OPINIÃO

Mudar em silêncio

Eveline Sin escreve às quartas-feiras na agência Saiba Mais
Anúncios

mudar em silêncio. as páginas sempre me desafiaram a isso. não que esteja falando de um silêncio real, propriamente dito. falo de um silêncio que ecoa. profundo como o mar de noite. afoito. morada de tantos. de tantas histórias. dos que se perderam e das que se perderam em silêncio. no vai e vem do marulho. silêncio mudo das águas em constante mudança. não há sal que se cristalize nos olhos. não há saudade que não se roa sozinha. não há saudação que não leve embora todas oferendas. ou feridas. o mar é essa caixa de renovação. nele amplio minha devoção. é nele que me afundo lenta, cada dia. fiando meus tecidos com os das conchas. pérolas. corais. restos de mariscos ou casas. história que se emproam em barcos. cascos dos cavalos de netuno. patas de areia. histórias de arrecifes embarreirados de arrebentação. cada onda do mar leva e traz a mudança, revirada no meu peito mudo. mesmo distante é ele que me rega. quando perto, é nele que deito minha lua. nele me dispo em silêncio. caindo muda. espalhada.

 

em reverência a água
me curvo e abro o chuveiro.
não posso ver água
que presto reverência.
dobro o joelho quando a chuva cai,
pra qualquer pingo d’água.
ajoelho pra lamber o sal da lágrima.
o peixe solitário
pula da prateleira de shampoos,
quer descer pelo ralo,
entrar pelo cano,
desaguar em algum canto,
chegar num mar.
mas a mão volta e prende seu rabo
no advanced keratin repair.
o frio do azulejo alcança meu corpo,
tento caber no pouco diâmetro
da água quente que cai,
mas sobram carnes,
ando sobrando demais.
passo frio
mesmo com portas e janelas fechadas.
eu fecho
aquela janela pequena do banheiro
que é pra ficar aberta,
eu fecho.
e abro tudo que tem que ser fechado,
eu abro.
abro mão e pernas.
escrevo na água que evaporou
e estacionou no vidro,
escrevo pra não durar.
quando não gosto, apago.
espero o bafo da água de novo,
é rápido.
o teto do banheiro
já virou estrada nebulosa.
acho que esqueci
de fechar a porta da casa com chave,
uma volta só.
eu sempre acho
que esqueci de fechar a porta da casa
quando estou debaixo d’água.
corro pela sala, molho todo chão,
chego na porta,
fechada.
volto correndo, tudo muito rápido,
escorrego.
caio sobre a água
que não me quis só de joelhos,
me quer no chão.

Artigo anteriorPróximo artigo
Avatar
Eveline Sin é artista, poeta e grafiteira. Escreve às quartas-feiras.