OPINIÃO

Nada de novo no campo

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Após a tragédia da derrota do Brasil para o Uruguai em pleno Maracanã por 2 a 1, na final da copa de 1950, as cores da camisa da seleção mudaram. Saiu de cena o azul e branco do manto de nossa senhora, entrou o verde e amarelo da bandeira nacional. Como se houvesse alguma maldição cromática que impedia nosso futebol de cumprir o destino manifesto de assombrar os campos do mundo, profetizado pelos jornalistas franceses que apelidaram os brasileiros de “artistas da bola” durante a copa de 1938; nossos cartolas alteraram as cores da camisa criando uma nova mística em torno do verde e amarelo.

Foi preciso 16 copas do mundo, cinco títulos mundiais e 64 anos de vitórias gloriosas e derrotas dolorosas para que a nação, que se fantasia com as cores da bandeira de quatro em quatro anos, libertasse os heróis da copa de 1950 do cruel cárcere histórico a que foram submetidos e passasse por um novo trauma, dessa vez, muito mais vexame do que tragédia.

A catástrofe dos 7 a 1 marcou uma nova oportunidade para que o futebol nacional passasse por uma reformulação profunda e para que os vícios da CBF, com seu histórico de corrupção, descaso e oportunismo, pudessem ser extirpados dos campos do país.

O problema é que no quesito mudança, a história brasileira é uma coleção de oportunidades perdidas, tanto no front da política, quanto no campo da bola.

Entre um futuro eternamente prometido e um passado infinitamente repetido, o país roda como se fosse uma jamanta descendo uma ladeira esburacada com o freio de mão puxado. Sempre adiando o enfrentamento de suas monstruosidades, sempre arranjando uma maneira de mudar quase nada para manter quase tudo como está.

Foi assim na passagem da ditadura de 1964 para a Nova República. Transitamos de um regime para outro, promulgamos uma nova constituição, libertamos presos políticos, exumamos alguns cadáveres das vítimas da violência institucional, abrimos o leque partidário e recuperamos um calendário eleitoral; mas mantivemos os mesmos agentes políticos no centro do cenário da vida pública. Entre Malufs, ACMs e Sarneys, não conseguimos romper com a base de apoio que dava sustentação aos governos militares. Ao contrário dos nossos vizinhos Argentinos, não prendemos torturadores nem assassinos, agentes do terrorismo de Estado. Também não exumamos as partes podres que jogaram na lama, por 21 anos, a farda do exército de Caxias, manchando vergonhosamente o nome das nossas forças armadas. Mantivemos intocáveis a mesma elite do dinheiro que estourou champanhe no dia da deposição do presidente João Goulart e não conseguimos mover de modo definitivo os pilares que mantém o nosso desconcertante sistema de castas, privilégios, racismo estrutural e de escandalosa desigualdade social.

Entre a copa do 7 a 1 e essa outra que começa agora, o tempo parece que inverteu seu fluxo e o sentimento de muitos compatriotas é que caminhamos velozmente em direção a um passado que parecia morto e enterrado.

Com o arranjo político que deu sustentação a Nova República em crise e o povo pedindo socorro, clamando por mudanças e jogando na vala comum todo o sistema político de representação, nem o futebol parece nos salvar.

E ainda tem gente que se espanta com o desinteresse e a desconfiança do torcedor em relação a Seleção canarinho.

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No fim das contas se a turma do “professor” Tite engrenar nos gramados e avançar mais na competição que se tornou uma obsessão neurótica nacional, vamos ter uma boa oportunidade de fazer mais um carnaval fora de época e esquecer, por um tempo, da crise que não nos abandona há mais de quatro anos.

Caso contrário, arrisco a dizer que a temperatura política, sem o combustível alcoólico que turbina o país após as vitórias da Seleção, vai subir mais do que o preço da gasolina e jogar as tensões sociais para níveis ainda mais altos.

Se for assim é bom as farmácias irem se preparando: vai faltar Rivotril no estoque pra gente suportar essa eleição.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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