OPINIÃO

Nas escaladas da contracultura

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No dia 1º de abril – data oficial do (des)governo atual – , um dia de chuva e com gosto de ressaca moral por conta da vergonha de saber de celebrações ao golpe de 1964 (ano em que se instituiu no Brasil durante duas décadas um governo de sádicos, assassinos e corruptos), decidi reagir e fui novamente me deter sobre o livro recentemente lançado do professor, artista e meu amigo Artemilson Lima.

Refiro-me ao “Escaladas da Contracultura: Natal, década de 1980” (Belo Horizonte, ed. Moinhos, 2018), fruto de sua tese de doutorado em Ciências Sociais, cuja orientação coube ao Prof. Dr. Alex Galeno. Assumo logo que sou pessoa suspeita em comentar tal obra (mas o que raios neste mundo não é pessoal, minha gente?) e explico por quê: quando cheguei a Natal em 2010, Artemilson foi uma das primeiras pessoas marcantes que conheci e a afinidade foi imediata – transitamos entre a Academia e a Arte, temos concepções políticas e éticas parecidas sobre o mundo e até no signo solar do Zodíaco nos encontramos… Mas há também outro detalhe de afeto que nos une: nossa “instigação” em aventurar-se a vivenciar e perscrutar isso que se pode chamar de “experiências alternativas”.

Fazendo uso complementar de duas abordagens teóricas sobre a noção de contracultura (ou contraculturas) – tanto como “fenômeno que desafia o modelo tecnocrata de sociedade” como também acontecimento “em que se manifeste a revolta como traço dinâmico” (p. 25-26) – Artemilson entrevistou e visitou o acervo de inúmeras pessoas e só aí a contribuição de sua pesquisa já se mostra admirável: se o Brasil vivia um tempo de terror (a censura foi simbolicamente instalada com a explosão de uma bomba no prédio do jornal A Folha de São Paulo, em 20 de abril de 1968), em várias partes do país, em micro-instâncias diversas, vozes teimavam em resistir e lançavam no mundo suas expressões de rebeldia, de poesia e de si.

Nesse sentido, Artemilson se detém sobre três tipos de práticas que ousaram existir nas margens de uma sociedade não-democrática (lembremos que a famigerada ditadura militar durou até 1985 e terminou tristemente com uma eleição indireta e uma lei de anistia que não puniu os culpados pelas censuras, exílios, sequestros, torturas e assassinatos bancados pelo Estado).

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O primeiro tipo de prática (sobre o qual me detenho mais porque é o que mais tem a ver com minhas pesquisas) pode ser isso que chamamos de “publicações alternativas”, impressos informais e não-profissionais marcados tanto por um viés ideológico de contestação a uma sociedade de classes injustamente desigual quanto também pela irreverência e pelo desbunde satírico, de tiragens irregulares e modos de confecção e circulação artesanais, conhecidos como tabloides, fanzines ou simplesmente todo tipo de impresso que possa ser abarcado pelo guarda-chuva da “poesia mimeógrafo” ou ainda “poesia marginal”.

Essas publicações, muitas vezes marcadas propositalmente por uma “mixórdia gráfica” (p. 56), eram uma maneira de se contrapor a uma cultura oficial. Assim, Artemilson rememora algumas dessas publicações – em que se destacam Hotel das Estrelas e Delírio Urbano – que orbitavam por meio de autores e coletivos de “dicções variadas” (p. 68), em redes e ritos de sociabilidade similares que certamente atestam a efervescência (contra)cultural daquele período na cidade: Cacto, Provokação, Contexto, Jornal da Praia, Devastazine, Cebola Faz Chorar, Batman & Robim, Incesto Histórico, Escrachado, Minha Remington 22, Pipocalipse Nau, Feito na Mão, Cio Poético, Duas Cabeças, Conserto em Geral, Sanduíche de Poesia, Estaca Zero, Pivete, Trabalho de Poeta, Vibrações Plinfetárias, Buraco no Muro. De todas essas publicações, no livro destacam-se ainda Máquina de Lavar Poemas, de João Gualberto, e Temporada de Ingênios, de João da Rua.

E a importância desse registro histórico que faz Artemilson com sua pesquisa se manifesta ainda no apontamento de dois aspectos importantes: primeiramente, a realização das ações de autogestão literária em que os próprios autores eram editores de si, articulando a máxima do “faça você mesmo” por meio do humor, em que os selos editoriais traziam nomes marcados pela galhofa: Editora Na Munheca, Editora As Fontes Vivas, Todos Nós Juntos, Editora Mais Uma Cacetada, Editora Odara que Ri com o Rabo, Editora Raça (p. 70).

Um segundo aspecto ligado a essas publicações contraculturais, e também associadas, sobretudo, ao humor, estaria na manifestação dessas práticas como aquilo que Nietzsche chamaria de embate entre “forças”, ou o que podemos chamar de “guerra” entre posicionamentos discursivos no campo literário. Assim explica Artemilson:

Havia uma aparente necessidade de manter flamejando esse espírito de bazófia, ao mesmo tempo impiedoso, denunciativo e debochado, ou, se preferirmos, assumidamente presunçoso, que devassava a poesia tradicional, descolada da realidade vivenciada ou colada numa realidade puritana, que posava de cereja do bolo, puramente ornamentativa… (p. 95).

Artemilson fecha o capítulo assinalando ainda algumas “acontecências” (para não dizer happenings, palavrinha-chave para pós-modernos) que acenam já para um segundo tipo de prática analisada: os passeios poéticos, com faixas, panfletagens e carros de som (e até bode) que tanto celebravam o 14 de Março (Dia da Poesia em Natal) como também questionavam o descaso da Fundação José Augusto, órgão estadual de cultura.

Nos capítulos seguintes, Artemilson se detém em mais dois tipos de práticas, não de todo dissociadas do primeiro tipo: galerias e festivais, em que se destacam as experiências da Galeria do Povo (exposição ao ar livre e ao sabor da maresia da Praia dos Artistas de desenhos, pinturas, fotografias e demais expressões de vários nomes, tudo coordenado sob a batuta de Eduardo Alexandre Garcia, o Dunga), bem como o Festival de Artes do Natal, realizado em nove edições e em sua maioria na Fortaleza dos Reis Magos. É de se ressaltar, mais uma vez, a importância de tal pesquisa por registrar elementos muitos dos quais estavam até então restritos à memória de suas testemunhas, como é o caso da cena hilária da entrada do multiartista J. Medeiros cavalgando um cavalo ao som da banda Cabeças Errantes (p. 124).

A terceira prática sobre a qual se debruça Artemilson na sua escalada pela contracultura em Natal estaria centrada na organização dos coletivos. Como ressalta o autor, boa parte dessas realizações só foi possível pela ação dos coletivos organizados em torno das ideias de produção de arte e cultura, que se pretendiam livres das travas ideológicas ou mesmo da tutela oficial (p. 147). Destaca então o grupo Cabra, o Denúncia(R)te, o Aluá, o Grupehq, o Cobra, o Oxente, o Nuclearte, o Circuito Suburbano e, por último, mas não menos importante, o Gato Lúdico (grupo do qual, em uma segunda formação, fez parte o próprio Artemilson Lima).

Uma pesquisa que nos consome por quatro a cinco anos de vida não pode ser reduzida a um pequeno artigo de duas laudas. Peço perdão ao meu amigo pelo atrevimento e licença para comentar ainda duas “coisinhas” sobre seu livro antes de fechar este texto.

A primeira poderia ser apontada como uma suposta e possível crítica: o tom excessivamente celebrador que o texto assume para interpretar aquele período, aqueles sujeitos e aquelas práticas. Alguém poderia perguntar: além do oba-oba, cadê as mazelas? E o lado anti-herói daqueles sujeitos? Onde estão as contradições daquelas práticas? Para fazer uso de um teórico dentre os muitos com os quais Artemilson dialoga (Michel Foucault e o conceito de “heterotopias”), alguém poderia indagar: para além da unidade que todas essas práticas estabelecem entre si – uma unidade temporal, espacial, expressiva e ideológica, isto é, as experiências alternativas em Natal nos anos de 1980 – cadê as dispersões, descontinuidades, fissuras e frinchas por onde escapam elementos e aspectos contraditórios que com certeza constituem também a complexidade de tais sujeitos e práticas?

Mas a segunda “coisinha” que gostaria de comentar (e que para mim é muito mais significativa que essa primeira) tem a ver com a delícia e fruição com que o texto flui. Como eu disse, uma das afinidades que tenho com Artemilson é que ambos oscilamos em nossos pertencimentos identitários entre a Arte e a Academia. Ambos acreditamos, assim, que a escrita científica e acadêmica não precisa ser necessariamente chata e monótona. Um trabalho de seriedade sem o peso da sisudez. O texto de Artemilson é cheio de leveza poética e a cenografia metafórica utilizada em sua escrita – uma escalada ao longo de uma montanha que é também um passeio com amigo(s) – são chave de ouro para a tentativa de interpretação desse micromundo contracultural de ingredientes universais.

Então, para retomar o já citado Nietzsche, tal como Zaratustra, Artemilson Lima teve que se elevar às alturas (e só ele sabe de sua jornada de doutorado, o que no fundo é sempre muito solitário) para depois, com a tese em forma de livro, descer à terra para nos convidar para este percurso pelas experiências alternativas em Natal dos anos 80: vamos juntos, sem falsos representantes e líderes, seguidos não de crentes nem de cadáveres, mas sim de companheir@s que contestem toda forma de opressão e que queiram nos seguir nesse rolé.

Obs. O livro se encontra disponível na Cooperativa Cultural (Campus da UFRN), no Sebo Gajeiro Curió (Mercado de Petrópolis), no Sebo Balalaika (Cidade Alta) e também por meio do site da editora.

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2 Comments

  1. Artemilson contribuiu muito conosco num trabalho que realizamos em dez anos para uma mudança profunda na educação de Vera Cruz. Amigo desde os tempos da Residência Universitária no Campus da UFRN. Vou adquirir o livro para fazer um comentário como os eu em cordel.

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