OPINIÃO

Não há crime perfeito

Caro leitor e cara leitora, nós vivemos no país em que todo mundo já viu um ato “preconceituoso” – o eufemismo mais recorrentemente utilizado para dizer que alguém é racista -, mas que acredita piamente ser, de forma individual, uma verdadeira “democrata racial”, alguém incapaz de praticar o racismo que está cercado de racistas.

E isso não sou eu que estou dizendo. A célebre pesquisa da Datafolha em 1995 registrou: 91% dos entrevistados acreditavam que os brancos têm preconceito de cor em relação aos pretos. No entanto, entre os mesmos entrevistados, só 3% admitiram ter algum preconceito. A conta simplesmente não fecha, como está bem claro.

A prática do racismo no Brasil é estrutural – e nós vamos conversar mais sobre isso nas próximas semanas -, é como diz o professor Kabengele Munanga, antropólogo brasileiro-congolês: um crime perfeito.

É a terra onde o próprio preto, não sem razão para tal, tem vergonha, medo, dificuldade em reconhecer-se como tal. Imagine então ter orgulho.

Porém, para contradizer um tanto a definição do querido professor Munanga, o crime parece nem ser tão perfeito assim. A cada dia que se passa mais vozes levantam-se, seja nas ruas ou nas redes, para denunciar dia e noite o crime que se perpetua contra o povo preto brasileiro.

São jovens mulheres e homens que tomaram para si a missão de continuar a fechar essa ferida aberta, seja recuperando a memória que foi negada por séculos e séculos, como faz Alê Santos no Twitter (@savagefiction) ou discutindo o que é ser preto e preta nesse país hoje, como Gabi Oliveira (@gabidepretas), Nataly Néri (Afros e Afins, no Youtube).

Honrando Zumbi, Dandara, Aqualtune, Tereza de Benguela e Abdias do Nascimento, esse crime perfeito será cobrado!

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