DEMOCRACIA

Morre Dermi Azevedo, o jornalista potiguar perseguido pela ditadura que nunca perdeu a esperança na democracia

O jornalista, cientista político e ativista dos Direitos Humanos Dermi Azevedo morreu nesta quarta-feira (1º), em São Paulo,  vítima de um ataque cardíaco fulminante. Ele tinha 72 anos de idade, era natural de Jardim do Seridó, município do Rio Grande do Norte, e lutava há alguns anos contra o mal de Parkinson. O velório ocorreu na manhã de hoje (2), na sede do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. O corpo foi sepultado no cemitério São Pedro, na Vila Alpina, capital paulista.

Dermi era uma referência nacional na área de Direitos Humanos e a história de vida dele se confunde com as lutas por um Brasil livre e mais democrático. Preso e perseguido pela ditadura militar, Dermi viu o filho de apenas 1 ano e 8 meses, Carlos Alexandre de Azevedo, ser agredido por um policial do DOPS no dia em que foi preso. O garoto cresceu com traumas provocados pela tortura a que foi submetido e cometeu suicídio em 2013, lembrando em carta o quanto sofreu após o episódio.

No início dos anos 1980, ao lado de Leonardo Boff, Dermi fundou o Movimento Nacional de Direitos Humanos. Os dois trabalhavam juntos na editora Vozes e foi do jornalista potiguar a ideia de agregar movimentos espalhados pelo país que atuavam isolados. Também presidiu a Comissão Pontifícia Justiça e Paz da Arquidiocese de Natal.

Numa entrevista concedida ao portal Tutameia, em 2018, Dermi explicou em poucas palavras porque escolheu a luta pelos direitos humanos:

“Sou militante dos direitos humanos porque assumi um compromisso com a vida. A vida é o bem mais importante. Eu não estou reivindicando nada, eu não tenho nada. Mas eu tenho a memória do meu filho para preservar. Por que um jovem é sacrificado pela sua própria Nação?  Eu não poderia acreditar em Deus, como eu acredito, se não acreditasse nos direitos humanos. De que adianta fazer orações –como agora, nas reuniões do presidente, é difícil começar uma reunião sem fazer uma oração–, mas de que adianta orar a Deus, que é o Deus da vida, foi Ele que nos deu a vida, e celebrar esse Deus torturando as pessoas? Então acho que minha grande motivação é a luta contra a tortura, em todos os níveis”.

Dermi Azevedo, jornalista e ativista dos Direitos Humanos

Ficha de Dermi Azevedo no DOPS / foto: acervo DHNet

Um dos amigos mais próximos de Dermi no Rio Grande do Norte foi o ativista Roberto Monte, uma das principais autoridades da área de Direitos Humanos do Estado e que reúne o maior acervo de entrevistas e informações sobre o trabalho e a trajetória do jornalista potiguar:

– Ele saiu de Natal no final de 1979 para trabalhar com o então frei Leonardo Boff na editora Vozes. A ideia de fundar o Movimento Nacional dos Direitos Humanos foi de Dermi. Eu era muito amigo dele. Todos os passos dessa área naquele período tinham o dedo de Dermi. Em 1982, aconteceu o 1º Encontro Nacional de Direitos Humanos e o primeiro grupo fora do eixo Rio São Paulo convidado para participar fomos nós aqui do Rio Grande do Norte. Então eu sempre tive informação privilegiada junto ao MNDH porque era muito amigo de Dermi e ele sempre foi uma referência nacional”.

Roberto Monte, ativista e amigo de Dermi Azevedo

São incontáveis as histórias de Dermi narradas por Roberto Monte, que se reconhece “o embaixador de Dermi” em Natal. Ele lembra que o jornalista foi demitido do jornal O Globo após repercutir a denúncia do jornalista potiguar Rubens Lemos, que reconheceu o brigadeiro Sócrates da Costa Monteiro como um de seus torturadores. Tanto Rubens como Dermi estiveram exilados no Chile.

Atuando como jornalista, Dermi Azevedo fez reportagens na Europa, América Latina e África. Foi repórter e redator das revistas e dos jornais A Folha de Caicó, Tribuna Estudantil, Tribuna do Norte, Diário de Natal, A Ordem, Salário Mínimo, Visão, Revista de Cultura Borges, de Petrópolis/RJ, O Bandeirante, de Lins, Última Hora de São Paulo, Domingo Ilustrado, Manchete, Fatos e Foto, Jornal da Tarde, Veja, Isto É, Diário do Grande ABC, Aqui São Paulo, Revés do Avesso.

Também trabalhou como correspondente, no Brasil, da Revista Francesa Informations Catholiques Internacionales de Paris e da Revista Isto É.

Entre as principais coberturas jornalísticas se destacam várias viagens do Papa João Paulo II, no Brasil e no exterior. Foi diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo durante dois mandatos e fundador e primeiro presidente da Cooperativa dos Jornalistas de Natal Ltda. (COOJORNAT).

Pós TV-DHNet fará homenagem a Dermi Azevedo neste domingo (5)

Trecho do documentário “Atordoado, permaneço Atento”, sobre a relação de Dermi Azevedo e o filho

No próximo domingo (5), a pós-TV DHNet criada no Youtube por Roberto Monte vai homenagear Dermi Azevedo a partir das 16h com imagens do próprio jornalista ainda inéditas e depoimentos de amigos. Entre as lembranças exibidas, uma é o depoimento dado por Dermi a Comissão da Verdade da OAB no Rio Grande do Norte. Também vai ao ar uma entrevista, sem edição, concedida por Azevedo ao Centro de Direitos Humanos e Memória Popular em 2012.

Lançado em 2020, o documentário ainda inédito “Atordoado, permaneço Atento”, dos diretores Henrique Amub e Lucas Rossi, será exibido nessa tarde de homenagens.

Quando encontra jornalistas contemporâneos do amigo é sempre questionado sobre o paradeiro de Azevedo:

– Até Dom Jaime, Arcebispo Metropolitano de Natal que foi seminarista com Dermi, pergunta por ele quando me encontra. É uma perda enorme”, disse.

Políticos e admiradores lamentam morte de Dermi Azevedo

Morte de Dermi Azevedo deixa uma lacuna entre ativistas da área de Direitos Humanos / foto: reprodução

Assim que foi confirmada a morte de Dermi Azevedo, políticos e admiradores do jornalista potiguar lamentaram a perda nas redes sociais. A ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina escreveu no twitter que Dermi foi “um incansável defensor da democracia”:

– Recebi a triste notícia do falecimento do amigo Dermi Azevedo. Preso pelo arbítrio, lutou contra a repressão e na defesa dos direitos humanos. Um incansável defensor da democracia. Meus sentimentos e solidariedade aos seus familiares e amigos. Dermi, presente! Com afeto, Luiza”, escreveu a ex-prefeita.

O ex-presidente da Associação dos Juízes pela Democracia Marcelo Semer também deixou mensagem exaltando a trajetória do jornalista:

– Conheci Dermi na época em que trabalhei na Folha. Grande pessoa, generosa. Me chamou para ajudar na AGEN, no curto tempo em que estudei jornalismo. Um lutador, mas com temperamento sempre calmo e delicado, apesar de carregar cicatrizes da ditadura. Vai em paz, Dermi”, afirmou.

A deputada federal Natália Bonavides também se manifestou pelas redes sociais:

– Toda solidariedade aos familiares e amigos do jornalista Dermi Azevedo. Sempre firme na defesa do justo, mesmo nos momentos mais difíceis, como na ditadura. Uma importante referência para todas e todos que defendem os direitos humanos”, disse.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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