CULTURA

Músico potiguar que perdeu a renda devido ao Coronavírus estreia show no Instagram para pagar as contas

O drama vivido pelo segmento artístico após o cancelamento de contratos e fechamento de espaços culturais devido à pandemia do Coronavírus está levando profissionais da cultura a criar estratégias para sobreviver. Há casos de artistas que perderam toda a renda, outros parte dela.

O guitarrista potiguar Cleo Lima, por exemplo, decidiu levar para a internet o trabalho que, durante o período de quarentena, não poderá apresentar nos palcos. Com um trabalho autoral sólido e passagens por bandas populares de Natal como Revolver e Uskaravelho, Cleo acatou a sugestão de um colega e fará uma live nesta sexta-feira (20), a partir das 20h30, no Instagram, pela conta @cleolimaguitar.

Ele conta que a ideia já rondava a imaginação dele antes da pandemia, mas admite que o Coronavírus apressou as coisas:

– Eu tinha a ideia de fazer isso há algum tempo, bem antes desse alvoroço todo, mas não com esse perfil de abrir para contribuição financeira. Era como uma forma de divulgação, para conseguir novos contratos. Quando Marcos Bezerra lançou a ideia no grupo de jornalistas, minha primeira reação foi de descrédito, porque, na noite, é muito comum que o público compareça aos shows, curta a noite toda e depois peça para a Casa retirar o couvert da conta, no fim. Então pensei: “Poxa, se já não querem pagar no presencial, imagina online!”. Só que não tem muito o que fazer, né? E resolvi botar pra frente… só que a resposta imediata foi maravilhosa, muita gente ajudando na divulgação, mandando mensagens de apoio. Tô muito feliz com a repercussão que isso tá gerando”, diz.

Aos amigos, fãs e admiradores que puderem contribuir durante o show programado inicialmente para ocorrer durante 2 horas, Cleo disponibilizará os dados bancários em três agências para depósito.

O repertório vai passear por clássicos da música internacional dos anos 1960, 1970 e 1980, além de pop rock nacional:

– Vai rolar Beatles, Pink Floyd, Bee Gees, Eric Clapton, Queen, Led Zeppelin, A-Ha, Duran Duran… de nacional, Barão Vermelho, Legião Urbana, Paralamas. E, claro, vou atender alguns pedidos dos espectadores”, diz.

O músico é casado e tem duas filhas. Ele conta que todos os contratos confirmados antes de estourar a pandemia foram cancelados da noite para o dia e não tem perspectiva na música para os próximos meses se a situação de emergência se mantiver.

– Pelo menos 65% da minha renda, em média, vem da música. Minha agenda caiu toda, inclusive um show grande com o Uskaravelho, que ia rolar no Cactus Motofest na sexta, em Currais Novos. Todo o evento foi cancelado”, disse.

A expectativa do guitarrista é manter as lives sempre às sextas-feiras e, eventualmente, dividir o show com um convidado especial.

– A ideia é repetir na próxima sexta e tô pensando em fazer com algum convidado considerando que esse convidado esteja em isolamento, bonitinho e sem sintomas (risos), mas só vou definir isso após o termômetro dessa primeira live de sexta agora”, ressalta.

Guitarrista Cleo Lima, em show com a banda Uskarevelho (foto: acervo pessoal)

Cleo Lima tem acompanhado de longe algumas iniciativas divulgadas por alguns estados para atenuar a crise dos artistas. No Maranhão, por exemplo, o governador Flávio Dino (PCdoB) afirmou que vai lançar um edital para apresentações culturais pela internet. Sobre a intervenção do Estado nesses casos, ele defende a necessidade, mas questiona alguns mecanismos:

– Algo tem que ser feito, isso é fato. Como vai ser a viabilidade disso é que são elas… o Governo do Estado anunciou que fará reuniões para tratar do assunto, mas fico pensando como seria conduzido um edital nessas circunstâncias. A política de editais culturais – falando em circunstâncias normais, evidentemente – é bem excludente, pois os certames costumam exigir uma quantidade absurda de documentos, comprovantes, etc, que privilegiam um nicho bem específico de artistas que já tem empresa constituída, serviços de contabilidade, esse tipo de coisa. O artista do dia-a-dia, do barzinho, muitas vezes não tem acesso a esses editais por causa disso. Então, para mim, aí é que mora a grande questão: como viabilizar esse tipo de apoio num momento em que, mesmo precisando muito, ninguém vai conseguir emitir mil certidões e declarações ou pagar taxas de licenciamento pra isso ou aquilo? E, ao mesmo tempo, como garantir que não vai ter gente de fora do mercado querendo se aproveitar? Sinceramente, não faço a menor ideia de como isso pode ser feito”, disse.

Como sugestão, Lima acredita que o Governo poderia viabilizar subsídios para gastos dos artistas que não podem esperar, a exemplo de luz, água, aluguel, entre outros:

– Eu acho que a solução pode passar pelo outro lado… por exemplo, eu vou deixar de ganhar mais da metade do meu “salário”, mas os boletos vêm todos bater à minha porta com uma pontualidade britânica. Se eu deixar de pagar a mensalidade do colégio das minhas filhas, tenho certeza que com 30 dias os boletos irão para escritórios de cobrança. Se eu não pagar a luz, a Cosern põe meu nome no Serasa. Aluguel, taxa de condomínio, tudo isso. Talvez o poder público possa tentar viabilizar subsídios que segurem essa barra, ao menos parcialmente”, diz.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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