OPINIÃO

Natal, a cidade desesperada e atormentada pelo negacionismo

Quando as pessoas olham as pesquisas, às vezes podem construir os mais diversos cenários, de acordo com seu posicionamento político e o grau de capacidade de entendimento das coisas. A mais recente pesquisa divulgada pela Consult, contratada pela Tribuna do Norte e divulgada segunda (15) expõe as contradições de uma cidade duramente atingida pela crise econômica e pelos efeitos deletérios da pandemia e de uma gestão irresponsável que aparentemente mantém incólume sua aprovação diante dos natalenses.

O fato de que 64,1% dos entrevistados terem se mostrado contrários ao fechamento do comércio de forma geral, enquanto apenas 27,1% apoiam essa iniciativa, revela algo que vai além do que aparenta, ou seja, de que a população quer o comércio aberto. Na verdade a estrutura econômica de Natal revela-se nessa percentual de repúdio à uma tomada de decisão que busca preservar as vidas das pessoas, posto que a cidade, hoje com quase 900 mil habitantes, é basicamente formada pelo pequeno comércio, pequenos prestadores de serviços e a administração pública, sendo que os dois primeiros segmentos foram devastados pelos efeitos da pandemia, com consequências fatais para o emprego.

É na Zona Norte, onde está a maioria da população trabalhadora, que o percentual é expressivo (72,2%) e isso corrobora a hipótese da negativa por uma opção ligada fundamentalmente à sobrevivência e uma maior aderência ao discurso negacionista do gestor municipal, que apostou acertadamente nessa clivagem de classe à seu favor, algo que o governo estadual não soube avaliar.

Fátima Bezerra administra duas grandes crises : a econômica-fiscal que arrasta o estado para um estado de debilitamento da sua capacidade de gestão; e a sanitária, que ameaça estrangular os recursos destinados ao combate a pandemia. Nessas condições Fátima enfrenta uma ampla coalizão reacionária e negacionista, forjada dentro da nossa caquética elite e claramente expressa nas corporações empresariais e vasto segmento dos servidores públicos, numa furibunda campanha de blogueiros e na própria gestão do prefeito de Natal, que a elegeu como inimiga declarada na sua perspectiva de sucesso eleitoral em 2022.

A posição do prefeito Álvaro Dias, de chafurdar o combate a pandemia, confundindo a população com suas atitudes grotescas, como combater o toque de recolher do governo estadual, montando um circo e mostrando-se um falastrão, ao continuar defendendo o remédio para vermes no esdrúxulo “tratamento precoce”, defendido inclusive por alguns profissionais da saúde, não parece afetar sua aprovação pelo eleitorado natalense.

O prefeito tem a aprovação de 70,6% dos eleitores natalenses quanto à sua política de “tratamento precoce” e 42,0% disseram que é a Prefeitura que tem feito a melhor política de prevenção e atendimento à população, enquanto o governo estadual teve 35,5% de aprovação. Apenas dois em cada dez natalenses são contra o tal “tratamento precoce”, disseminado pela administração municipal.

Que Natal virou um bolsão conservador não há dúvidas. O perfil do eleitor natalense expressa a formatação das suas classes e as últimas eleições mostraram isso. O eleitorado conservador e pobre é um prato cheio para o reacionarismo demagógico, que se apoia em importantes instrumentos midiáticos e na fraqueza dos setores progressistas e favorece as contradições expostas na pesquisa.

Álvaro tem a aprovação de 48,9% dos natalenses, considerando “bom” e “ótimo”; Bolsonaro tem 25,1%; e a governadora Fátima Bezerra 24,5%, embora no que tange ao combate à pandemia Álvaro siga com ótima aprovação, com 69,8%, Fátima Bezerra tem 49,1% de aprovação e o Mandrião do Planalto segue com 30,0% de aprovação. Esses índices mostram o quanto foi danoso todo esse período, com o executivo federal, em forte aliança com o bolsonarismo local, que fez uma “coalizão do horror”, com os setores reacionários locais, promovendo uma sabotagem explícita ao combate à pandemia.

Não se deve ter ilusões com essa Natal que muitos consideram moderna, pois muitos elementos que estão presentes hoje, estão presentes em todo o processo de formação histórica da sociedade potiguar. Uma cidade que perdeu o seu perfil industrial nos anos 90, apenas 20 anos depois de ter iniciado a construção de um polo têxtil e no seu lugar ergueu-se uma cidade sustentada pelo pequeno comércio, muito suscetível às oscilações da economia e “produtora” de baixa remuneração, ou seja, Natal é majoritariamente formada por pessoas pobres, de baixa renda, e expostas à morte, portanto, sujeitas ao sentimento de desesperança, que a faz, sob intensa propaganda midiática, apoiar tudo que, a seu ver, a protege da miséria absoluta.

Infelizmente o negacionismo municipal está vencendo.

 

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