OPINIÃO

Muito prazer, Maria da Natividade tem muito para contar

Se alguém falar com você a respeito de Maria Natividade Cortez Gomes, possivelmente você não vai saber de quem se trata. Dizer que nasceu em Natal também não vai ajudar muito. Que teve 24 filhos, tampouco. Mas se a chamarmos de Nati Cortez (1914-1989), a situação muda de patamar. Isto porque esta mulher é a pioneira da literatura infantojuvenil produzida no Rio Grande do Norte. Escreveu textos sacros, foi cantora no coral salesiano, criou 17 filhos e atuou no campo da dramaturgia, produzindo textos para peças destinadas ao público adulto, inclusive. A data do seu nascimento, 8 de setembro, tornou-se parâmetro para a instituição do Dia Municipal do Livro Infantojuvenil na cidade que tanto amou. Lei semelhante foi aprovada pela Assembleia Legislativa.

Viveu intensamente os ares da Ribeira e como muitos adolescentes, que se apaixonam pela literatura, começou a escrever aos 14 anos. Autodidata, a natalense foi poetisa, atriz, pintora, trovadora e pesquisou sobre discos voadores. Nati era múltipla como seus sonhos e aspirações. Um de seus primeiros livros “Diálogo com as Estrelas ou o Mistério dos Discos Voadores” foi lançado nos anos 1970, quando a escritora estava com mais de 50 anos.

Sem fazer comparações ou tecer considerações sobre ordem de grandeza é preciso inserir esta autora de textos sacros entre as grandes mulheres potiguares das artes e das letras, que nasceram ou se radicaram no Rio Grande do Norte. Clube integrado por expressões culturais como Nísia Floresta, Ademilde Fonseca, Auta de Sousa, Dona Militana, Zila Mamede, Myriam Coeli, só para mencionar algumas das principais virtuoses da Terra de Poti. A precursora de livros para crianças produziu trovas e poesias ainda inéditas.

Ter sido a primeira pessoa a se dedicar a um público então esquecido, e não valorizado, por si só ensejaria colocar Nati Cortez no panteão dos grandes nomes da cultura norte-rio-grandense. Mais do que isso, ela foi uma pioneira em várias plataformas artísticas, em muitas áreas, sem deixar de ser mãe, avó, católica, dedicadamente curiosa por novos saberes. Seu texto traz uma carga teatral e musical, como em “A Abelhinha Sonhadora”, lançado pelo Serviço Nacional do Teatro em 1972, com o canto da personagem principal.

“Trá lá lá lá lá, um dia eu chego lá”.

Como todo autor infantojuvenil, pelos menos a maioria deles, nunca apagou a criança que vivia em seu interior. A autora dotada de uma simplicidade contagiante resumiu seu fazer artístico em uma profissão de fé que parece brotar do coração:

-Eu quero ir para um lugar que eu sei que existe, onde ninguém fica triste. Onde a maldade não prevalece, onde tudo é pequeno, nada cresce!

Revelou pela voz da personagem, a Abelhinha, o que antes de tudo se consolida numa crença.

Nati Cortez não só pela obra, mas pela figura humana que foi, precisa ser mais conhecida pelos potiguares, pelos universais. Foi uma abelhinha que voou longe, deixando seu mel em forma de palavras sonoras, melodiosas e teatrais nos diversos livros com os quais nos brindou.

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