ENTREVISTA

“Não podemos associar energias renováveis a energia limpa”, alerta representante do Fórum de Mudanças Climáticas

Em meio à realização da Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas de 2021 (COP-26), a professora potiguar Moema Hofstaetter alerta sobre os efeitos da interferência humana na natureza, mas também sobre as consequências da implementação de energias renováveis, que surgem como tentativa de reduzir a emissão de gás carbônico.

“Não podemos associar energias renováveis a energia limpa, porque teria que ser algo que ao longo da sua cadeia produtiva não gerasse nenhum tipo de impacto. E não é o caso”, adverte, durante entrevista ao Programa Balbúrdia desta quarta-feira (3), Hofstaetter, que é filósofa, mestre em Estudos Urbanos e Rurais e doutora em Turismo e desenvolvimento. Ela compõe o grupo de pesquisas LISAT/UFRN, a equipe de assessoria do SAR, é coordenadora da Escola Milton Santos-Lorenzo Milani e atua junto ao Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Socio Ambiental/Núcleo RN.

De acordo com a especialista, a transição energética é necessária, mas o modelo de instalação dos grandes parques no Nordeste brasileiro, sobretudo no Rio Grande do Norte – líder nessa produção, precisa ser revisto.

“O aquecimento global é uma ameaça existencial à civilização humana. Se nós não tomarmos providências, vamos sumir. E a Terra vai se renovar provavelmente. Nós precisamos decrescer a produção de combustíveis fósseis e aumentar a produção de energias renováveis, que têm por objetivo descarbonizar a economia”, pondera, ressaltando que é importante ouvir as comunidades, além de criar zoneamentos ecológicos. “A gente não tá batendo de frente com eólica. Estamos discutindo o modelo”.

Sem essa inclusão efetiva das populações atingidas, os impactos são diversos, desde a limitação de circulação, com interrupção de estradas, dificuldade de acesso ao mar para pescadores; passando por retirada da mata e aterramento de lagoas, como ocorreu na Ponta do Tubarão, nas proximidades de Diogo Lopes, em que determinada empresa usou a água de lagoas para fazer a base do cimento, em grande quantidade; até prostituição e exploração sexual de crianças e adolescentes. “Restam filhos do vento e doenças sexualmente transmissíveis”.

A saúde da população também passa a ser uma questão, além do impacto social. “Existem diversos estudos que dizem que aquele barulho que a gente não ouve e que causa um stress constante”, conta, ao compartilhar que as pessoas relatam muita dor de cabeça, insônia, consumo de remédios de uso controlado e aumento de casos de epilepsia no entorno dos parques.

Quanto à antiga ilusão de que o estado produtor de energia renovável teria eletricidade mais barata, Moema comenta: “temos comunidades e assentamentos de regiões que sediam os parques que estão no escuro. A energia não baixou, nem vai baixar. É igual à gasolina. É igual ao Plano Diretor de Natal, quando dizem que prédios mais altos são bons pra todo mundo, porque vai abaixar o preço do imóvel. Não vai”, diz, ao apontar que o modelo de negócio é excludente.

A professora também chama atenção para o eventual lixo que será gerado a partir dos parques e diz que a Alemanha tem criado aterros sanitários para descarte dos resíduos das eólicas mais velhas, com idade entre 20 e 30 anos. Ela também critica a mais recente novidade anunciada pelo RN, pioneiro em eólicas offshore, em alto mar. Segundo Hofstaetter, “nada justifica”.

“Governadora pare com tudo. Não tem o menor sentido ganharmos o selo de maior parque a esse custo. A pesca é fundamental para a nossa segurança alimentar”, apela, referindo-se a Fatima Bezerra. “Esse modelo de desenvolvimento só é aceito na América Latina. Na Europa não se derruba árvore pra fazer parque eólico. Estamos acabando com nossa caatinga e estamos querendo entrar no setor marinho”.

Veja entrevista completa:

 

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais