CULTURA

Natalense lança fotolivro com registro afetivo de bairros históricos da capital potiguar

O fotógrafo natalense João Oliveira passou os últimos quatro anos buscando histórias nas paredes da capital. Nos bairros Cidade Alta, Rocas e Ribeira ele registrou os usos e desusos dados às construções mais antigas da cidade. Encontrou abandono, ressignificação e detalhou essa viagem no livro “Onde se esqueceu de lembrar”, primeira obra solo dele lançada a partir de recursos da Lei Aldir Blanc (Lei nº 14.017, de 29 de junho de 2020).

A publicação já está disponível para download gratuito enquanto e o livro físico segue em produção.

A ideia inicial de João era fazer um trabalho com caráter “denunciativo”, desvelando a situação do patrimônio histórico de Natal e tratando sobre a desigualdade social enfrentada pelas populações dos bairros retratados. Todavia, com o passar do tempo, o fotógrafo considerou que caberia aprofundar a proposta tendo em vista as relações formadas entre ele e o território.

Assim, surge uma obra que é também um registro íntimo de uma relação experienciada entre fotógrafo e cidade, algo que João definiu como “um desejo de redintegrar a história“, como diz no prefácio. O conceito, ele explica, foi apropriado da filosofia e teoria da memória para tratar sobre a restauração do todo a partir de uma parte, dos fragmentos.

Fachadas antigas em contra-Plongé dão início à imersão pelos registros. Como lembra Paula Lima, curadora e esposa de João que assina a abertura da obra, a escolha do ângulo permite um retorno à infância, quando nos admirávamos das enormes fachadas antigas e as víamos de baixo pra cima.

Becos, automóveis largados na rua, detalhes de portas e grades pensados para o século passado ganham protagonismo nos registros. Espaços internos também surgem, vistos pela entrada, simulando a visita curiosa do expectador que vem de fora. Pessoas não identificadas ocupam esses espaços. A ideia parece ser a de mostrar o que elas e o tempo fizeram dos lugares, mas sem atribuir isso aos que ali estão momentaneamente.

Preservação da memória e afeto é tema de primeiro fotolivro de João Oliveira. FOTO: Divulgação

“A ordem e sequência das imagens propõe panoramas sobre esse território, inicialmente trazendo o patrimônio arquitetônico de forma espelhada, criando uma espécie de rua que nos guia no começo da publicação, passando pelas texturas dessas fachadas, entrando em espaços internos até a vida pulsante marcada pelas pessoas, a noite e o dia nascendo novamente com breves cenas de pescadores. Há um retorno ao início, como apontando para esse ciclo, esse novo dia que está por vir”, orienta o fotógrafo.

Por fim, o diário fotográfico transparece a discussão sobre o que é conservado em Natal, como patrimônio. Tendo em vista que essa região da cidade se distancia cada vez mais das praias, parques e áreas com hotéis e altos prédios destinados ao olhar do visitante.

“Natal ainda é aquele lugar que o turista só vem pra praia e pra comer um camarão”, analise o autor.

João argumenta que projetos de requalificação deveriam ser voltados para potencializar a cultura local e economia criativa na cidade, valorizando espaços como a Ribeira, por exemplo. Ele também defende uma fiscalização continuada para a preservação do patrimônio.

Vida e memória d bairros históricos d Natal estão presentes no livro. FOTO: João Oliveira/Divulgação

“Aqui em Natal qualquer um bota abaixo prédios que eram para ser tombados – mas há talvez uma limitação até no entendimento dos órgãos responsáveis sobre esse tombamento. Quantos imóveis na Ribeira estão com dívidas altíssimas de IPTU e poderiam ser desapropriados e revitalizados para dar lugar a centros culturais, por exemplo? Quantos prédios tombados estão sendo deixados – pelos proprietários e pelo poder público – se deteriorar até ruir?”, questiona o fotógrafo.

O livro “Onde se esqueceu de lembrar” foi publicado com patrocínio da Lei Aldir Blanc, por meio do edital da prefeitura de Natal. A versão impressa do fotolivro vai incluir uma foto envelopando a obra que poderá, segundo João, “ser retirada, guardada, rasgada ou até emoldurada por quem adquirir a publicação”, numa “metáfora sobre a memória da cidade”.

O e-book está disponível para download gratuito aqui. A obra foi lançada pelo Margem Editorial, editora e gráfica Caule de Papiro.

 

 

 

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