OPINIÃO

Moro está nu

A vaidade é uma qualidade que se desmedida nos transforma em pessoas tolas, embriagadas com a super ideia de nossas potencialidades, por vezes, imaginárias. Explico: Em 2018, o então juiz da Operação Lava Jato, Sérgio Moro, foi alçado a herói nacional pela opinião pública devidamente pavimentada e alicerçada pela grande mídia nacional que o transformou em um verdadeiro produto cultural, fazendo-o crer ser o detentor de grande poder sobre o destino político do país, a partir da bravata da anticorrupção.

Assim, seguiu forte na empreitada de demonização do Partido dos Trabalhadores, perseguindo sem nenhum pudor o maior líder daquele partido, o ex presidente Lula.

Com essa força e poder a ele destinados, em nome do ódio irracional que assolou o país, Moro imbuído de uma certa soberba, conduziu o julgamento de Lula com parcialidade cristalina, condenando-o ao final por “fatos indeterminados”, segundo suas próprias palavras.

E de nada adiantou a revelação de um empresário, cujo depoimento originou uma das condenações do ex-presidente, admitindo que tinha sido pressionado pelos procuradores a construir uma narrativa incriminadora do Lula, evidenciando que Moro não protagonizou o julgamento da maior liderança da esquerda mundial, longe disso, ele o perseguiu politicamente, retirando-o do pleito eleitoral de 2018 e entregando em bandeja a presidência da república a Bolsonaro.

Sérgio Moro, o então herói nacional, braço direito do Messias de 57, 7 milhões de brasileiros (total de votos no segundo turno das eleições de 2018), estava dotado de uma invejosa blindagem produzida pela grande mídia nacional e, ainda que a vaza jato[2] expusesse toda a sua prática imoral e antiética enquanto juiz, nada parecia lhe atingir. A nação já estava completamente dominada pelo ódio ao PT, por um rancor digno de divã.

Logo, se sentia um rei no alto de sua soberba. Abandonou sua carreira na magistratura, trampolim, e foi nomeado ministro do Ministério da Justiça no governo Bolsonaro, conjecturando nomeação ao STF, assim que possível.

Mas como todo castelo de areia não tarda a DesMoronar (que trocadilho mais infame, alguns dirão), o atual governo vem apresentando sinais de colapso, já que seu representante mor tem demonstrado que não tem qualquer compromisso com a nação e com a democracia, senão, de forma despudorada, com o seu próprio umbigo, além de demonstrar uma paixão avassaladora pelo fascismo.

E é nesse contexto, que o herói, o rei sem coroa, que desde que assumiu o Ministério da Justiça, andou sumido, acanhado, sem nada fazer, volta como o queridinho do Brasil (na forçosa construção da rede globo), ressurgindo para apagar o incêndio e unificar a direita, organizar a casa.

E numa tacada mestra, em coletiva de imprensa, “cai” atirando. Anuncia sua saída do Ministério da Justiça, com acusações gravíssimas contra Bolsonaro, afirmando que ele vem tentando intervir politicamente na Polícia Federal, o que não ocorreu nos governos anteriores, diga-se, Lula e Dilma.

E, de repente, aquele juiz de Curitiba que virou Ministro e havia sido escanteado, colocado no banco de reserva, volta a ter os holofotes voltados para si.

Nesse Big Brother Brasília, Moro tenta reconstruir a narrativa do herói, do homem que está à disposição da nação para serví-la (ora, se não parece um discurso de campanha?) e agindo politicamente, se reivindica técnico.

Todavia, Moro está nu!

O Sérgio Moro, aquele que anulou todas as sentenças do caso Banestado[3]; que anulou as perguntas de Cunha ao Temer; que tinha todas as provas contra Andrea Neves, irmã de Aécio, desde 2015 e não a prendeu ou sequer pediu investigação; que absolveu a mulher de Eduardo Cunha ignorando contas na Suíça e parecer do MP suíço dizendo que ela é quem as operava e absolveu também a mulher de Cabral, mesmo ela comprovadamente sendo líder de um esquema que comprava juízes e promotores e tendo mansões e mais de 11 milhões em joias.

Àquele que em quase 4 anos de Lava Jato, nunca prendeu, indiciou ou condenou nenhum tucano; que ignorou vídeo de ex-presidente do PSDB pedindo 10 milhões em propinas e o absolveu por “falta de provas”; que diminuiria em 90% a pena dos que delatariam o Lula, como Léo Pinheiro, Roberto Duque, etc. Mas só se delatassem Lula.

O mesmo que soltou Yousseff duas vezes e diminuiu sua pena no caso Banestado de 121 anos para apenas 1 ano e que quando descobriu que o maior desvio da Lava Jato (os 16 Bilhões da Refinaria Abreu e Lima em Pernambuco) envolvia somente o PSDB, PP e PSB, atribuiu a culpa a defuntos e realizou um julgamento no dia 22 de abril de 2015 em absoluto segredo, implicando apenas uns gatos pingados, sem citar nenhum político, dando o caso por encerrado e a imprensa, por seu turno, ocultou,[4] encontra-se nu.

Como o rei do conto A Roupa Nova do Imperador, Moro, extremamente vaidoso, necessitando de exclusividade e exibição, juntamente com a globo tenta emplacar em vão a anedota criada de sua aparência de herói, justo, probo e honesto, esquecendo que, entre erros e acertos, o povo brasileiro tem sempre uma criança dentro de si ( os memes que o digam) que em sua mais pura inocência e sinceridade não cai mais no conto do vigário e grita: Moro está nu!

[1] O título faz menção a um conto popular, A Roupa Nova do Imperador, escrito por Hans Christian Andersen e publicado pela primeira vez em 1837, que trata da vaidade humana.

[2] é o termo pelo qual ficou conhecido, na imprensa brasileira, o vazamento de conversas, realizadas através do aplicativo Telegram, entre o ex-juiz Sérgio Moro e o promotor Deltan Dallagnol, além de outros integrantes da força-tarefa da Operação Lava Jato. A divulgação das conversas foi feita pelo jornalista estadunidense Glenn Greenwald, do periódico virtual The Intercept, a partir de junho de 2019.

[3] O escândalo do Banestado, que tinha apenas tucanos envolvidos no esquema, tratou de remessas ilegais de divisas (mais de 500 bilhões), pelo sistema financeiro público brasileiro, para o exterior, na segunda metade da década de 1990.

[4] Retirado do texto “herói sem nenhum caráter”, Por: Lacildo B. Mattos. Disponível em

https://www.dimasroque.com.br/2019/07/ta-na-internet-heroi-sem-nenhum-carater.html. Acessado em 27/04/2020.

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