CULTURA

Movimento de direita e com inspiração “nacionalista” é criado por artistas fiéis a Bolsonaro em Natal

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Um grupo de artistas conservadores ligados à direita nacionalista e ao bolsonarismo de Natal (RN) lançou no sábado (18) um movimento de direita nacionalista com o propósito de “unir e libertar a classe artística, amordaçada e aprisionada dos calabouços da ditadura cultural ideológica de esquerda”.

Batizado de Canarinho e evocando as cores verde e amarelo da bandeira nacional, o grupo é encabeçado pelo artista plástico Tiago Vicente e tem entre os adeptos o pintor Francisco Eduardo, entre outros artistas. O músico Cleudo Freire teve o nome divulgado como membro do movimento, mas divulgou um texto negando participação:

– Odeio ter de dar explicações por causa de policiamento ideológico, mas infelizmente agora é necessário.
Que fique claro – não faço parte de nenhum movimento artístico fascista nem comunista, ateu nem religioso! Dito isso, quero falar que como músico trabalho onde houver possibilidade de trabalhar, onde houver perspectiva de sobrevivência física e espiritual do meu ofício. É dele que eu dependo pra sobreviver como pessoa e como artista, mas especificamente pra alimentar meu corpo e minha alma”, diz um trecho do texto publicado na rede social.

O lançamento do Canarinho aconteceu na galeria B-612, localizada na rua Doutor Barata, na Ribeira. Pelas imagens divulgadas nas redes sociais, aproximadamente 10 pessoas participaram do evento.

O movimento Canarinho foi assunto nesta segunda-feira (20) em vários grupos de whatsaap e revoltou artistas e ativistas da cidade. Na página no Facebook de Tiago Vicente há mensagens de apoio e repúdio ao movimento.

Alguns dos membros do movimento compartilharam nos últimos dias mensagens de apoio ao ex-secretário nacional de Cultura Roberto Alvim, demitido após copiar e divulgar um texto inspirado no ministro da Propaganda Nazista Joseph Goebbels.

Um deles é identificado como Erick Guerra O Caçador, para quem o Canarinho é um movimento em defesa da arte brasileira que representa o bom, o belo e o verdadeiro!”, escreveu antes de complementar com o clichê:

 – É a raiz do Brasil florando para o Mundo… E que estronde na Terra inteira: a nossa auriverde bandeira JAMAIS será vermelha!”, diz a postagem.

Tiago Vicente, que nunca escondeu sua admiração pelas práticas e também pela figura do presidente da República Jair Bolsonaro, publicou várias mensagens nas redes sociais sobre o movimento:

Fazemos a arte que eleva o homem, família, religiosidade, ligação do homem com a terra e patriotismo, esse é o movimento Canarinho. Se você artista se identifica com esses valores venha juntar- se a nós!”, diz uma das mensagens, cujo tom remete às convocações do Exército brasileiro.

Na visão do líder do grupo, o Canarinho é “arte e cultura livres de amarras ideológicas”.

Tiago Vicente critica um suposto aparelhamento político de esquerda nas instâncias culturais:

– Queremos ter a mesma oportunidade de trabalho e de verbas de fomento artístico que os famosos vinculados ao lulopetismo têm. Artistas excluídos do Brasil: juntem-se a nós!”, escreveu.

A agência Saiba Mais tentou contato por telefone com o artista plástico, mas não conseguiu falar com ele.

Simpatizando do movimento e também do bolsonarismo, o jornalista Sílvio Santiago declarou apoio ao movimento:

– Artistas e intelectuais potiguares de direita criam o coletivo Canarinho. É a resistência e o combate ao grupeto chinfrim de esquerda que sempre usurpou as políticas — e finanças — do Estado na área cultural. Dentre os integrantes estão o cantor Cleudo Benarez Freire é o pintor Tiago Vicente. Parabéns e tamojunto”, escreveu.

“Há método nessas loucuras”, critica jornalista

Ex-secretário nacional de Cultura foi demitido do cargo na sexta-feira (17) após a repercussão de um vídeo com conteúdo nazista

O jornalista Tácito Costa criticou o movimento e num texto publicado no facebook lembrou da exposição “Primeira Grande Exposição de Arte Alemã”, aberta pelos nazistas em 1937, em Munique, na Alemanha. No texto, ele questiona os leitores sobre o nome de algum dos artistas presentes na mostra que tenha sido lembrado pela história. Tácito relacionou a exposição na Alemanha nazista com o movimento criado em Natal:

O governo Bolsonaro adotou para a cultura a estratégia nazista, conforme explicitou o secretário de Cultura Roberto Alvim, em pronunciamento que teve repercussão internacional e provocou sua queda, embora as ideias defendidas pelo governo para o setor continuem de pé.

Natal, que já teve seu nome ligado à vanguarda artística, com o modernismo do poeta Jorge Fernandes, e com o Poema Processo, inicia um processo de enxovalhar esse passado, aderindo de formas pioneira e vergonhosa, a esta onda obscurantista pregada por Bolsonaro e Alvim.

Ontem, o artista plástico Francisco Eduardo anunciou em sua página no Facebook, a criação do movimento “Canarinho”. O nome não foi escolhido aleatoriamente. Há método nessas loucura e ideologia dos bolsonaristas. Remete ao verde, da bandeira brasileira e dos integralistas (o RN teve representantes ilustres nesse movimento fascista), à seleção brasileira de 1970 (“seleção canarinho”), período mais terrível da ditadura militar.

Para Tácito Costa, a história mostra, cabalmente, que arte e engajamento político/ideológico são antípodas:

“Resultam em obras medíocres, feias e com destino previsível: a lata de lixo”, escreveu.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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