OPINIÃO

“Nada a esconder” e os subterrâneos da moral burguesa

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[SEM SPOILERS]

Em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, Engels afirma que existe uma série de formas de organização familiar que se encontram em contradição direta com aquelas admitidas como as únicas válidas. Segundo ele, a concepção burguesa tradicional reconhece apenas a monogamia, silenciando sobre o fato de que, na prática, as barreiras impostas pela sociedade oficial – monogâmica, patriarcal, heteronormativa, etc – costumam ser tácita e inescrupulosamente transgredidas.

É sobre essa transgressão que trata o filme “Nada a esconder”, de Fred Cavayé, disponível na Netflix.

O filme narra os acontecimentos de um jantar entre velhos amigos após a decisão conjunta de compartilhar mensagens e ligações que eventualmente receberem durante a noite.

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A brincadeira acaba tomando rumos inesperados e se tornando uma síntese de como o submundo das convenções sociais, das mentiras e da hipocrisia são fundamentais enquanto argamassa que sustenta a sociedade sobre os tabus denunciados por Engels, regras tácitas que impedem o colapso das relações burguesas e a implosão da família enquanto unidade econômica da sociedade.

Todos da mesa – à exceção de um dos personagens – se encontram em relações conjugais consolidadas. O desenvolvimento da história mostra como tais relações, ainda que duradouras, vêm se mantendo com base em omissões deliberadas e ações e desejos inconfessáveis, todos essenciais para que permaneçam existindo em conformidade com os parâmetros estabelecidos pelas formas oficiais.

Alguns dos personagens, por exemplo, mantêm relações virtuais com terceiros envolvendo trocas de nudes e mensagens picantes. Outros levam sua infidelidade conjugal ao extremo da ousadia, relacionando-se com pessoas inclusive daquele círculo afetivo ao mesmo tempo em que se revelam homofóbicos diante dos sinais de homossexualidade de um dos presentes. “Eu nem queria me casar”, desabafa outra personagem não antes de revelar a frequência diária de sua vida sexual com o marido adúltero, responsável por uma relação possessiva cuja insegurança é revelada no fato de não aceitar muito bem o fato da esposa ainda manter uma relação amistosa com seu ex-namorado.

O filme é exatamente sobre essas regras, convenções de submundo necessárias para que a sociedade burguesa não entre em colapso em suas relações socio-afetivas. É importante observar que a história se passa na França, berço do iluminismo onde, em 2013, pouco antes da aprovação do casamento gay pelo Parlamento Francês, 300 mil pessoas compareceram a um comício em Paris para rechaçar as medidas de François Hollande no sentido de legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e facultar o direito de adoção a casais homossexuais. Por muito pouco, François Fillon, porta-voz dos manifestantes conservadores, não levou a eleição presidencial de 2017.

Em De Olhos Bem Fechados, de Kubrick, os subterrâneos das relações monogâmicas são também abordados, ainda que sem a amortecedora atmosfera cômica de Nada a esconder.

Em determinada cena, a personagem de Nicole Kidman questiona seu marido, interpretado por Tom Cruise, se o mesmo não manifestou desejo por duas jovens que o abordaram durante uma festa. Incrédula com a resposta negativa, ela dá detalhes de como certa vez chegou a fantasiar com outro homem, um marinheiro que conheceu num hotel, ao ponto de cogitar largar sua família e seu futuro para ficar com ele. Apesar de não tê-lo tirado da cabeça mesmo durante o sexo com seu marido, ela assume que em nenhum momento deixou de amá-lo. Seu amor naquele momento, entretanto, tonara-se um misto de ternura e tristeza.

A personagem de Kidman quebra o véu da superficialidade das relações conjugais idealizadas e revela a natureza vulcânica de seus desejos sexuais, agrilhoados por uma sociedade que, sob o manto das regras e convenções monogâmicas, esconde e até estimula a poligamia e a extraconjugalidade exclusivamente em favor dos homens. Não surpreende que “família” venha de famulus, “escravo doméstico” do latim, e signifique originariamente o conjunto de escravos pertencentes a um mesmo homem, beneficiário direto do casamento, cuja criação se deu exatamente para garantir o direito paterno à transmissão da herança.

Isso explica por que a monogamia não aparece na história como uma reconciliação entre o homem e a mulher. E menos ainda como a forma mais elevada de matrimônio. Aparece, sim, sob a roupagem de escravização de um sexo pelo outro, afirma o pensador alemão, que conclui: “o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino”. A “denúncia” trazida em Nada a esconder não chega a tanto, mas consegue, de forma admirável, resumir a debilidade sob a qual se assenta a moral burguesa.

 

 

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