OPINIÃO

Natal e seus símbolos

Por Paulo Nobre

Todas as cidades possuem as suas marcas, criam os seus símbolos, principalmente quando se querem turísticas e em torno da imagem de seus elementos marcantes constroem as campanhas que buscam atrair investimentos.

Através de um rápido exercício mental, é possível associar rapidamente uma imagem ao nome de algumas cidades, o que pode ser facilmente ilustrado em poucos clicks. Nova York e a Miss Liberty, Londres e Westminster, Paris e a Torre Eiffel, Roma e o Coliseu, Moscou e São Basílio, para citar apenas alguns exemplos clássicos. Outras cidades se destacam pelo conjunto de sua arquitetura, como é o caso da emblemática Brasília modernista ou das contemporâneas Kuala Lumpur e Dubai, com seus edifícios espetaculares. Outras ainda se definem pela vida que pulsa em suas artérias, como nas Ramblas de Barcelona, no Zócalo da Cidade do México, na Avenida 9 de Julio assinalada em Buenos Aires por majestoso obelisco ou na pulsante e plural Avenida Paulista margeada de edifícios simbólicos, plenos de significados para além da cidade de São Paulo.

Assim se vão construindo as narrativas urbanas, que enaltecem os feitos, as construções e a indústria humana. Os edifícios, as ruas e os espaços públicos não apenas organizam os usos, as funções e os fluxos citadinos, mas fazem parte da vida das pessoas e, assim, adquirem significados e se tornam simbólicos.

Continuando o exercício, qual seria então a imagem associada à Cidade do Natal? – como queria chamá-la o Mestre Cascudo, seu pensador maior. Quais são seus monumentos, seus valores? Quais são os elementos que a definem e que permaneceram ao longo da sua história? Quais são os seus cartões-postais, que continuam presentes na era digital, inclusive nas campanhas do mercado turístico e imobiliário? As imagens vêm rápido na memória dos seus habitantes e na lembrança dos seus visitantes. Para quem não a conhece, as respostas possíveis estão ao alcance do mouse.

A imagem que define Natal é o Morro do Careca! São suas praias, de águas esmeralda e dunas brancas. A paisagem que caracteriza este lugar não é composta apenas de elementos construídos, mas de um conjunto harmonioso de natureza e edificações, como a Via Costeira contornando o Parque das Dunas ou a Fortaleza dos Reis Magos cravada no encontro do Potengi com o Atlântico.

Os marcos de Natal são elementos naturais, que estão inseridos na malha urbana e fazem parte da vida e do cotidiano das pessoas, servindo de referenciais que orientam o transeunte ao se deslocar pelo tecido urbano. Este é, por exemplo, o motivo para que as construções no entorno do Parque das Dunas não ultrapassem a sua altura, pois assim a visão do cordão de dunas se torna privilegiada nas entradas da cidade – tanto para quem entra pela BR-101 e segue pela Avenida Salgado Filho/Hermes da Fonseca, quanto por quem deixa a Rodoviária pela Avenida Capitão-mor Gouveia – ali a Arena das Dunas pode ser vista em seu melhor ângulo, é onde seu nome faz maior sentido.

Tais características compõem um diferencial, dão identidade e personalidade ao lugar. A topografia singular possibilitou que porções da natureza estejam presentes na cidade, compondo uma paisagem exuberante que se descortina aos observadores. Com o passar do tempo, apesar de Natal ter crescido em todas as direções e ocupado o espaço disponível até seus limites de expansão, a natureza continuou presente no seu interior. O relevo é uma característica marcante do terreno, composto por um conjunto de tabuleiros costeiros, entremeados de dunas e lagoas. Esta situação geográfica conformou mirantes, nos quais é possível observar panoramas em que se distinguem aqueles elementos naturais que compõem a imagem da cidade.

A relação de proximidade com a natureza não é um privilégio de Natal. Outras cidades brasileiras possuem essa característica, sendo a coexistência entre os monumentos naturais e construídos amplamente divulgada e explorada pelas campanhas publicitárias. É o caso de Florianópolis, do Recife e do Rio de Janeiro, entre tantas outras. O que diferencia Natal é a escala singela dos elementos naturais e, portanto, a necessidade de condições especiais para que a paisagem seja vista e acessível a todos, habitantes e visitantes.

Outras cidades, cujos elementos naturais têm presença marcante na paisagem, apresentam vantagens se comparadas à capital potiguar, no que se refere às condições para a sua contemplação. A paisagem de Floripa pode ser contemplada do alto, a partir do Morro da Cruz e de outros mirantes naturais, cujas vistas se tornaram atrativos da cidade. O Recife se espalha na planura, conformando perspectivas generosas e praças d’água que possibilitam desfrutar o engenhoso enredo de pontes, rios, mangues e edifícios de todas as épocas.

Um capítulo à parte, o Rio de Janeiro – Cidade Maravilhosa, Paisagem Cultural da Humanidade – foi declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO justamente pela conjunção única entre elementos construídos e naturais, os quais têm como característica principal sua escala monumental, o que permite a convivência harmônica entre seus morros rochosos e edificações altamente verticalizadas. Apenas a título de comparação de escalas, enquanto o Pão de Açúcar mede 396 metros e o Corcovado ostenta impressionantes 710 metros, o nosso Morro do Careca não alcança mais do que 107 metros de altura – fato que foi preponderante para justificar o embargo dos “espigões” que começaram a ser erguidos em seu flanco.

A singularidade da paisagem de Natal, favorecida pelo arranjo geomorfológico, ao mesmo tempo em que propiciou uma relação marcante entre cidade e natureza, é também de uma fragilidade extrema. Alguns fenômenos recentes têm feito estragos, como a erosão que se tem feito notar em dunas e praias, engolindo ruas e edificações, levando o poder público a buscar soluções muitas vezes impactantes como o enrocamento que conteve a destruição do calçadão de Ponta Negra.

A fragilidade da paisagem também se manifesta quando é impedida a sua visualização, fato que pode ser facilmente ilustrado pelo sumiço do Farol de Mãe Luíza, outrora um reverenciado cartão-postal da cidade, atualmente encoberto pela verticalização da orla de Areia Preta. Portanto, aprendamos com o passado e, principalmente, com as experiências malogradas e irreversíveis.

O que será do nosso maior símbolo se a vista da enseada de Ponta Negra não puder mais ser desfrutada, ou seja, na hipótese de ser abolida a área non aedificandi ao longo da Avenida Roberto Freire. E para citar uma obra de arte da engenharia, que também se tornou um símbolo da cidade, o que será da paisagem composta pela Ponte Newton Navarro ornada pelas dunas de Santa Rita, se a pretendida verticalização da Praia do Meio nos impedir de contemplá-la a partir da Avenida Getúlio Vargas e da Ladeira do Sol? Por estes motivos foram controladas as alturas das construções nessas áreas, através do instrumento urbanístico chamado “controle de gabarito”.

Nunca é demasiado repetir… a paisagem de Natal é única, é um diferencial da cidade que traz para cá os turistas, move a economia e encanta os visitantes. É a identidade do povo natalense que está em jogo, não podemos dela prescindir. A revisão do Plano Diretor não pode matar a “galinha dos ovos de ouro”.

Paulo Nobre é arquiteto, urbanista e professor do departamento de arquitetura da UFRN

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