DEMOCRACIA

Morre Eny Moreira, advogada de ex-presos políticos na ditadura que garantiu a liberdade do único potiguar torturado a lutar no Araguaia

Destemida, corajosa, generosa e amante da liberdade. São muitos os adjetivos que amigos e admiradores confiam à advogada Eny Raimundo Moreira, morta nesta terça-feira (4), aos 77 anos de idade, em São Paulo, vítima de insuficiência renal. Apesar da baixa estatura, a doutora Eny Moreira foi uma brasileira gigante na defesa por liberdade e democracia no país. Ela defendeu centenas de ex-presos políticos durante a ditadura militar, entre eles o comunista Glênio Sá, o único potiguar a lutar na Guerrilha do Araguaia, principal ação de luta armada no campo contra o regime militar instaurado a partir de 1964.

Glênio chegou a ficar dois anos preso sendo transferido para vários quarteis e presídios diferentes, até pedir à família que procurasse Eny Moreira, advogada de outros colegas presos que já haviam sido soltos ou estavam em vias de conquistar a liberdade.

Discípula de Sobral Pinto, jurista e uma das maiores referências na garantia da liberdade a ex-presos políticos brasileiros, Eny Moreira encarou tribunais militares sem qualquer temor e conquistou o respeito de inimigos políticos e principalmente de familiares de vítimas da ditadura. Atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz teve o pai assassinado pelos militares e destacou a força e a coragem da advogada:

– Faleceu hoje no Incor a Dra. Eny Moreira. Advogada combativa que resistiu ao regime militar defendendo perseguidos com coragem e heroísmo. Ela nunca aceitou calar-se diante do autoritarismo. Que Deus a conserve em bom lugar e console os seus entes queridos”, escreveu nas redes sociais.

Amigos, vítimas da ditadura e familiares de ex-presos políticos tinham uma dívida de gratidão com a doutora Eny Moreira. Um grupo custeou os gastos do tratamento dela no hospital Incor, entre eles os médicos Aitan Sipahi e Helenita Matos Sipahi, os  além do ex-ministro da Ciência e Tecnologia do Governo Lula Roberto Amaral, fundamentais nessa assistência:

– Pelo menos não faltou nada. Ela já vinha com problemas de saúde, depois esse problema no rim. Quando nos disseram, queríamos dar o máximo de assistência. Várias pessoas conhecidas ajudaram”, conta o professor emérito da UFPE, membro da Academia Brasileira de Ciência e pesquisador do CNPq Gilberto Sá.

Gilberto é irmão de Glênio, morto em 1990 num acidente automobilístico ainda hoje cercado de mistério mesmo 11 anos após a lei da anistia. Eny Moreira virou amiga da família Sá após assumir o processo de Glênio até a soltura do comunista, em 1974.

– Conhecemos a doutora Eny através do Glênio, que pediu que a procurássemos. Ela já atuava junto a outros presos. A gente não estava muito satisfeito com o advogado Marcelo Cerqueira e Glênio fez a opção por ela. E deu certo. Não havia motivo para os militares manterem Glênio preso. Porque nunca reconheceram a Guerrilha do Araguaia. Então, se não havia guerrilha não havia motivo para a prisão, não tinha nada oficial contra ele”, lembra.

Glênio Sá estava preso na temida Ilha das Cobras, presídio mantido pela Marinha para onde os militares levavam presos políticos, no Rio de Janeiro. Assim que o potiguar deixou a prisão, saiu da cadeia direto para a residência de Eny Moreira.

– Meu primeiro encontro com Glênio foi na casa dela, que me ligou dizendo que Glênio estava lá. Era uma pessoa extremamente generosa. Na defesa dos presos políticos, Eny Moreira era muito agressiva, era da escola do compadre Sobral Pinto, dizia coisas verdadeiras”.

Gilberto Sá, professor emérito da UFPE, membro da Academia Brasileira de Ciência, pesquisador do CNPq e irmão de Glênio Sá

Filha de Glênio, a jornalista, ativista em defesa dos Direitos Humanos e pesquisadora Jana Sá tinha 6 anos quando o pai morreu. E também lamentou a morte da advogada pelas redes sociais:

– Sua coragem e determinação foram fundamentais pra libertar meu pai de 2 anos de tortura nos porões da ditadura pela participação na Guerrilha do Araguaia. E foi a sua residência o 1o lugar de acolhimento a ele tb. Hoje, a vontade do teu excesso grita, silenciosa. Eny, farás muita falta”, escreveu a jornalista, que prepara para 2022 o lançamento de um documentário sobre a suspeita morte do pai.

Brasil: nunca mais 

Em 2012, Eny Moreira deu depoimento à Comissão Nacional da Verdade e lembrou dois casos em específico. Um deles foi o de Aurora Maria Nascimento Furtado, torturada e morta aos 26 anos. A advogada também mencionou o desaparecimento de Ísis Dias de Oliveira e narrou seus esforços para encontrá-la e o sofrimento de sua mãe. Na ocasião, Eny Moreira disse que os advogados que atuaram na defesa de perseguidos pelo regime ditatorial não eram corajosos, mas “tinham uma enorme capacidade de se indignar com a violência”.

Ainda na luta contra a ditadura, Eny Moreira criou o Comitê Brasileiro pela Anistia e foi autora do livro “Brasil: nunca mais”, no qual um grupo de especialistas dedicou-se durante 8 anos a reunir cópias de mais de 700 processos políticos que tramitaram pela Justiça Militar, entre abril de 64 e março de 79. Um relato doloroso da repressão e tortura que se abateram sobre o Brasil.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"