OPINIÃO

Não, eu não trabalho aqui

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Um texto para comemorar o Dia da Consciência Negra

No último sábado, 17 de novembro, portanto três dias antes do Dia da Consciência Negra, eu tinha acabado de comprar dois sanduíches naturais pra matar a larica entre um show e outro do No Ar Coquetel Molotov. O festival, apesar de não ser temático, jogou no mesmo espaço em Recife nomes importantes da atual música negra do Brasil, como Anelis Assumpção, Luedji Luna e Djonga. Lembro que tinha acabado de pagar o lanche e estava me afastando da fila. Fui caminhando devagar, pra não derrubar nada das duas iguarias que estavam nas minhas mãos, quando um rapaz branco com aparência de bem nascido, do alto da simpatia que sua gola polo permitia, travou o seguinte diálogo comigo:

—  Tem sanduíche de quê, cara? — ele perguntou.
—  Atum e frango  —e u respondi.
—  É quanto?
—  Oito reais.
— Tu me dá dois?
—  Rapaz, eu não trabalho aqui.
—  Eita, foi mal.
—  Foi péssimo, cara, foi péssimo.

***

No sábado à tarde, algumas horas antes do Coquetel Molotov, decidi dar uma passadinha no shopping. Engordei um pouco nos últimos meses e precisava de uma camiseta que não parecesse um espartilho toda vez que respiro. Lá estava eu na fila do caixa da Renner com uma sacola grande, daquelas que todos os clientes da Renner usam para as compras, quando uma senhora branca e suada, claramente cansada de andar pelo shopping na companhia de uma criança de mais ou menos 6 anos, travou o seguinte diálogo comigo:

— Moço, boa tarde.
— Boa tarde.
— O senhor sabe onde encontro meias infantis?
— Não, moça, melhor perguntar a um vendedor.
— Ah, o senhor não trabalha aqui?
— Não.
— Ah, tá. Desculpa.
— …

***

No finalzinho de 2017, estava cheio de esperanças que a Humanidade seguisse um caminho mais inclusivo depois de um ano de tantas barbáries. Por isso, convenci meu namorado a passar o Ano Novo comigo no Catamarã, numa festa que celebraria a liberdade de sermos quem somos chamada Réveillon Golarrolê. As atrações principais eram Jonny Hooker e Márcia Freire, numa festa que me garantia a liberdade de beijar meu namorado publicamente a hora que eu quisesse. Estava na entrada com meu ingresso ansiosamente pronto para ser entregue à moça que fazia as vezes de hostess. O casal à minha frente foi ser atendido e fiquei lá esperando minha vez quando um homem branco e baixinho, com ares de quem estava ansioso demais pelo Ano Novo para respeitar a fila, se esgueirou entre as pessoas e parou diante de mim estendendo-me o ingresso. Travamos o seguinte diálogo:

— Brother, libera aqui preu entrar rapidinho.
— Quem libera a entrada é ela, cara.
— Tu não pode quebrar o galho aqui não?
— Bicho, eu não trabalho aqui.
— Eita, foi mal.
— Vai lá pra trás que tu tá furando a fila.
— Foi mal, foi mal.

***

Em 2016, eu trabalhava em uma agência de publicidade que ficava num grande centro empresarial. Não só grande, mas muito luxuoso. Do hall de entrada aos banheiros, o centro empresarial tinha um acabamento realmente muito sofisticado. E isso se repetia nos elevadores, que são de longe os mais luxuosos, tecnológicos e rápidos que já usei durante toda a minha vida. Tava lá eu numa manhã qualquer, chegando no trabalho com a cara ainda amassada pelo travesseiro, quando um senhor engravatado de óculos escuros (que incomodamente me lembrou um agente do DOPS) entrou logo atrás de mim no elevador. À guisa de eu estar de calça jeans, camiseta de banda de rock, allstar e uma mochila nas costas, este senhor travou o seguinte diálogo comigo:

— Décimo andar, por favor — ele me disse.
— Oi? — perguntei, retirando os fones de ouvido.
— Décimo, por favor.
— Não, senhor, eu não trabalho aqui.
— Ah, desculpa, pensei que você… eu pensei que…
— Não, senhor, eu não sou ascensorista…
— Ah, rapaz, desculpa, é que na correria nem vi direito…
— Unrum.
— Quem tá vestido como ascensorista sou eu,né? Hehehehe.
— …
— Tô ficando é doido.
— Unrum.

***

Há mais ou menos três anos, fui com amigos comemorar o décimo-terceiro em um bar caro de Boa Viagem, na zona sul de Recife. A gente quase nunca anda por aqueles lados, frequentado em sua maioria por filhos de famílias abastadas da capital pernambucana, mas o décimo-terceiro nos inspirou a sair da zona de conforto. Tô lá eu já com algumas cerveja na cabeça, sendo atendido por um jovem bonito e loiro que prendia o cabelo numa espécie de trança afro-viking (!!!), quando decidi ir ao banheiro. No caminho, percebendo que as mesas eram ocupadas primordialmente por rapazes brancos com menos de 20 anos vestidos em inevitáveis camisetas Abercrombie, um pós-adolescente muito simpático sentado à mesa com sua namorada travou o seguinte diálogo comigo:

— Ei, xará, pode trazer mais uma cerveja aqui? — ele disse.
— O garçom é aquele rapaz branco ali, cara — eu respondi.

***

Há alguns anos, lá por 2009, eu tinha acabado de assumir a Direção de Criação de uma agência em Natal/RN. A oportunidade profissional era excelente, uma vez que a agência era nova mas tinha um grande potencial de crescimento. Fui bem recebido por toda a equipe e fiz grandes amigos que até hoje me acompanham, me aconselham, me acolhem e me impulsionam pra cima. Mas ser Diretor de Criação não se resume a fazer grandes amigos, e lá estava eu atolado na rotina clássica dos primeiros dias de um Diretor de Criação: receber fornecedores, visitar as empresas que atendemos e, principalmente, conhecer pessoalmente os executivos dos principais clientes. Lá tava eu todo nervoso porque tinha acabado de entrar na sala de reunião com o principal cliente da agência quando a diretora de marketing deste cliente, que não tinha ainda se dado à benevolência de olhar pro meu rosto, voltou-se para mim enquanto eu me sentava e travou o seguinte diálogo comigo:

— Você pode me trazer um café?
— Oi?
— Sem açúcar — voltando-se aos outros presentes.
— Eu tô cortando o açúcar, sabe? Faz muito mal à saúde.
— Eu vou pedir à copeira — falei ao me sentar ao lado dela.
— Ah, você não… Ah…
— Eu sou Diretor de Criação, mas eu consigo seu café sim. Pode deixar.
— Nossa, eu tô doidinha hoje, viu!
— Eu imagino.

***

Em dezembro de 2005, após ser pacientemente convencido por Carlos Fialho a publicar meu primeiro livro pela Editora Jovens Escribas, cheio de afetações e nervosismos e uma sensação de que eu realmente iria morrer antes de assinar o primeiro exemplar da publicação, fui para a minha estreia na literatura em uma noite de autógrafos na Zona Sul de Natal. Eu estava realmente muito nervoso, tão nervoso que chega a parecer exagero quando conto o quanto eu estava nervoso. Tava lá eu perto da porta de entrada da livraria, esperando Fialho e outros membros dos Jovens Escribas trazerem as caixas que continham o romance “Lítio”, livro que corajosamente tive a empáfia de publicar, quando um intelectual natalense do qual faço questão de esquecer o nome se aproximou de mim e travou o seguinte diálogo comigo:

— Vocês estão recebendo currículo?
— Onde?
— Aqui na livraria.
— Rapaz, eu não faço ideia.
— O gerente chega que horas?
— Amigo, eu não trabalho aqui.
— Ah, não?
— Eu vim lançar meu livro hoje.
— Ah, você que é Patrício Jr?
— É, sou eu.
— Tu tem a maior pinta de vendedor de livro, sabia?
– Se não der certo como escritor…
— …

***

Há centenas e centenas de anos, pelo que posso lembrar, eu me formei em Comunicação Social. O que hoje é uma coisa corriqueira, era então um fato inédito: fui o primeiro membro da família a conseguir a façanha de me formar numa faculdade. Lembro que passei muitos dias pensando com que roupa iria para a formatura, e tenho certeza que não consegui ser criativo como eu queria (a internet estava engatinhando, gente, era difícil demais conseguir boas referências). Lá estava eu com cervejas demais na cabeça pra conseguir entender o que estava acontecendo, parado perto do banheiro enquanto esperava um amigo sair, quando um rapaz branco e magrinho, vestido com um terno grande demais para ser dele, me abordou com um sorriso muito simpático e travou o seguinte diálogo comigo:

— Tu pode trazer uísque aqui na minha mesa?
— Como é?
— Uísque. Ainda tem?
— Não, amigo, eu não sou garçom, eu sou um dos formandos.
— Eita, mas tu veio vestido de garçom. Hehehehehe.
— Todo mundo tá de terno preto, não?
— Mas tu ficou com cara de garçom, sei lá.
 — Não, não sou não.
— ahahahaha.
— Vou lá.
— Valeu, garçom!

***

Há meio milhão de anos, quando eu tinha de quinze pra dezesseis, estava realmente determinado a comprar o último álbum do Legião Urbana num sentimento que mesclava vontade de sofrer, comportamento de manada e algo da memória afetiva que a banda me despertava. Meus irmãos eram fãs do Legião e boa parte da minha infância se resumiu a esperar que eles terminassem de ouvir os vinis intermináveis da banda de rock brasiliense para liberar o 3 em 1 lá de casa pros meus LPs da Xuxa. Tava lá eu numa finada loja de disco, como são finadas quase todas as lojas de disco hoje em dia, segurando com muita determinação os 15 reais que juntei por semanas sem lanche na escola, quando uma senhora da qual não me recordo absolutamente nada além das palavras se aproximou muito simpática e travou o seguinte diálogo comigo:

— Você sabe se vai chegar o novo disco dessa banda aqui?
— Eu.. er… por que eu saberia?
— Você não trabalha aqui?
— Não.
— Ah, desculpa.
— Tudo bem.
— Foi mal, hein.
— k.

***

E por incrível que pareça, meus amigos, ser constantemente associado ao trabalho braçal (que é digno, deve ser respeitado, mas cruelmente ainda é encarado como uma função inferior) é o menor do menor do menor do menor dos problemas que diariamente eu e outras pessoas pretas temos que enfrentar.

Todo o poder para o povo negro. E feliz Dia da Consciência Negra.

 

 

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Patrício Júnior
Patrício Jr. é escritor, publicitário e jornalista. Escreve às quartas-feiras.

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