OPINIÃO

Natal tem similaridades demográficas com epicentro italiano do COVID-19

Por Ricardo Ojima*

Recentemente temos visto diversas comparações sobre a situação dos países em relação ao impacto da pandemia do Coronavírus (Covid-19). Uma dessa comparações ganhou maior divulgação pela declaração do presidente da República, Jair Bolsonaro. Segundo ele, não poderíamos comparar a situação da Itália com o Brasil, pois a densidade demográfica da Itália seria em torno de 200 habitantes por Km2, enquanto que no Brasil a densidade é bem menor: em torno de 20 hab/Km2. De fato, os números são próximos da realidade, mas não poderiam ser usados para explicar ou analisar as diferenças de contágio do Covid-19.

Bergamo, na Itália, é a província com a maior concentração de casos. Até o momento já passam de 4 mil casos confirmados. A densidade demográfica de Bergamo é da ordem de 3.000 hab/km2. A densidade demográfica pode ser usada para entender a proximidade entre as pessoas, pois mede quantas pessoas vivem uma determinada área. Mas um dos fatores que potencializam a importância deste indicador para políticas públicas é a extensão do território considerado.

Na comparação feita entre o Brasil e a Itália, considera-se a área total dos países e a distribuição da população no território não é considerada. No Brasil, por exemplo, considerar o território do país como um todo inclui diversas regiões que são pouco habitadas, como a Amazônia, reservas extrativistas, terras indígenas, etc.

Diante disso, para comparar as densidades demográficas para entender um pouco melhor o potencial de proximidade entre as pessoas e o impacto que isso pode gerar na velocidade das contaminações, seria mais efetivo pensar na densidade da cidade/província. Se compararmos, portanto, a província com maior número de casos na Itália (Bergamo) e a cidade de Natal, por exemplo, poderíamos refletir melhor sobre o caso.

Natal tem uma densidade demográfica de mais de 5.000 hab/km2, segundo estimativa populacional de 2019 do IBGE. Assim, se a densidade demográfica contribui para potencializar a disseminação do Covid-19, aqui teríamos uma situação que justifica ainda mais as medidas de isolamento social e redução da circulação de pessoas.

Outro fator apontado frequentemente para justificar os casos graves e a maior letalidade da Covid-19 na Itália é que a sua população é mais envelhecida, portanto, acumulando maiores fatores de risco. Mas vejamos: a proporção de idosos com mais de 65 anos de idade na província de Bergamo é de 21% (dados do Instituto Nazionale di Statistica para 2019). O município de Natal, por sua vez, tem uma proporção de idosos de 18%. Assim, o que podemos refletir sobre estes indicadores demográficos quando usados com o devido cuidado é que somos mais parecidos com os Italianos do que pensamos. E aqui, com agravantes: uma desigualdade social muito maior e um estado de bem-estar social em grande risco.

*Ricardo Ojima é professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da UFRN e presidente da Associação

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