OPINIÃO

Narciso acha feio o que não é espelho

Nos últimos dias o nosso Estado assistiu nas plataformas digitais novamente, diga-se, a ataques racistas. E, como sempre acontece com a branquitude, após o ataque visualiza-se um modus operandi bem efetivo que consta, não necessariamente nesta ordem, “foi uma piada”, “brincadeira”, ou das mais recorrentes: “não vi, finjo que nada ocorreu e deixo por isso mesmo”. Para quem não lembra o Saiba Mais retratou esse episódio aqui[1], de qualquer forma, irei fazer um resumo para contextualizarmos melhor.

A senhora Lenice Moreira de Moura veiculou em sua rede social uma foto, adulterada e posteriormente reconhecida pela mesma, em que a governadora Fátima Bezerra em reunião com secretários estavam, em suas palavras e com o seu “caps lock” ativado: “a DESGOVERNADORA do PT ‘TRABALHA’… Vejam o BAIXÍSSIMO NÍVEL!”. O início do seu texto apresenta alguns distantes indícios de que iremos ler uma crítica legítima e respeitosa, porém, a partir da expressão “baixíssimo nível”, a atual Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Extensão de “Direitos Humanos, Tributação e Cidadania” do Centro Universitário do Rio Grande do Norte – UNIRN, nos apresenta seu cartão de visita.

Numa tentativa simplista, reducionista, preconceituosa e vã de agredir as autoridades políticas locais a senhora Lenice Moura continua a nos apresentar o texto constante no cartão com sua hábil agilidade “capslockiniana”: “Eis o ‘FEITIÇO PREPARADO contra BOLSONARO’ (…). É na base da MACUMBA que essa GENTE busca REALIZAR seus PLANOS MALIGNOS!”.

A partir destes trechos localizamos as suas agressivas palavras. Localizamos a sua genuína intenção. Localizamos a quem a autora do texto “Dignidade humana e complexidade: Por um diálogo transcultural sobre os direitos humanos” (clique aqui[2]) quis realmente atingir: a dignidade e o respeito da comunidade negra acionando preconceituosamente elementos constantes em ataques a religiões de matrizes africanas. Ela associa a ação da governadora e sua equipe a palavras conectadas negativamente à negritude como “baixíssimo nível”, “feitiço”, “macumba”, “planos malignos” e “essa gente” (porque essa “gente” sempre é (a) outra/o)”.

Dada a polêmica e repercussão negativa a senhora Lenice Moura, em sua doce ilusão de se redimir, escreveu e veiculou também em suas redes sociais, um pedido de desculpas. Ela contextualiza o pari passu das suas ações, desde o recebimento da foto adulterada – sem checagem da veracidade -, até a sua veiculação onde agregou à imagem recebida seu cartãozinho de visitas. Seu dedo mínimo esquerdo atuou novamente de forma efetiva, apertou novamente “caps lock” e gritou: “Peço DESCULPAS pelo OCORRIDO, de FORMA ESPECIAL, à GOVERNADORA FÁTIMA BEZERRA e DEMAIS INTEGRANTES PRESENTES NA MESA…”.

Infelizmente a comunidade negra, a principal ofendida neste seu traquejo com a dignidade humana não foi destacada em sua “retratação”. Ela aciona neste episódio o “pacto narcísico da branquitude”, expressão cunhada por Maria Aparecida Bento, em sua tese[3] na USP e performada[4] pela artista e pesquisadora portuguesa Grada Kilomba. Agenciando a imagem do mito de Narciso, constante na mitologia grega, o “pacto narcísico da branquitude” enxerga somente a si – sempre quando lhe convém. A beleza refletida no espelho é a sua branquitude, a sua vaidade é branca. E nada mais importa. De forma sucinta Grada Kilomba afirmou que “negritude sempre é vista, mas é ausente. A branquitude nunca se vê, mas está sempre presente”. Eis aqui um resumo deste fatidíco capítulo racial potiguar.

Em uma tentativa de agredir a pessoa negra, ofender a sua cultura e sua religião, a senhora Lenice Moura busca atacar e, posteriormente, invisibilizar, respectivamente em seus dois textos, qualquer possibilidade de construção da cidadania e de humanidade. Narciso não gosta do que não vê no espelho e na imagem refletida metaforicamente em sua “retratação” ela não enxerga (ou assim prefere) as pessoas negras. Fica nítido para nós uma miopia seletiva que enxerga somente a cultura negra quando pretende vilipendiar e vulgarizar.

Por fim, sentindo na pele as agressões gratuitas, deixo CAETANO VELOSO e um pedacinho de SAMPA para as/os narcisos/as de plantão. Tento assim provocar e, ao mesmo tempo, alimentar um pouco do meu utópico sonho de termos uma sociedade MAIS JUSTA, equalitária, RESPEITOSA, NÃO homofóbica, NÃO machista, NÃO sexista e NÃO racista:

“Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto. É que Narciso acha feio o que não é espelho”.

[1] Colocar link – https://www.saibamais.jor.br/advogada-bolsonarista-divulga-foto-adulterada-de-fatima-bezerra-e-sugere-que-governadora-do-rn-faz-macumba-contra-bolsonaro/

[2] Artigo disponível para acesso em http://revistas.unirn.edu.br/index.php/revistajuridica/article/view/564

[3] Trabalho acessível através do endereço https://teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-18062019-181514/publico/bento_do_2002.pdf

[4] Para mais informações acessar o link da Pinacoteca do Estado de São Paulo onde a artista apresentou “Graka Kilomba: Desobidiências poéticas” no ano passado. http://pinacoteca.org.br/programacao/grada-kilomba-desobediencias-poeticas/

Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *