OPINIÃO

Mulheres e meninas na Ciência

O dia 11 de fevereiro é o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. A data foi criada em 22 de dezembro de 2015, durante reunião da Assembleia Geral da ONU, idealizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e ONU Mulheres. É uma data fundamental para o reconhecimento do papel das mulheres na ciência e do incentivo dado às meninas para o estudo em diversas áreas do conhecimento.

A disparidade de gênero no campo científico reflete as desigualdades que nós mulheres enfrentamos cotidianamente. A violação ao direito à educação, ao livre acesso às artes e aos benefícios da ciência é, muitas vezes, resultado de ideologias políticas, culturais e religiosas arraigadas. Isso ainda afasta muitas meninas de frequentar a escola e impede que adolescentes e mulheres continuem seus estudos.

Por isso, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência foi criado para nos fazer refletir sobre as desigualdades do acesso a mulheres no campo científico, além da influência cultural sobre as meninas em despertar o interesse cotidiano sobre temas científicos, matemáticos e tecnológicos. Mulheres representam a metade da população mundial, ainda excluída de participar completamente de vários setores da economia.

A igualdade de gênero no campo científico ainda está muito distante de uma realidade mundial, naturalizada mesmo em países ricos e onde há um número maior de mulheres em comparação ao de homens. A participação de mulheres em outras áreas do conhecimento tem aumentado, mas ainda é lento no tocante à participação nas ciências exatas, tecnologia, engenharia, matemática, inovação e na gestão de empresas.

O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência é uma novidade recente, que une o setor público, privado, universidades, sociedade civil, organizações não-governamentais e indivíduos a abraçar essa causa tão importante para países pobres e em desenvolvimento. Algumas sociedades negam o direito à educação à mulher sob a desculpa “cultural”, que no fundo está sustentada apenas no discurso misógino.

No Brasil, na última década vivemos uma fase de aumento significativo das mulheres e meninas na escola e atuando em diversas áreas do conhecimento. Isso se deve, em parte, ao crescimento do número de mulheres em escolas técnicas e nas universidades federais. Segundo dados atuais do IBGE, há 51,8% de mulheres e 42,2% de homens, sendo a taxa de analfabetismo de 6,3% entre as mulheres e 6,9% entre os homens. Em alguns Estados da federação, mulheres passaram a ocupar 59% dos cursos tecnológicos de ensino médio, em áreas antes frequentadas apenas por homens. Mas no ensino universitário o número de mulheres nunca supera 20% na área de exatas.

No entanto, quando é dada uma oportunidade as mulheres tendem a superar as expectativas. Em abril de 2019 a equipe responsável pela primeira imagem do buraco negro no centro da galáxia M87 era liderada por uma jovem pesquisadora norte-americana. Em julho do mesmo ano, duas cientistas indianas lideraram a missão Chandrayaan-2, com a finalidade de levar a primeira sonda indiana à lua no foguete GSLV-MkIII. Há atuação de astronautas chinesas no lançamento do foguete Chang’e5 à lua em 2020.

No Brasil, uma mulher fundou uma empresa de serviços financeiros em que 43% das funcionárias também são mulheres. Não à toa, a cor escolhida para o cartão de crédito dessa empresa é roxa, cor associada ao movimento pelo direito ao voto feminino, em 1908. É uma exceção. Aqui muitas mulheres prestam concurso público em busca de segurança financeira, afinal o “piloto automático cultural” nacional é muito seletivo. A prioridade é dada à jovem, bonita e sensual, enquanto à mulher com filhos, divorciada e após os cinquenta anos dificilmente há emprego no setor privado.

Acredito que ainda seja pouco o incentivo e a familiaridade de mulheres com temas científicos e tecnológicos. Como mãe de uma menina, vejo que muitas empresas fabricantes de brinquedos ainda seguem estereótipos superáveis como “menino/azul/cientista” e “menina/rosa/vida doméstica”.

Analiso este simples ritual de escolha de um brinquedo por um adulto como uma forma de direcionar e orientar as escolhas futuras da criança. Mas será que essa orientação leva em consideração um olhar atento aos interesses e a vocação da criança ou será uma imposição do modo “piloto automático cultural” do adulto? De modo que seria interessante reconhecer se esse “piloto automático cultural” tende a excluir ou incluir as mulheres e meninas na ciência.

 

 

 

 

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Gilmara Benevides é doutora em Direito, interessada em história e relações culturais internacionais.