DEMOCRACIA

Moradores sem teto vão ao cinema pela 1ª vez em Natal para assistir Marighella e seguranças tentam barrar foto do grupo

Nesta quarta (17), pelo menos 40 moradores das ocupações Valdete Guerra e Emmanuel Bezerra, localizadas em Natal (RN), tiveram a chance de assistir ao filme Marighella. A maioria sequer tinha ido a um cinema na vida, muito menos assistido a um filme que tem tanta relação com a própria realidade.

Vai ser importante isso aí pra nós! Já estou gostando, mas vou gostar mais ainda quando assistir”, conta Edilma do Nascimento Barros, de 55 anos, moradora da ocupação Emmanuel Bezerra, ainda no saguão do cinema.

Edilma não tem emprego e apesar de ter trabalho como auxiliar de cozinha e doméstica em casas de família ao longo da vida, não conseguiu se aposentar porque nunca teve a carteira assinada. Atualmente, ela consegue sobreviver com o benefício que recebe do Bolsa Família, mas não sabe se o valor continuará sendo pago com a transição para o Auxílio Brasil.

É a única renda que tenho. Da outra vez ainda recebi R$ 358, não sei como vai ser agora. A gente vivia de doação, mas agora tá difícil”, lamenta Edilma, que estava acompanhada pela amiga Rosa Maria França, de 57 anos, que mora na mesma ocupação.

Eu ajudo Seu Manoel [outro morador] vendendo uma cartela, água… mas tá difícil com tudo aumentando! Tá tudo o olho da cara, uma carestia!”, desabafa Rosa para quem o cinema nunca coube no orçamento mais do que restrito.

As amigas Edilma e Rosa, antes da sessão começar I Foto: Mirella Lopes

E se você costuma frequentar os shoppings de Natal, sabe que não é comum encontrar pessoas tão simples nos corredores. Pelo menos, não em um volume tão expressivo e usando com orgulho a camiseta do Movimento de Luta nos Bairros Vilas e Favelas (MLB). O grupo chamou atenção de quem estava no terceiro piso do shopping Midway Mall, mas tudo transcorreu sem qualquer intercorrência.

Uma breve explicação antes do filme I Foto: Matheus Araújo

 

Antes de entrar para a sessão, eles tiveram uma breve explicação sobre quem era o personagem central do filme e d que forma aquela luta da época da ditadura está relacionada com as questões atuais.

A gente recebeu a doação de alguns ingressos e pudemos trazer algumas pessoas. Essa é uma questão importante pra nós porque essas pessoas acabam não tendo direito a vir ao cinema, porque é muito caro e não cabe no nosso orçamento, mas, mais importante do que isso é a história que esse filme tem. Carlos Marighella foi um lutador do nosso povo perseguido pela ditadura militar e num momento de fascismo instalado na presidência do nosso país é importante contar nossa história pelo direito à memória e à verdade, conta Samara Martins, uma das organizadoras que levou o grupo ao cinema.

Foto: Matheus Araújo

Para quem não viu o filme ainda, vale a pena enquanto obra, além da mensagem e simbologia que carrega. Ao longo das 2h35 que tem de duração, o longa que é a estreia do ator Wagner Moura na direção, relata a luta do brasileiro Carlos Marighella contra a ditadura militar de 1964. Além do personagem central, o filme também faz alusão a outras figuras importantes da nossa história que também encabeçaram a resistência, como o potiguar Virgílio Gomes da Silva. Ao final do filme, não poderia ter faltado os gritos de Fora Bolsonaro!

“Foi uma aprendizagem pra nós, né? Ali eu senti como se fosse uma parte da mesma luta que nós vivemos. Pra mim foi muito importante assistir aquele filme”, avalia Edilma do Nascimento Barros, depois de sua primeira experiência no cinema.

Tem muita emoção, muito sofrimento. A pessoa tem que ver e acreditar na luta, como foi no passado, também acontece agora no presente e o futuro avante! Fiquei muito emocionada, muito triste com o sentimento daquela família. Teve hora que ninguém quis olhar, tive muita pena”, conta a amiga, Rosa Maria França, ainda emocionada.

Seguranças tentam coibir foto

Tudo tinha transcorrido tranquilamente, até a hora da saída, quando o grupo decidiu bater uma foto para registrar o momento. O marketing do shopping, certamente, mexeu seus dedinhos pra evitar a “publicidade negativa” e os seguranças tentaram impedir que o grupo fizesse o registro com a justificativa de que aquilo poderia prejudicar a imagem do shopping e que aquele era um espaço particular e, portanto, eles tinham o direito de impedir a foto.

Eu, a repórter, já presenciei encontros de influenciadores digitais, sobre os quais nunca ouvi falar, causando tumultuo muito maior, mas sem qualquer intervenção por parte dos seguranças. Bom, por via das dúvidas e para cumprir nosso papel jornalístico, fica aqui o registro de que militantes políticos e moradores de um assentamento de pessoas sem teto assistiram à sessão do filme Marighella no Cinemark do Shopping Midway Mall. Eles não entraram de graça, nem receberam qualquer benesse da direção do estabelecimento para estar lá.

Imagens: Matheus Araújo
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