OPINIÃO

Na vanguarda… os livros

Outro dia estava eu distraída buscando consolo para estes tempos em um sebo, esse depósito de livros e sonhos, quando vi uma pessoa chegar e perguntar:

– Moço, tem aí “O inspetor geral”?

Fiquei maravilhada e logo depois fui correndo revisitar a minha edição da “comédia heróica em cinco atos” de Nicolai Gogol, em uma tradução de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, publicada pela Ediouro. A sensação não é menor que deslumbre: incrível como um livro, escrito e publicado lá na Rússia do século XIX, pode nos dizer tanto e sobre tudo, independentemente de onde e quando. Na comédia de Gogol, em uma quebrada longínqua qualquer, um governador corrupto fica sabendo que receberá a visita de um inspetor geral para avaliar sua administração e então mobiliza todas as forças e frentes para mostrar uma suposta – e falsa – eficiência. Tal e qual o comportamento de um governo que arrotou antes indiferença e arrogância diante da pandemia e, depois de mais de 400 mil mortes e durante uma Comissão Parlamentar de Inquérito, ao saber da morte (por covid) de um humorista querido unanimemente no cenário nacional, esboça fajuta nota de pesar.

Não tem jeito: os livros estão sempre à frente para dizer este nosso mundo, vasto mundo.

E por falar nisso, e falando em livros e em sebos, fico sabendo da alegre notícia de uma reedição: “Por uma vanguarda nordestina”, de Anchieta Fernandes. O título, originalmente publicado em 1976 pela Fundação José Augusto, renasce em edição revista e ampliada graças ao espírito empreendedor e inspirado que surge dessa fusão sensacional entre o que é ser simultaneamente leitor, autor e editor: Oreny Júnior, responsável pelo Selo Cultural Gageiro Curió (leitores entenderão).

Aprovado pela Lei Aldir Blanc, com o projeto gráfico caprichado de José Aglio Neto, este é o segundo número do catálogo que, ainda engatinhando, promete: após lançar em 2018 o inédito “Bissexto”, de João Batista de Moraes Neto (nosso João da Rua, gente!), a mais nova aventura editorial de Oreny se concentra em revisitar um clássico, o que sempre cai bem: não apenas revisitar e rediscutir o conceito de vanguarda, como também render homenagem a nomes como Alexis Gurgel, Álvaro de Sá, Bianor Paulino, Bosco Lopes, Dailor Varela, Moacy Cirne, Ribamar Gurgel e Wlademir Dias-Pino, sem falar de outros grandes como Falves Silva, Jota Medeiros e Avelino de Araújo.

O lançamento acontece no sábado, dia 8 de maio, de 10 às 14 horas, lá no Mercado de Petrópolis, onde se localiza o sebo Gageiro Curió. E o Selo Cultural de Oreny está também nas redes sociais virtuais, é só se aventurar nas malhas digitais.

Boto fé nessa aventura de Oreny Júnior, um autor-editor que começou com os jornais alternativos do bairro de Cidade da Esperança, quando participava dos movimentos culturais do bairro e resolveu editar o MOLEC (movimento, lazer, esporte e cultura), apresentando-se na cena cultural do próprio bairro. Boto fé porque é preciso ter esperança mesmo, Oreny! Em tempos tão cruéis como estes que vivemos, precisamos seguir a lição do personagem Korobikin na comédia de Gogol e crer que a alma precisa também ser alimentada.

Que venham mais autores, editores, sebos e livros! E que caiam os governos dos canalhas!

 

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *