OPINIÃO

Não podemos esperar o setembro amarelo para pautar saúde mental

Todo ano no Brasil um mês inteiro é dedicado ao debate público de questões ligadas à saúde mental, mas apesar disso o tema da prevenção ao suicídio ainda é muito pouco difundido na sociedade. O setembro amarelo é uma campanha necessária para colocar a saúde mental na agenda das instituições, assumindo que qualquer pessoa está sujeita ao sofrimento psíquico e que cuidar da mente e desenvolver relações saudáveis com a família, com o trabalho, com os amigos, com os afetos não é só um esforço individual e subjetivo, é uma pauta coletiva, que demanda ações concretas do poder público e também entidades privadas.

Em tempos de crise como o que estamos imersos, a precarização do trabalho, a diminuição dos investimentos em serviços públicos, a violência contra as mulheres, o racismo, são problemas que expõem as pessoas ao desamparo, as quais não conseguem ver uma luz no fim do túnel quando o senso comum cruelmente culpabiliza as vítimas pelo próprio sofrimento.

Com a pandemia, todos esses cenários são agravados e o esgotamento mental é uma consequência inevitável da exposição diária ao estresse, ao medo, à raiva, ao luto. Sabemos que um vírus mortal está em circulação e o governo genocida do nosso país atua declaradamente contra as medidas capazes de conter a propagação da Covid-19.

Ficar em casa seria a primeira medida e a mais eficaz para salvar vidas, enquanto não existia vacinas para imunização da população. O uso de máscaras, óculos, o distanciamento social e a higienização das mãos ainda é o que temos de mais apropriado a evitar contaminações pelo novo coronavírus, enquanto as vacinas já produzidas, lentamente vão sendo aplicadas.

Mas, ao povo brasileiro não foi dado o direito de se proteger, não temos um dia de paz com um presidente que vai a público dar declarações pelo fim do uso de máscaras, questionar a confiabilidade da vacina e promover o uso de medicamentos sem eficácia, como um verdadeiro agente da morte, Bolsonaro influencia muita gente e é o responsável por termos chegado à metade de 2021 sem uma ampla cobertura de vacinação.

A pandemia significou ainda uma lupa, colocando em evidência problemas sociais por vezes secundarizado no debate público, como a exploração das mulheres pelo machismo, o acúmulo estafante do trabalho formal remunerado, quando temos, com toda uma gama de trabalhos não remunerados que por questões sociais, políticas, subjetivas são impostos às mulheres e dos quais temos muita dificuldade de nos desvencilhar ou dizer não.

Eu já ouvi falar da boca de um homem, dirigindo-se a um público jovem, que ele admirava muito a sua esposa pelo dom que possuía de fazer tudo tão bem feito: uma excelente profissional, esposa dedicada, mãe cuidadosa, uma verdadeira “rainha do lar”. Sim, ele pretendia elogiar a mulher, enquanto romantizava a carga mental depositada sobre ela, dizendo ainda, que como homem, não tinha a habilidade de dar conta de tantas coisas ao mesmo tempo.

Por esses e tantos outros motivos, é preciso falar sobre saúde mental para além do mês de setembro, porque a carga que temos carregado de viver em país como o Brasil, governado pelo dementador Bolsonaro, onde o machismo, o racismo a LGBTfobia estruturam as relações sociais e naturalizam as violências contra nossas vidas, nos coloca à prova diariamente.

Infelizmente, as notícias de suicídios ou tentativas têm sido comuns entre diversas faixas etárias e a mim, frequentemente, aparecem relatos sobre jovens com o psicológico adoecido, que desabafam suas dores, mas na maioria das vezes não recebem o acolhimento necessário da família, da universidade ou do ambiente de trabalho.

Nesse sentido, eu gostaria de propor uma reflexão ainda abstrata, mas no intuito de buscarmos soluções em conjunto para o problema do adoecimento psíquico em larga escala que a nossa sociedade está vivenciando. O equilíbrio emocional e a saúde, enquanto bem-estar físico, mental e social perpassa necessariamente um movimento recíproco, interno e externo, no qual olhar para dentro, para suas potencialidades, se perceber como agente no mundo é tão importante quanto estabelecer relações nas quais sua existência seja reconhecida pelo outro como digna, de modo que seja inaceitável a exposição de qualquer ser humano a uma vida de precariedade.

Politicamente é preciso valorizar o(a) profissional da psicologia, tornar o acesso à psicoterapia algo possível a todas as pessoas independente da renda, ampliar a contratação de psicólogas(os) no Sistema Único de Saúde, incluir psicólogas(os), psicopedagogas(os), assistentes sociais em processos de tomadas de decisão política, na formulação, implementação e avaliação de políticas públicas. Em uma ação coletiva, precisamos vencer o preconceito e o tabu sobre tratamentos psicológicos e nos tornarmos uma sociedade inclusiva, solidária e anticapacitista.

 

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Aline Juliete
Aline Juliete de Abreu é advogada, Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Urbanos e Regionais (UFRN), feminista negra e ativista pelos direitos humanos

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