CIDADANIA

Mulheres são as mais afetadas com a queda de renda durante a pandemia

A pandemia do novo Coronavírus teve um impacto negativo de 20% na renda do brasileiro. A média mensal que já era ruim, ficou ainda pior e baixou de R$1.118 para R$893. No entanto, esses números são ainda mais preocupantes entre as mulheres, que tiveram uma queda de 20,54% na renda. Entre os homens esse índice foi de 19,56%, segundo a pesquisa coordenada pela Fundação Getúlio Vargas.

No nordeste esse números são ainda mais baixos. Com uma média de R$688 mensais, o Rio Grande do Norte tem a segunda melhor renda, ficando atrás apenas de Sergipe, que tem renda mensal de R$712. Para se chegar a essas conclusões, entram no cálculo a renda de trabalhadores formais, informais e aqueles sem emprego. De março pra cá, o coeficiente Gini, conceito criado para medir a desigualdade de renda no país subiu 2,82%. Pela medida, quanto mais próximo de zero, menor a desigualdade. No entanto, o Brasil caminha no sentido contrário, com um recorde na série que vem sendo medida desde 2012. Entre os mais pobres, a renda encolheu 27,9% e passou de R$199 para R$144. Dentre os motivos para a queda na renda está a redução da jornada de trabalho, para quem ainda tem um, e o desemprego.  Já entre os 10% mais ricos, o impacto foi menor, de 17,5%. A renda mensal dessa faixa passou de R$5.428 para R$4.476.

Mulheres na pandemia

Nos primeiros três meses do ano, as mulheres ocupavam 43% do mercado de trabalho potiguar, segundo dados do IBGE/RN. O percentual vem crescendo lentamente desde 2012, quando o índice de mulheres no mercado de trabalho no RN era de 39,4%. Um dado que chama a atenção é o fato da maioria, cerca de 80% delas, trabalharem em casa. Enquanto a maioria dos homens, cerca de 90%, exerce suas atividades em empresas. A falta de estrutura com creches acessíveis pode explicar essa diferença tão discrepante.

“No Brasil nós conseguimos ter o que autores chamam de ‘modelos de delegação’. Delegamos para outras mulheres, sejam avós, tias ou empregadas, para que cuidem das crianças e outras mulheres possam trabalhar. Às vezes, o salário não compensa pagar outra pessoa e na situação atual, muitos parentes ou avós não podem ficar com as crianças por causa das comorbidades e do risco de transmissão da Covid-19. Há um emaranhado que influencia nesses números”, avalia a professora do Departamento de Serviço Social da UFRN.

A realidade potiguar não fica muito distante dos números nacionais, que contabilizam uma participação de 46,3% das mulheres no setor produtivo, segundo um outro levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa econômica Aplicada (Ipea). O número revela a menor participação feminina no mercado de trabalho dos últimos trinta anos. O comparativo foi realizado usando os meses de abril e junho de 2020, em relação ao mesmo período do ano passado. A participação feminina que vinha numa alta crescente nos últimos 30 anos caiu 7% e chegou a 46,3%.

A pesquisa do Ipea também aponta que as mulheres com filhos pequenos, de até 10 anos, são as que mais encontram dificuldade em conseguir um novo emprego. A professora do Departamento de Serviço Social da UFRN, Ilidiana Diniz, também ressalta que essa inserção no mercado de trabalho tem ocorrido de forma precarizada e com sobrecarga de trabalho.

“Mulheres conquistaram a duras penas o acesso ao espaço produtivo, mas, historicamente esse espaço sempre foi permeado pela precarização e flexibilização. Mesmo com nível educacional superior ao dos homens, é difícil acessar esse espaço. O salário da mulher, em muitos casos, ainda é apenas uma complementação da renda da família, mesmo no Brasil atual, onde cerca de 35% das famílias são chefiadas por mulheres. Mesmo assim, elas estão empobrecidas. Na divisão do trabalho, ficam com as funções mais repetitivas, que não exigem muito da competência intelectual”, critica.

Na sua casa, caro leitor ou leitora, quem é responsável pelo cuidado com a família? Com os filhos, idosos e doentes? Pois é, na maior parte das vezes são as mulheres as primeiras a abrir mão do emprego quando surge algum doente, situação que se agravou durante a pandemia do novo Coronavírus.

“O capital se apodera apenas parcialmente dessa mãe de obra, porque é preciso que alguém cuide da esfera doméstica. A pandemia diz que é preciso escolher: a casa ou o trabalho. As mulheres são as primeiras a ficar desempregadas. Quando têm de escolher, são as que abrem mão do trabalho, o que é muito preocupante, esse é um número muito alto. A pandemia vai mudar a configuração da vida profissional da mulher, vamos observar um maior retorno delas pra casa. Não há políticas públicas para evitar isso. Falta creche, por exemplo”, adverte Ilidiana Diniz.

O desemprego é apenas um dos problemas enfrentados pelas mulheres durante a pandemia, quando também se observou o número crescente de denúncias de violência doméstica. Pelo levantamento feito pelo consórcio de mídias independentes formado pela Amazônia RealAgência Eco Nordeste#ColaboraPortal Catarinas e Ponte Jornalismo, entre abril e março, o número de feminicídios cresceu 5% em relação ao mesmo período do ano passado. O Rio Grande do Norte também ficou acima da média nesse quesito, com 0,27 casos de feminicídios para cada 100 mil habitantes, quando a média era de 0,21.

“Temos 9 milhões de desempregados no país, ainda não sabemos a proporção exata. Em curto prazo, é difícil mensurar o impacto da pandemia de violência doméstica e retorno ao trabalho em casa, mas sem dúvida é possível notar que ele existe. Infelizmente, os governos não conseguiram pensar e apontar no período inicial as disparidades em termos de desemprego e violência, políticas públicas que pensassem essas questões. A curto prazo, sabemos que as mulheres serão as mais afetadas” lamenta Ilidiana Diniz.

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