DEMOCRACIA

Movimentos Negros de Natal protestam neste domingo (3) na igreja do Rosário dos Pretos por mais respeito e lançam manifesto

Movimentos negros e povos de terreiro de Natal realizam neste domingo (3) um protesto por mais respeito aos símbolos, cultura e religiosidade dos territórios ancestrais negros da capital potiguar. A manifestação está marcada para 15h, em frente à igreja de Nossa Senhora dos Pretos do Rosário e é uma resposta à polêmica retirada de estátuas decapitadas e deixadas ao relento no pátio externo do templo religioso, na Cidade Alta.
O ato público foi convocado pelo maracatu Nação Zambêracatu, que fará um ensaio aberto no local. Na ocasião também serão debatidas novas ações e futuras mobilizações.
De acordo com a Arquidiocese de Natal, as estátuas foram retiradas para evitar acidentes em razão da falta de manutenção e do nível de deterioração dos símbolos religiosos. A explicação oficial, porém, não foi suficiente para convencer movimentos sociais e religiosos de matriz africana.
Em uma carta-manifesto, os ativistas cobram “explicações e soluções adequadas”, especialmente porque a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Natal é o único patrimônio tombado referente à cultura negra no Rio Grande do Norte.
No documento, disponível aqui para novas adesões, os movimentos negros cobram respostas de órgãos de preservação como Arquidiocese, Fundação José Augusto e Iphan sobre providências a serem tomadas, o direito à gestão compartilhada de territórios ancestrais da cidade com participação ativa da comunidade afro potiguar; além da retirada da imagem de mãos escravizadas da Praça dos Escravos e sua substituição por uma obra de arte construída por uma pessoa negra.
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, na Cidade Alta
Leia a carta-manifesto na íntegra:

Carta-manifesto – territórios ancestrais negros da cidade do Natal

O recente ataque às esculturas de homens negros que ocupavam a frente da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Natal, Rio Grande do Norte, representa um espelho da falta de reflexão e autocrítica das instituições de gestão pública quanto ao reconhecimento formal da existência e relevância da população negra e seu legado vivo e ancestral, cultural, político e econômico para nosso estado.

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Natal é o único patrimônio tombado referente à cultura negra no Estado, foi construída por pessoas negras escravizadas, assim como as demais construções que guardam os legados culturais e religiosos da população branca da época colonial. A data de fundação está entre 1706 e 1714 tendo sido tombada como patrimônio material em de maio de 1987. No entanto, nos preocupa a reflexão sobre qual é o patrimônio imaterial que habita aquelas paredes.

Vemos acontecer a folclorização do racismo ao se instalar estátuas de homens negros em uma Igreja Católica que congrega nacionalmente a organização da fé e de inúmeras estratégias históricas de resistência cultural e política da população negra, e as retirarem sob a justificativa de necessidade de manutenção das mesmas em uma contradição atroz com as imagens que estão à público de restos de esculturas amontoados nos fundos do pátio da Igreja, decapitadas, cujas cabeças foram amontoadas em um canto de parede, uma imagem assustadora que, ao que parece, não impressiona os responsáveis por zelar pelo espaço.

O que aconteceria se as imagens sacras – brancas – estivessem recebendo o mesmo tipo de tratamento? Para nós, as estátuas dos negros do Rosário são sacras.

O público que atualmente frequenta as missas de domingo rezadas em latim tem um sentido de pertencimento distinto ao nosso, cuja fé respeitamos, mas sabemos que à época de sua construção, esse templo era destinado a acolher as pessoas negras da cidade que não tinham acesso aos espaços de culto nos templos frequentados pelas elites locais. Para além do descaso com esse território negro da cidade do Natal, está sendo ignorada a relação que a população negra tece com as simbologias ali estabelecidas, no momento em que não se fomenta a manutenção permanente das imagens relativas à população negra evitando assim sua deterioração ao longo do tempo, além da forma como ocorreu a retirada e depredação das estátuas.

Nenhum representante do movimento negro foi consultado pela mídia hegemônica que fez a cobertura do caso, de forma que fica evidente como aquele espaço ainda é lido como pertencente apenas à Igreja. Nós, como Movimento Negro Organizado, reivindicamos o direito de uma gestão compartilhada de nossos territórios.

É importante dizer ainda que ao lado da Igreja, onde havia a praça conhecida como Praça dos Escravos, permanece a imagem – alguns ousam chamar obra de arte – de mãos negras acorrentadas. Nesse manifesto dizemos que essa representação não interessa à nossa comunidade. Nem mesmo a arte sacra é sagrada se sustentar marcos racistas e coloniais, quanto mais uma imagem anônima que perpetua a ideia da escravização.

Essa carta-manifesto reivindica, portanto:

Que os órgãos responsáveis pela manutenção e conservação, Arquidiocese, IPHAN, Fundação José Augusto, se manifestem sobre o ocorrido e indiquem quais providências serão tomadas.

O direito a uma gestão compartilhada de nossos territórios ancestrais com participação ativa da comunidade afro potiguar;

A retirada da imagem de mãos escravizadas da Praça dos Escravos e sua substituição por uma obra de arte construída por uma pessoa negra, bem como a mudança do nome da Praça, de forma que aluda positivamente ao legado da população negra.

Por fim, convocamos a população para um batuque/encontro na frente da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no domingo, dia 03/10/2021, às 15h, para marcarmos presença no espaço e organizamos as próximas ações e mobilizações.

Sem mais, a sociedade civil organizada – movimentos negros potiguares – subscrevem.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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