CULTURA

“Narrativas do Silêncio” integra surdos e ouvintes através do teatro

Sentados em cinco cadeiras no ambiente em que as dificuldades diárias cedem espaço para a arte, a Companhia Fluctissonante, de Curitiba, subiu ao palco do auditório do IFRN Cidade Alta para falar com a Agência Saiba Mais sobre a peça “Enquanto a Chuva Cai” e  também sobre a oficina de teatro oferecida exclusivamente para surdos em Natal. A peça será apresentada nesta sexta-feira (24), no auditório do IFRN Central. A entrada é gratuita e o espetáculo está marcado para às 19h.

No canto esquerdo do palco, tímida, a atriz Gabriela Grigolom, que é surda desde que nasceu, revela que tinha o desejo de encenar desde criança, mas as pessoas ao seu redor nunca deram credibilidade ao seu desejo, inclusive sua mãe, que era atriz. Só aos 18 anos Gabi, como é chamada pelos companheiros de peça, tomou coragem para procurar o desenvolvimento de sua arte”

Encontrei alguns cursos de teatro, mas não me aceitavam devido a minha condição de surda. Diziam que eu não poderia participar dessas formações. Eu procurava minha mãe e pedia para participar, mas até ela não acreditava nisso”, relatou Gabi.

Hoje Gabriela Grigolom é a protagonista da peça “Enquanto a chuva cai”, que foi produzida pela respeitada atriz curitibana Claudete Pereira Jorge, morta em 2016;. O espetáculo ainda conta  no elenco com a filha dela, Helena de Jorge Portela, o ex-marido, Nautilio Portela e por Igor Augustho. A peça foi idealizada pelo grupo Fluctissonante, que trabalha com a pesquisa, produção e criação de espetáculos encenados simultaneamente nas línguas portuguesa e de sinais brasileira.

Companhia Fluctissonante se apresenta pela primeira vez na capital potiguar. Foto: Christian Vasconcelos

Em cena, ao lado de Gabriela está o ator Igor Augustho. A obra retrata o delicado processo de aproximação entre um menino e uma menina, num ambiente fictício de guerra. Enquanto a menina se comunica através de Libras, o menino utiliza a língua portuguesa. A peça é uma mostra que a barreira linguística não é um empecilho para o surgimento de amizades. No caso da peça, a cumplicidade dos personagens é atrelada à sobrevivência durante a batalha.

A obra foi criada para integrar a plateia e o público ouvinte e surdo. Helena de Jorge Portela, atriz  e fundadora da companhia , revela que a construção da obra sempre foi pensada na participação do não ouvinte:

A gente tinha essa ideia há muito tempo, de juntar os dois públicos. Fazer essa inclusão no próprio teatro porque muitas vezes não é só para, é com. O com é muito importante. Às vezes tem a questão do preconceito. A falta de conhecimento gera muito preconceito entre as duas comunidades, tanto o surdo em relação ao ouvinte e vice-versa. E quando a gente estreita essa relação, tudo isso cai por água. As pessoas são muito diferentes e isso é muito legal”, disse diretora-assistente da peça, Helena de Jorge Portela.

O diretor da peça, o experiente Nautilio Portela, afirma que desde o início, o interesse da companhia, criada em 2013, era trabalhar unindo os surdos e os ouvintes. “Enquanto a Chuva Cai” foi a primeira obra do grupo. Ele diz que até hoje se impressiona com a integração durante a encenação dos atores com o público:

Em cena só existem duas pessoas. Uma surda e outro ouvinte, e a comunicação entre eles acontece com uma naturalidade tão grande que as pessoas ficam assim ‘puxa, como é lindo, como é bonito, e tão fácil se comunicar em duas línguas tão diversas’”, falou repleto de emoção, o diretor Nautilio Portela.

Igor Augustho e Helena de Jorge Portela foram os primeiros a encenar os personagens da peça “Enquanto a Chuva Cai”. Foto: Christian Vasconcelos

Agora nos bastidores, Helena encenou a protagonista da peça nos primeiros meses em cartaz, no sul do país. Para a atriz e idealizadora da companhia, atuar como surda, sendo uma ouvinte, foi um grande desafio:

Foi muito difícil porque a gente que é ouvinte é movido muito pelo som. Por exemplo, tem um momento da peça em que o personagem descobre que a menina é surda e ele faz alguns barulhos e como todos os barulhos eu me assustava. Então, tive que trabalhar toda essa concentração de ouvinte não trazer essas coisas”, afirmou Helena.

O ator Igor Augustho é o responsável pelos barulhos que tanto assustaram Helena nos ensaios de “Enquanto a Chuva Cai”. Ele participou da elaboração da peça e atua no mesmo papel desde 2016. Igor lembra que teatro não foi feito para os atores ficarem numa zona de conforto e sim para “dar um frio na barriga”, e por esse motivo trabalhar em cena com uma não ouvinte só altera a dinâmica do trabalho, não trazendo grandes dificuldades.

Gabriela Grigolom é a atual protagonista da obra. A atriz, que é surda, desde a infância nutria o desejo de subir aos palcos. Foto: Christian Vasconcelos

 Narrativas do silêncio

O projeto teve início em 2015, por iniciativa de alunos do curso de Produção Cultural do IFRN Cidade Alta e busca ampliar a acessibilidade cultural de pessoas surdas que vivem na região metropolitana de Natal. Fábia Fernandes é uma das idealizadoras do projeto, ela lembra que a cada ano aumenta o número de inscritos nas oficinas disponibilizadas. Em 2019, mais de 50 pessoas se inscreveram para participar das oficinas de fotografia e teatro.

Quando aluna do curso de produção cultural, fizemos uma pesquisa na Associação de Surdos de Natal (ASNAT) e percebemos que não havia nenhuma atividade voltada para o público surdo. Acredito que o projeto colaborou para dar visibilidade, pois hoje vemos muitos shows com intérpretes presentes, etc.”.

20 pessoas participam da oficina de teatro exclusiva para surdos. Foto: Christian Vasconcelos

Oficina de teatro

A oficina de teatro, ministrada pelo grupo de teatro Fluctissonante, e exclusiva para não ouvintes, teve todas as 20 vagas preenchidas. Durante essa quinta-feira (23) e sexta (24), os alunos sem experiência no palco vão poder dar seus primeiros passos no mundo artístico.

Como é o caso de Leslye Nascimento Cortello, que é diretor-social da Associação dos Surdos de Natal e desenvolve trabalhos voluntários pela cidade. Ele lembra que a questão primordial que envolve surdos e artes não é apenas o acesso e sim a acessibilidade:

Nós geralmente encontramos nesses espaços as informações numa linguagem que não é a nossa. Nós não temos a competência auditiva. É complicado chegarmos nesses ambientes e não ter acesso àquilo que está sendo desenvolvido de fato”, lembrou Leslye.

Leslye tem um grande interesse por teatro, apesar de nunca ter praticado ou encenado nenhuma peça, e ficou bem feliz quando descobriu que iria acontecer uma oficina pensada para os surdos.  Ele ainda revelou o desejo que esse seja apenas o primeiro passo para a inserção de não ouvintes no desenvolvimento de arte em Natal.

Durante dois dias, os inscritos na oficina de teatro, têm a oportunidade de subir ao palco e aprender técnicas de encenação com profissionais. Foto: Christian Vasconcelos
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