OPINIÃO

Na guerra contra as fake news, o vencedor não leva as batatas

A notícia até ficou velha. Na semana passada, seis homens entre 16 e 33 anos foram mortos em Nísia Floresta. Nenhum deles tinha passagem pela polícia, mas estariam em frente a um ponto de venda de drogas. Ao menos três deles tiveram suas fotos divulgadas em mensagens no whatsapp com uma mensagem informando que estariam praticando delitos na região. O crime segue em investigação com segredo de justiça. Não sabemos as hipóteses aventadas pela polícia para desvendar o crime. Poderíamos pensar em acerto de contas com traficantes de drogas, disputa entre facções criminosas e até mesmo um grupo de extermínio desses que prometem acabar com a criminalidade cometendo crimes ainda mais graves.

Mas será que alguma das linhas de investigação vai buscar a origem das mensagens na internet? Pode ser que não, mas essas mortes podem estar diretamente relacionadas à circulação de mensagens pela internet, especialmente pelos aplicativos de mensagens pelo celular ou em “páginas especializadas” em divulgar crimes e espalhar o pânico nosso de cada dia. E ainda nem estou falando em fake news. A crise econômica, o desemprego e o crescimento da desigualdade deixam o crime – organizado ou não – como uma das poucas alternativas de vida para os jovens da periferia.

Pode até ser que os jovens estivessem, de fato, cometendo assaltos ou roubos para garantir o dinheiro da droga, da cachaça ou até da comida. O fato é que a circulação desta informação – verdadeira ou falsa – aconteceu imediatamente antes de alguém decidir fazer justiça com as próprias mãos. Qualquer dos cenários nos coloca em uma posição assustadora e nos põem a refletir sobre todos os usos que poderíamos ter dado às tecnologias de comunicação. E parece que vamos escolher os que trazem resultados desagregadores, excludentes e destrutivos.

O inimigo da vez são as fake news. Nos últimos dias, o Whatsapp foi obrigado a tomar uma série de medidas para restringir a circulação de mensagens entre usuários na Índia. Nos últimos meses, a população do estado Gujarat passou a compartilhar informações que davam conta da chegada de traficantes de crianças na região. O fato ganhou destaque até na televisão. E mais de vinte pessoas foram mortas ao serem confundidas com os tais traficantes. Até um mensageiro governamental não resistiu ao ataque dos moradores de uma vila onde havia chegado para tentar frear a onda de boatos.

Aqui no Brasil, pouca coisa mudou no principal aplicativo de troca de mensagens. A partir de agora, as mensagens encaminhadas aparecem com um destaque – prática que já era adotada por outros serviços. Na Índia, outras alterações realizadas pela empresa deixaram mais difícil o compartilhamento de mensagens em massa. Tudo isso pode ser inútil se não apontarmos os holofotes para as questões fundamentais do problema.

É claro que empresas como Google e Facebook precisam tomar medidas para evitar a propagação massiva de informações falsas, de conteúdos ilícitos e abusivos nas suas plataformas. Precisamos educar os usuários a identificarem boatos, informações falsas ou mesmo notícias antigas descontextualizadas. Precisamos falar, inclusive, sobre a regulamentação desses serviços para delimitar suas responsabilidades e garantir a liberdade de expressão.

O problema é que, se conseguirmos nos livrar das fake news, ainda viveremos sob o signo da violência física e simbólica, o Estado ainda estará ausente das periferias, os jovens negros e a população trans continuarão sendo mortos, as polícias frágeis e desestruturadas seguirão ineficientes na prevenção e investigação de crimes e a mídia seguirá reverberando a violência e, ainda mais, estimulando o esvaziamento da política enquanto solução para os problemas sociais.

Provavelmente, uma onda de boatos não poderia fazer tanto estrago, se as escolas promovessem valores de não-violência, se as pessoas pudessem encontrar trabalho com salários dignos, se o crime organizado não impusesse seus julgamentos sumários em zonas inteiras das nossas grandes cidades, se as emissoras de televisão não transmitissem programas policialescos enquanto comemos nossos almoços.

Ao que parece, estamos encantados com a pirotecnia do combate às fake news e não estamos muito interessados em enfrentar nada disso agora.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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