OPINIÃO

Não basta ser maior, tem que aparecer na mídia

Domingo é dia de praia, shopping, cinema e protesto da direita em apoio à Bolsonaro– afinal, eles “trabalham” nos dias úteis. Nas ruas de Natal, uns três ou quatro mil manifestantes “ordeiros” foram às ruas dançar o Ilariê, da Xuxa (isso mesmo! É essa a ordem que eles defendem?). Se contarmos a passeata ao redor das vitrines nos corredores do shopping, o número de manifestantes pode ser ainda maior. Teve também uma carreata muito barulhenta com uns dois ou três caminhões que buzinavam constantemente para tentar disfarçar a falta de adesão ao movimento. As cores do ato, como era de se esperar, verde, amarelo e brancos.

E foi assim por todo o país. No Sul e Sudeste, deu mais gente, principalmente, no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Curitiba. Nada que pudesse ser comparado às manifestações do dia 15 em nenhuma das cidades (vai, talvez em São Paulo, talvez!). A polícia não divulgou número de manifestantes na maioria das cidades, os organizadores sempre sofrem de tendências megalomaníacas (isso aqui vale pra direita e pra esquerda também). No fim, restou à imprensa, comparar o número de atos registrados no dia 15 e neste domingo, o que é um claro sintoma de que a imprensa não estava interessada em fornecer uma informação precisa do número de manifestantes.Não teve jeito. Até nesse quesito, a esquerda mostrou mais força e ocupou mais cidades. Comparadas as imagens das duas  manifestações, também é clara a predominância dos que defendiam a educação e eram contra a reforma da previdência.

Na TV, a Globo fez a Glória,  pagou de isentona ao longo de todo o dia na Globonews. Teve até sobrevoo de helicóptero na Avenida Paulista para mostrar que os manifestantes “ocupavam” sete quadras, quando claramente estavam concentrados em, no máximo, dois quarteirões. Talvez já seja fruto da reunião do lobista da emissora com o presidente.

A Record fez justiça com o presidente Bolsonaro e fez valer a pena a ampliação da verba publicitária governamental na emissora. No Domingo Espetacular,  uma matéria de pouco mais de quatro minutos mostrou planos fechados dos atos em todo o país. Dava a impressão que tinha muita gente até em Belo Horizonte e Brasília. Os jornalistas da Record foram fiéis aos números divulgados pela organização dos atos.

Claro que tudo era uma preparação para a entrevista de Bolsonaro, que viria logo em seguida. Foram quase catorze minutos de perguntas que o presidente queria responder. Começou por distinguir os protestos em defesa da educação pelos protestos do domingo: “Só gente ordeira”, diz ele. Bolsonaro ainda terminou com uma releitura da sua célebre expressão cunhada no último dia 15. Os “idiotas úteis” não passam agora de “ingênuos úteis”.

Nem nas redes, a direita venceu.  Enquanto no dia 15, o #tsunamidaeducacao ocupou o topo dos tópicos por 224 vezes no dia 15, contra 179 vezes da tag #brasilnasruas. E olhe que os robôs passaram dias trabalhando para lotar as ruas neste domingo.

 

Quinta feira tem manifestação de novo. Vamos ver como a mídia vai contar essa história.  

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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