajuste fiscal da gestão Robinson tem pontos idênticos aos projetos do Temer.

 Sim está tendo um efeito em cadeia. Não à toa o governo Robinson aderiu ao golpe, ao projeto do Temer. Não é aderir individualmente ao Temer, a ideia de governo do Temer é a ideia de Estado que o Temer traz ao afastar a Dilma e não à toa, para a ironia da história, vi uma nota no jornal comentando que as medidas discutidas com o governador Robinson e parte da bancada sobre a reforma da previdência serviriam de modelo para o Brasil todo. Tem uma adesão a esse ideário. Eles querem transformar o Rio Grande do Norte num laboratório de maldades.

 

O secretário de Administração Cristiano Feitosa confirmou que a liberação dos R$ 420 milhões que o Temer prometeu está vinculado diretamente à aprovação do ajuste. O nome disso não é chantagem ?

 É a fala deles, não há documentos escritos. A lei de recuperação fiscal aprovada ano passado e direcionada para o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul não tem nada a ver com o Rio Grande do Norte porque a lei só se aplica aos Estados com dívidas muito grandes com a União, o que não é o caso do RN. Eles repetem feito papagaios para passar uma concepção de Estado, que é culpabilizar o servidor público, privatizar serviços fazer cortes pesados sobre o funcionalismo. A previdência, por exemplo. O rombo que hoje é de R$ 1,2 bilhão vai aumentar se a Assembleia aprovar a autorização para novos saques (no mesmo dia desta entrevista, os deputados aprovaram o projeto). Então se você tem um rombo de R$ 1,2 bi, vai para R$ 1,5 bi. O discurso é como se a culpa fosse do servidor. A previdência é um patrimônio do servidor. E outra coisa: se a previdência não desse lucro porque os bancos e as grandes empresas entrariam no ramo da previdência privada ? Então a lógica é criar um clima de queimar a previdência pública e fortalecer o discurso da previdência privada. Essa é a lógica que está sendo operada aqui e em todo o país.

 

Nesse pacote de ajuste fiscal também há um projeto que pede autorização para vender a Potigás, uma empresa que hoje dá lucro para o Estado num momento em que o Governo precisa de receita.

 Será que quem vai comprar a Potigas é a atual sócia da Gaspetro ? O RN tem 17% das ações da Potigás, o restante é da Petrobras. E a Gaspetro foi comprada por uma empresa japonesa, a Mitsui. Será que tudo isso é para favorecer a comprar para a Mitsui ? Então vou deixar anotado aqui para saber lá na frente se isso teve um endereço certo. A outra é: qual o valor da Potigas? Se você conversar com quatro secretários envolvidos nessa questão eles vão lhe dar quatro valores diferentes. Então é uma empresa que explora a questão do gás e que dá lucro para o Estado, o que mostra que o discurso não é só de desfazer daquilo que dá prejuízo, mas se desfazer daquilo que também dá lucro pela ideia da concepção de Estado. O que está em jogo dentro desse pacote é uma ideia de concepção de Estado e eles disputam com a sociedade essa concepção. Não à toa entidades empresariais soltaram uma nota em apoio ao pacote ao mesmo tempo em que silenciam, por exemplo, diante do perdão e da discriminação que o Estado teve com os empresários em relação, por exemplo, ao desconto e anistia das dívidas. Porque o empresário que pagou sua dívida com o BANDERN e o BDRN agora é penalizado. Quem está sendo premiado é quem driblou o tempo todo suas dívidas tributárias.

 

O Governo Robinson, na verdade, repete com a mensagem 159 o que o Temer fez com os Estados que deviam mais para a União: privilegiou os maiores devedores em detrimento de quem devia pouco.

 E está claro, com os fatos, que o governador Robinson com seu filho deputado (Fábio Farias) aderiram ao golpe porque tiveram a promessa dos empréstimos com o governo Temer. E é por isso que eles querem transformar o governo Robinson num laboratório nacional. É um casamento muito forte de concepção. O Robinson aderiu de armas, bagagens e ideias ao processo de golpe e de privatização no Brasil.

 

O pacote que o Governo enviou para a Assembleia é o segundo ajuste fiscal em três anos de gestão. O primeiro, aprovado em 2016, aumentou vários impostos e atingiu a maioria da sociedade. Porquê, na sua avaliação, não foi suficiente ?    

 Porque a lógica dos ajustes aplicados até então desviam o foco, que era tentar transferir ou buscar a solução para a crise fiscal que é concreta do Estado para de um lado o pequeno servidor e do outro o lado mais frágil da economia privada, que são os micro e pequenos. E os grandes empresários do poder público e privado são imexíveis, intocáveis. Esse modelo de gestão é o que caracterizou desde o processo de redemocratização, desde o final dos anos 1980 até agora. O Robinson teve oportunidade… como o PT o apoiou, e no primeiro ano quando eu exerci a liderança do Governo, eu falei para ele várias vezes que tinha uma oportunidade de fazer uma mudança, fazer uma inflexão nos rumos do Estado porque ele chegou ao Governo criando uma grande expectativa para a população e sem as amarras de ter sido apoiado pelos grupos… a despeito dele ser um cara tradicional, naquele momento ali ele foi é, digamos assim, um outsider em relação à política tradicional. Então ele teria condições de ter feito outra política.

 

Em que aspecto ?

 Uma delas é a relação entre os poderes. A questão orçamentária e de repasse dos recursos. Existe no Rio Grande do Norte um repasse à maior no repasse para os poderes. Aqui existe a jabuticaba potiguar. Só no Rio Grande do Norte existe a sobra dos recursos. É correto repassar os recursos para os Poderes se manterem ? Óbvio que tem que passar. O Judiciário, o Legislativo, o Tribunal de Contas, o Ministério Público, a Defensoria… mas quando existem sobras, juntando todos os poderes, está na ordem de R$ 500 milhões a R$ 600 milhões. Se esse dinheiro tivesse ido para o ajuste de contas entre o tesouro e os poderes, a crise que nós estamos passando hoje e também tem um componente nacional, seria muito minimizada. Significa mais do que uma folha e você não teria a pressão e o sufocamento do servidor de um lado e do fornecedor de outro. É preciso dizer isso: não é apenas o servidor que está pagando, os fornecedores do Estado também estão pagando muito. E tem o problema gravíssimo: uma crise na economia do serviço público afeta a economia privada porque o RN é muito dependente da renda pública. Gira em torno da economia do RN, cerca de 1/3 ou mais, com dinheiro estatal. E quando tem uma contenção, afeta tudo.

 

A agência Saiba Mais teve acesso à planilha de isenções fiscais do Governo, onde consta que até 2020 o Executivo espera renunciar a R$ 1,4 bilhão em impostos. Não é muito para o Estado que não consegue pagar servidor ?

 Nesse ano de 2018, a política de isenção está na ordem de R$ 432 milhões. Só o Proadi, que é o programa de desenvolvimento industrial do Estado, tem cerca de R$ 240 milhões desse montante. Eu sou favorável à isenção fiscal, agora precisa ser revista. Quem está se beneficiando há décadas dessas isenções ? É a mesma empresa ? Ou será que esse tipo de benefício poderia ser modificado para atender micro e pequeno empresário, que é o setor que emprega e está lá na ponta ? Quais são os setores beneficiados ? O setor da cerâmica está nesse tipo de benefício ? Eu acho que deveria porque gira um processo fundamental, que é na construção civil, gera emprego rápido. Compensa ? Tem que fazer esse debate. E outro debate que precisa ser feito com urgência é a da sonegação porque, atualmente, o Governo incentiva a sonegação.

 

Como ?

Através dos planos de refinanciamento dos débitos, as ações de Refis que já foram aprovadas. Isso é um estimulo à sonegação. Em vez de criar mecanismos para conter a sonegação, o sonegador espera o momento em que ele vai ser perdoado. Então essas três medidas: o repasse para os Poderes, a revisão das isenções com priorização para micro e pequeno empresário e o combate à sonegação, no meu ponto de vista, começariam a preparar o Estado para outro caminho. E eu falo começar porque em si não significam nada, é para preparar. E aí, com a retomada do crescimento e uma política nacional eu creio que pode voltar a crescer. Se você for analisar todos os Estados que estão sendo menos afetados pela atual crise tomaram medidas semelhantes a essa. Além disso, o Governo teria condições de estudar uma forma de suspender imediatamente os repasses para o consórcio da OAS no caso da Arena das Dunas.

 

Mas isso não geraria uma demanda jurídica para o Estado que, afinal, firmou o contrato com o consórcio ?  

 Teria uma demanda jurídica, mas o Governo tem argumento porque o consórcio está envolvido em denúncias com participação, inclusive, de senadores da República (o senador José Agripino Maia foi denunciado pela procuradoria geral da República por recebimento de propina na construção da Arena das Dunas e o ex-deputado federal Henrique Eduardo Alves está preso sob acusação de também receber propina na mesma obra). Então você tem argumento para pedir uma auditoria para avaliar qual foi o preço disso, percebe ? Avaliar o valor que foi pago e o ajuste. Não fazer porque eu quero, mas fazer uma análise da viabilidade de suspender. E o ponto de partida seria uma obra que está em evidência com senador do Estado denunciado nacionalmente em relação a essa questão. E a outra questão é o teto dos salários dos demais poderes. Hoje você tem o teto de R$ 31 mil, salário do desembargador, e criar um mecanismo de não ter os penduricalhos. Então essas são medidas que podem sim iniciar uma ação de Estado para que a médio prazo o Estado saia dessa crise.

 

2018 é um ano decisivo para a política e, em nível estadual, o PT já afirmou o compromisso de apresentar uma candidatura própria para o Governo. A senadora Fátima Bezerra lidera todas as pesquisas de opinião, algumas com mais do que o dobro para o segundo colocado. Como é que o PT vem para as eleições deste ano ?

 O PT vem com muita responsabilidade e disposição de enfrentar a situação do Estado por mais difícil que ela seja, estamos fazendo vários debates sobre isso. Até porque o nome da Fátima… eu não conheço nenhum caso na história até do PT nacional e do Estado que um nome tenha surgido tão de baixo para cima como o nome da Fátima. O PT não discutiu isso ainda, debateu sobre isso nem a própria Fátima tem decidido sobre isso. Então não temos nenhuma decisão sobre essa questão. Portanto é motivo de muito orgulho para nós, responsabilidade ver um nome surgindo com a força que está surgindo. Tenho conversado muito com a Fátima e dito que para nós é muito bom que um nome como o dela, com todo esse furacão na política, descrédito da política, criminalização da política, você vê um nome tão bem aceito e respeitado pela população do Estado e do Brasil. A Fátima está muito consciente do papel que tem nesse momento, ela está à altura desse desafio e com muita serenidade tem estudado, debatido as questões. E no momento certo tanto ela vai tomar uma decisão como o PT também vai tomar sua decisão. Acho que é isso, a gente precisa juntar e fazer um governo para além do PT. Minha tese é essa: preciso discutir com que parceiros, evidente que não constam aqueles contrários às nossas ideias, quem está no pacote ao golpe, quem tem contradição com o projeto mais democrático com distribuição de renda. Consta cidadãos e cidadãs que se propõe um projeto para um Estado sair da crise. E essa não é uma tarefa para o PT sozinho. Agora, como serão os aliados ? Temos que fazer um debate chamando empresários, trabalhadores, outros setores para discutir o Estado. E eu não defendo que a gente se alie com setores responsáveis pela situação do Estado agora, mas também não defendo que a gente arvore de sermos os únicos portadores das soluções para o Estado. Então é um exercício difícil. É um debate bom.

 

Em nota, o PT estadual já condicionou as alianças locais às articulações nacionais. Nesse cenário, nacionalmente o PT conversa com PDT, PSB e PC do B. Trazendo para o Estado, o PDT está praticamente fora porque o prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves deve confirmar a pré-candidatura pelo partido com o apoio do PMDB. Sobram o PC do B, que acabou de entregar os cargos no governo Robinson e tem uma relação histórica com o PT, além do PSB, mas que é liderado pelo deputado estadual Ricardo Motta e o federal Rafael Motta. É esse o cenário ?  

 Para limpar o meio de campo, possibilidade zero de ter aliança formal, eleitoral com setores do PMDB. Aliás, tudo que estou falando aqui é em meu nome, de responsabilidade intransferível. Primeiro quero dizer da importância do PC do B, tanto nacional como em nível estadual. O PC do B tem tido um papel fundamental na quadra política, não de agora, desde o primeiro governo Lula o PC do B não tem nenhuma dúvida de que lado está. Eles tem uma candidata à presidente muito importante que é a Manuela D’Ávila, e ainda assim tem sido linha de frente nos processos de criação dos comitês pela democracia em defesa o Lula ser candidato. Isso é muito importante, o PC do B é estratégico na luta democrática brasileira. Mas tem suas contradições localmente por participar do governo, agora entregou os cargos, mas tem o vice-governador e uma deputada… e independente de nossas divergências temos que respeitar esperar para saber qual a solução que será dada pelo PC do B. O PSB é outro desafio porque, no primeiro momento avalizou o golpe, apoiou o impeachment da Dilma com o deputado federal Rafael Motta. E como vai ficar por exemplo o imbróglio do PSB em São Paulo e de Pernambuco. Olha só: o Alckmin não vai sair candidato em São Paulo ? O vice dele é do PSB. Será que o PT vai apoiar o vice do PSB ? Temos que ter muita atenção a isso. E aqui, com todo o respeito histórico ao PDT, mas aqui o partido é como se fosse uma franquia da família Alves no Rio Grande do Norte. Então precisamos avaliar com calma.

 

Em 2014 haviam dois candidatos com mais chance de vencer a eleição: um deles, o ex-deputado Henrique Alves, está preso acusado de corrupção. O outro, atual governador Robinson Faria teve o apoio do PT. Quase um ano e meio após o início da gestão, houve o rompimento do PT com o governo em razão do apoio do PSD, sobretudo do deputado federal Fábio Farias, ao impeachment da ex-presidenta Dilma. O PT se arrepende do apoio que deu a Robinson ?

 Não porque política não é um gesto individual que a pessoa se arrepende como indivíduo. O PT é uma instituição e, dada aquelas condições, o PT fez o caminho correto. E quando no governo tivemos secretarias importantes com nossos filiados que ocuparam cargos que muito honraram o PT e fizeram um tremendo esforço para construir políticas públicas como nós tínhamos na sociedade: a Emater, a secretaria da Mulher, da Juventude, a Seara, a secretaria de Educação, a Fundação José Augusto… e uma coisa que nos orgulha e nós temos razão para andar de cabeça erguida no Estado foi que na mesma hora que foi anunciada a adesão do Robinson ao golpe cinco minutos depois nós entregamos os cargos. Não vacilamos um minuto. E se você prestar atenção, o governo Robinson descambou ladeira abaixo depois que o PT saiu. Perdeu o rumo. Porque o PT, modéstia à parte, teve um papel importante no governo Robinson no sentido de levantar o ânimo, o clima de renovação da política do Estado. O PT avalizou esse clima. O Robinson vem de uma família tradicional, mas quem avaliou a ideia de que poderia ser uma coisa nova foi o PT. E quando ele o PT… porque o Robinson traiu o PT, traiu o que o Lula fez por ele, traiu o que a Dilma fez por ele, o que nós fizemos por ele, o que a Fátima fez… aí entregamos os cargos. E a partir de então começou a descer ladeira abaixo. E a população não é burra, as pessoas acompanham… assim como a maioria do eleitorado do Rio Grande do Norte, nós votamos no Robinson. Ah, mas não tem uma frustração ? Claro que tem uma frustração. Mas nós sabemos de que lado estamos. As coisas no Rio Grande do Norte parecem realismo fantástico. Quem imaginaria que o governo que propôs uma mudança chegaria a esse ponto e o outro candidato, que parecia mais viável, hoje estaria preso. São as tragédias da política.

 

O golpe contra a Dilma mostrou também a importância de um legislativo forte, sobretudo o Congresso Nacional. Esse é o motivo da sua pré-candidatura à deputado federal após três mandatos consecutivos como deputado estadual ?

 O retrocesso em curso no Brasil tem uma origem, que é o Congresso Naiconal. Só foi possível fazer porque houve uma ocupação do Congresso pelo que há de mais conservador na política brasileira. As eleições de 2014 tiveram um duplo significado: se de um lado houve a vitória da Dilma, de outro precisamos reconhecer que houve uma derrota de setores progressistas nas eleições parlamentares de 2014. Eu li em dezembro de 2014, um livro editado pelo departamento sindical de apoio parlamentar com um perfil do Congresso Nacional. Naquele documento está claro a postura do Congresso: antisocial, privatista, impermeável à opinião pública, muito conservador, pulverizado. Nada que está acontecendo, para mim, foi surpresa porque estava escrito. Mais da metade se diz empresário. Como é que um país em que a maioria é trabalhador, o Congresso tem maioria de empresário. E eu não tenho nada contra empresário, tenho ideologicamente, mas como vivemos no sistema capitalista temos que conviver com as regras. Mas o Congresso representa isso, a bancada da bala, do latifundiário, bancada do setor evangélico mais conservador. E aqui quero fazer um parêntese. Há uma bobagem sendo dita de que todo evangélico é conservador e reacionário. Não é verdade isso. Talvez os principais representantes parlamentares dos evangélicos, que conseguiram maior visibilidade, o sejam e tenham uma marca conservador, mas não é verdade que todos são.

 

O foco da disputa política em 2018 é nacional ?

É nacional. E temos que lutar para mudar a correlação de forças porque o que está sendo destruído tem o trabalho sujo do Congresso Nacional. Então de um lado o foco é nacional para conter essa onda e para dar um apoio a um possível governo Lula. No meu ponto de vista, temos que criar uma nova correlação de força no país, combinado com os movimento sociais. Temos que ter dois vetores: no parlamento e nas bases da sociedade, com trabalhadores do campo, cidade, pequenos empresários… precisamos entrar em outro período histórico no Brasil. Esse período histórico que possibilitou as eleições do Lula e da Dilma está encerrado, precisamos construir um novo período histórico. Até quando teremos uma nova correlação de forças e reconstruir uma hegemonia no Brasil ? Isso está em aberto. Acho que vamos viver períodos de instabilidade ainda e de disputa de posicionamento de espaços de ideias, concepções de sociedade, concepções de mundo. Temos o setor progressista no Brasil e o avanço de setores conservadores no mundo. Esses dois polos é que temos como foco principal no próximo período, por isso o debate nacional e por isso minha decisão de colocar meu nome para disputar a Câmara Federal e aliado à mediocridade e cumplicidade da bancada federal.

 

O objetivo do PT é retomar a cadeira da ex-deputada Fátima Bezerra e se possível ampliar esse quantitativo ?

 Pois é, eu não gosto dessa ideia de retomar a cadeira porque passa uma ideia de que a gente vai fazer igual. E é impossível fazer um mandato igual a Fátima fez. Pelo jeito dela, a capacidade de trabalho dela, e porque o momento político é outro, entendeu ? Precisamos dizer isso. Mesmo que Lula seja o presidente, nós não vamos repetir os governos anteriores do Lula. Então se alguém acha que o Lula vai repetir as ações, não vai. É outro país, outra disputa. Vamos nos reposicionar nesse processo que vai se abrir. Se você para e analisa o que a Fátima fez como deputada federal, o que a Fátima potencializou, o que conseguiu trazer para o Estado, é uma coisa fantástica, em todas as áreas ela brigou, lutou, em todas as áreas do RN foi a parlamentar federal que mais pensou no Estado e cobrou e trouxe ações para o RN do governo federal. Eu desafio qualquer parlamentar do Estado que trouxe ações de tão vulto para o RN como a Fátima fez. Não estou falando de emendas individuais para atender prefeituras. Estou falando de ações.

 

Da bancada federal na Câmara, somente a deputada Zenaide Maia não apoiou o impeachment da Dilma. A maioria dos deputados também votou a favor de retrocessos para a sociedade, a exemplo da PEC do Teto dos Gastos e a reforma trabalhista. Que avaliação você faz dessa bancada federal ?

 Primeiro, 10 a 0 para as mulheres. Tanto a Fátima no Senado como Zenaide na Câmara, se não fossem as mulheres estávamos condenados ao fogo do inferno eterno. Elas salvaram a bancada federal. E a bancada federal é muito fraca, trocar apoio de prefeito por emenda, interesses individuais, e tem a cara do filhotismo. Aqui é muito forte, não pensa projetos, pegue as crises que o Estado está passando. Você tem um Rogério Marinho que é um ventríloquo do que há de pior no empresariado brasileiro. Ele é corajoso no sentido de reverberar o que o setor mais atrasado do empresariado brasileiro faz. Rogério Marinho é o menino de recado desse setor, uma barriga de aluguel, por isso é o relator da reforma trabalhista. Ele tem um apetite para fazer o mal para a maioria da sociedade. E você tem outros que não sabem nem o que estão fazendo lá. O Estado tem uma consciência cidadã que deveria ser mais represento, a Assembleia também merecia.

 

A semana também é decisiva para o Lula, já que dia 24 será o julgamento do recurso da defesa no TRF4, em Porto Alegre. O PT criou a estratégia de lançar comitês pela democracia em todo o país para mobilizar a população. Qual é a expectativa do partido para o dia 24 ?

 Entrar em outro clima, quarta-feira não é o fim, mas o início de um novo processo. A elite conservadora do país, que se apossou do poder e está com esse projeto tanto nacional quanto estadual, quer passar para a sociedade que o Lula está condenado e que não será candidato. E nós vamos fazer a disputa contrária: o Lula será lançado pré-candidato no dia 25. Então o mais importante para a gente não é o dia 24, mas o que vai acontecer depois desse dia. Então dia 25 o PT reúne nacionalmente sua executiva e espero que anuncie a pré-candidatura do Lula, apresentando formalmente à sociedade brasileira. Vamos dar continuidade esse ano um intenso projeto ideológico politico no país. O golpe é um processo de disputa ideológico no Brasil. Eles venceram, mas o que está colocado em 2018 está colocado os rumos das riquezas no Brasil e qual o papel do Brasil no mundo. E vai ser um debate permanente. Então a mim interesse mais o pós. O que vai ser a partir do dia 25 é o imponderável. O início de um processo de disputa. Primeiro lutando para o Lula ser candidato, depois a disputa eleitoral do Lula, depois a disputa para a posse do Lula e depois a disputa para o governo do Lula. E depois da posse começa tudo de novo, a disputa para governar. E aí governar evidentemente com uma série de caminhos que sabe que deve seguir e uma série de outros caminhos que sabe que deve passar longe.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"