OPINIÃO

Minhas Férias

Houve um tempo em que sair de férias era sinônimo de sumir do mapa, desconectar-se, adentrar uma esfera de existência onde o trabalho não tinha lugar. Naqueles tempos, no máximo, os formulários do departamento de pessoal pediam um telefone para contato, que podia ser o de um hotel ou da casa da mãe. Eram grandes as chances de não ser encontrado.

E eu sumi do mapa por vários anos seguidos. Pelas estradas do sertão, nas praias do Piauí, nas serras do Ceará, nos vales do Rio Grande do Sul, nos rios da Amazônia, nas montanhas da Argentina e até nos aeroportos da Europa.

Aí veio o 3G, o whatsapp, o 4G, o instagram. E ninguém mais consegue sumir do mapa.

A última vez que pude me desconectar de vez foi em Cuba graças, veja que contradição, ao bloqueio econômico dos Estados Unidos. Além de ser muito caro usar a internet – que vinha da China via satélite, meu celular ianque era bloqueado para conexões cubanas – jurava que não eram seguras, ainda que, até hoje, eu tenha tanto medo da vigilância chinesa quanto tenho da estadunidense.

Naqueles tempos, o planejamento das viagens de férias precisava ser mais cuidadoso. O que ver, o que fazer, onde dormir. No mínimo, precisávamos fazer mais anotações, já que a internet ainda não estava na palma da mão. Também precisávamos de cartões telefônicos ou de algum meio de enviar um recado para casa – afinal, não dá pra sumir do radar da minha mãe sem sofrer graves consequências o resto do ano.

Ainda não era preciso reservar ingressos com data e hora para entrar nos museus, não era preciso baixar um aplicativo para furar fila nas atrações turísticas. Também não era impossível achar um lugar pra dormir com a ajuda de um taxista ou motorista de ônibus ou encontrar um lugar para comer só olhando pela fachada e sem saber quantas estrelas os outros haviam deixado.

É claro que não estou reclamando do desenvolvimento tecnológico e das comunicações. Quem me conhece sabe o quanto eu uso meus aparelhinhos conectados na vida. Viajar de férias conectado nos permite viver a experiência com diversas camadas adicionais de informações que transformam completamente a experiência de “estar” em qualquer lugar. As passagens de ônibus ou de avião, uma carona de uma cidade para outra, o mapa de qualquer lugar, e todas as informações disponíveis a partir dele, o guia de um museu, a agenda dos teatros e cinemas, as festas, os bares, a música. Viajar agora é como visitar  outro bairro de uma cidade chamada mundo. Nós, turistas, andamos na cidade da mesma forma que os moradores.

E podemos falar facilmente com nossas mães pelo whatsapp.

Só não podemos sumir do mapa.

Aí vem o whatsapp do colega de trabalho, de um assessor de imprensa desavisado, vem uma notícia bomba de uma medida trágica do governo. Quase que diariamente, o trabalho se mete nos nossos dias livres.

O próprio métier do turista mudou. Quase não dá pra passar férias em uma grande cidade sem uma agenda, sem ingressos reservados, sem filas, sem hora pra nada. Agora é tudo uma correria e quanto mais conectado melhor.

Não sei medir de quais férias eu gosto mais. Tem muita coisa boa em estar de férias. O problema está mesmo na forma como enxergamos e experimentamos o trabalho o ano inteiro.

Talvez por isso, nas próximas férias, eu tenha coragem de passar alguns dias totalmente fora do ar em um lugar longínquo e desconhecido. Quem sabe, assim, Rafael Duarte não me encontra pra escrever o artigo da segunda!

 

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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