ENTREVISTA

Natália Bonavides decide não disputar Prefeitura e sugere ao PT testar três nomes em pesquisa

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Pressão. Essa é a palavra que define as últimas semanas da deputada federal Natália Bonavides (PT). Nome mais lembrado do campo progressista pelos eleitores de Natal na disputa pela sucessão de Álvaro Dias (MDB) à prefeitura em 2020, a parlamentar não abre mão de continuar na Câmara dos Deputados. Mas não tem sido fácil, ela mesma admite. A pressão tem vindo de todos os lados. Se as ruas citam o nome de Natália, o PT também pressiona usando todas as armas possíveis.

A presidenta do PT Gleisi Hoffman disse durante o Congresso Nacional da sigla em novembro de 2019 que gostaria de ver Natália Bonavides sentada na cadeira de prefeita. Até o ex-presidente Lula já questionou a petista potiguar sobre a candidatura. Ela e a principal liderança do PT no Brasil ainda devem sentar para uma conversa franca nas próximas semanas.

Em nível local, a pressão também é grande nos bastidores. O presidente estadual do PT Júnior Souto já avisou que o partido vai usar o poder de persuasão do ex-presidente da República para convencer a deputada. Já a governadora Fátima Bezerra observa de longe o desenrolar das articulações na capital.

Jovem e carismática, Natália vem acumulando capital político eleitoral desde 2016, quando saiu das urnas com mais de 6 mil votos e o título simbólico de vereadora mais votada da história do PT em Natal. Dois anos depois, mais uma vitória expressiva. Candidata à deputada federal, foi a mais votada de Natal com 44 mil votos e a segunda maior votação entre todos os candidatos do pleito, contabilizando 112.998 votos.

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Nesta entrevista à agência Saiba Mais na véspera do réveillon, Natália Bonavides explica porquê prefere ficar no Parlamento e faz um balanço do primeiro na Câmara Federal:

Saiba Mais: O seu nome aparece em todas as pesquisas como a principal candidata do PT com chances de ir ao 2º turno contra o atual prefeito Álvaro Dias (MDB). Você será candidata à prefeitura de Natal em 2020 ?

Natália Bonavides: Eu me sinto muito lisonjeada e orgulhosa de ver esse reconhecimento do nosso trabalho. Um ano de trabalho como deputada, depois de dois anos do mandato de vereadora e ver que a cidade se reconhece e se identifica com esse trabalho em alguma medida, isso é muito gratificante, não deixa de ser uma expressão de reconhecimento. Mas não é só isso que deve embasar uma decisão tão importante. E pela avaliação política que tenho feito até agora acredito que minha tarefa nesse momento é na Câmara, no Parlamento. Quando saí candidata a deputada federal, e algumas pessoas contestaram, não entenderam, foram contra, achando que eu deveria sair à deputada estadual….

Você justificou a decisão de tentar a Câmara Federal na época dizendo que política não era um plano de Cargos e Carreiras. Mantém essa avaliação ?

 Exato, continuo achando isso. Quando decidi ser candidata à deputada federal, mesmo com muitas pessoas achando que era mais certa uma eleição à estadual, não foi com base no que era mais fácil, mas pelo que era politicamente mais acertado, qual era a decisão política mais condizente com a conjuntura que estávamos vivendo.

E qual era a conjuntura ?

De ataques extremos à classe trabalhadora através do Congresso Nacional. O Congresso era o principal palco desses ataques. Aquela avaliação se aprofundou. Se tínhamos essa avaliação no impacto da conjuntura no Rio Grande do Norte e na cidade de Natal, na época de Temer, avalie agora num governo de extrema-direita, neoliberal e neofascista. E aquela avaliação se aprofundou e me levou a reafirmar aquela opinião de que é nesse espaço que tenho que estar agora, é nesse foco em realizar uma oposição ampla, geral e irrestrita implacável ao que representa o projeto de destruição desse governo. Para além disso eu acho que tenho algumas tarefas na eleição de 2020. Acho que seria importante minha presença não só em Natal como em outros municípios que eu puder alcançar no nosso Estado para fazer o debate de como a eleição desse ano será importante. Para fazer com a sociedade o debate sobre esse projeto que está em curso hoje, que não está à altura da dignidade que nosso povo merece e tem direito. Então eu tenho essa tarefa de estar no Estado inteiro apoiando as candidaturas populares, do Partido dos Trabalhadores, as chapas que vão defender comigo esse projeto.

Quando o nome da então senadora Fátima Bezerra apareceu nas primeiras pesquisas para o Governo ainda em 2017, ela hesitou em falar na disputa, desconversava. No entanto, há tarefas na política que a própria conjuntura impõe e que é muito difícil negar. Eleitoralmente, seu nome é o mais viável do PT. A decisão de não participar do pleito como candidata é definitiva ?

No caso da Fátima só havia o nome dela, não havia sequer uma alternativa. E eu nem acho que seja o caso nesse momento. Acho que precisamos, estamos conversando com o Partido sobre isso, para que a gente teste outros nomes em pesquisa. O PT de Natal tem excelentes nomes, o próprio companheiro Mineiro, o Alexandre Motta, que foi nosso candidato a senador, o senador Jean Paul. Então não é como aquela conjuntura, onde tínhamos o nome da nossa senadora e era esse nome. Acho que o PT de Natal tem mais nomes que podem ser trabalhados, inclusive incluindo em pesquisas pra poder testar e ajudar o Partido. Eu também tenho responsabilidades. Eu sou a única mulher da bancada, sou a mais jovem da bancada do PT num universo de mais de 50 deputados e isso também me aponta algumas tarefas, no sentido da renovação, algo que precisamos muito porque atualmente estamos enfrentando os índices mais baixos de filiação de jovens nos partidos, não apenas no PT. E incentivar a participação de mais jovens na política é um desafio grande. Então são várias as justificativas, mas a principal delas é estar ajudando na oposição contra esse governo que ataca os direitos. Acho que é essa a tarefa que tenho que cumprir hoje e não a da… há várias formas de participar de uma eleição, a minha vai envolver esse papel mais amplo de rodar o Estado inteiro.

“Eu sou a única mulher da bancada, sou a mais jovem da bancada do PT num universo de mais de 50 deputados e isso também me aponta algumas tarefas”

Apesar da sua posição, não é segredo que você tem sido pressionada dentro do PT a disputar a prefeitura. A presidenta Gleisi Hoffman já pediu para que todos os parlamentares colocassem seus nomes à disposição para concorrer às eleições municipais. O presidente estadual do PT Júnior Souto disse recentemente que o diretório nacional vai tentar lhe convencer a mudar de decisão. Houve um episódio no Congresso Nacional do PT que a Gleisi lançou sua candidatura. Como você tem lidado com essa pressão dentro do Partido ?

Essa história de que a Gleisi lançou minha candidatura é fake news, ela apenas fez uma saudação dizendo que gostaria que eu fosse (candidata). O presidente Lula também vem falando comigo, mas sempre rapidamente, quando a gente se encontra em algum evento. Ainda vamos marcar uma conversa de fôlego com ele.

O que o Lula falou para você ?

Vamos ser candidata né ? (risos). Mas isso tudo em encontros muito rápidos, ainda vamos nos encontrar com mais calma até para que eu possa explicar para ele os motivos pelos quais eu acho que nesse momento a minha tarefa mais importante é no Congresso. Mas essa pressão existe, eu considero natural até porque eu fui a deputada mais votada da cidade e meu nome tem aparecido em pesquisa. Mas o mais importante não é quem pede nem quem pressiona, mas as razões pelas quais essa decisão vai ser tomada.

Não depende de quem pede ou de quem pressiona, mas um pedido do Lula é diferente ?

(a deputada faz silêncio, ri e continua). É diferente no sentido de ser uma pessoa tão expressiva no nosso partido, no nosso país e claro que a gente sente de forma diferente. Mas eu realmente acredito que não é quem pede quem deve determinar essa decisão, mas as razões políticas que cercam essa decisão. Por isso que minha conversa com o Lula vai ser uma conversa política e vai girar em torno de quais razões me levam a querer desenvolver essa tarefa. Será uma análise da situação atual do país e a que conclusões essa análise chega. 

“Eu realmente acredito que não é quem pede quem deve determinar essa decisão, mas as razões políticas que cercam essa decisão”

Você recebeu críticas dentro do PT por concorrer a uma vaga na Câmara Federal, e não a ALRN, e vem recebendo críticas quando diz que não quer concorrer à Prefeitura. Há quem lhe critique dizendo que você pensa na sua corrente (Natália é ligada a Articulação de Esquerda) ou no seu mandato antes de pensar no Partido. Como você lida com essas críticas ?

Eu acho que essa é uma análise de quem sempre tem se equivocado sobre minha figura, quem muito se equivocou sobre o que seria minha candidatura à vereadora, quem muito se equivocou sobre o que seria minha candidatura à deputada federal e que agora faz essa análise equivocada sobre que razões me levam a analisar que esse não seria o momento da minha candidatura à prefeitura. Na verdade eu acho até baixo que se falem em razões pessoais. E aqui entrando até numa esfera mais pessoal do debate, como seria bom estar mais em Natal logo num momento da minha vida em que estou com idade e penso em ter filhos, e como seria bom não estar nessa ponte aérea fazendo isso… mas é o contrário. Eu nunca tinha pensado em ser candidata à vereadora na minha vida. Eu sou advogada, tinha planos de trabalhar na advocacia popular, junto aos movimentos sociais, e nunca tinha me passado pela cabeça ser vereadora. Mas ali foi uma decisão política e foi a melhor decisão naquele momento. O que me orienta é como eu posso servir melhor o povo do Rio Grande do Norte nesse momento. Por mais que cada pessoa tenha suas questões pessoais, acho que quando a gente se torna uma figura pública com alguma projeção e com possibilidades de estar em disputas que fortaleçam o projeto, essas questões pessoais são menores e não devem ser definidoras dessas coisas. Pra mim o mais importante é a análise política do momento que o Brasil está passando e isso é que tem gerado minhas decisões. Foi assim em 2016, em 2018 e também é como eu pretendo encaminhar essa questão em 2020.

“O que me orienta é como eu posso servir melhor o povo do Rio Grande do Norte nesse momento”

Então é uma decisão tomada: Natália Bonavides não concorre à prefeitura de Natal em 2020 ?

 Eu não vejo nenhum novo elemento que mude essa análise política que me fez chegar a essa decisão. Esse é o cenário atual.

Você citou os nomes de Fernando Mineiro, Alexandre Motta e Jean Paul Prates. Quem você apoiaria ?

Eu apoiaria os três porque acho que os três são figuras muito preparadas e tenho inclusive começado a conversar com eles sobre isso. E quem se disponibilizar para essa tarefa vai ter nosso apoio de entrar com tudo na campanha, de participar de coordenação de campanha… tudo o que eu puder transferir de potencial eleitoral para a candidatura petista que existe será transferido.

“E quem se disponibilizar para essa tarefa vai ter nosso apoio de entrar com tudo na campanha”

Falando do seu mandato na Câmara. Em entrevista recente, o Ciro Gomes disse que o Congresso teve um papel importante para barrar alguns dos ataques do Governo Bolsonaro em 2019. Você concorda com essa análise ?

Acho que o Congresso, especialmente a oposição, teve um papel de reduzir os danos das medidas que foram enviadas pelo Governo, agora barrar acho que não conseguiu. Uma das piores medidas que foram enviadas, a Reforma da Previdência, passou, ainda que numa versão menos horrível do que era, mas ainda textos finais muito ruins para a classe trabalhadora. Então acho que o Congresso teve esse papel de reduzir os efeitos dos ataques do governo Bolsonaro, mas lá a conjuntura não é das mais favoráveis para o povo. A gente viu que a maioria do Congresso se alinhou muito à política econômica desse governo, que é uma política terrível de destruição de direitos mesmo. Então nesse sentido, a atuação da oposição foi importante, mas ainda precisamos de muita mobilização popular para que essa atuação realmente consiga barrar alguma coisa.

E essa mobilização deve vir de fora ?

Tem que vir de fora. Lá dentro nós temos uma atuação bastante limitada. Não sou eu, com o meu discurso, que vai fazer um deputado que ganhou R$ 40 milhões do governo mudar o voto dele numa discussão sobre a Reforma a Previdência. O que vai fazer esse deputado mudar de voto é a mobilização popular, o povo organizado. E a gente sabe que 2019 foi muito difícil de mobilizar. A gente viu a economia muito mal, o desemprego muito alto, o trabalho informal crescendo, os sindicatos sendo atacados pelo Governo e pouca mobilização. O Congresso é um parlamento burguês que serve mesmo para manter as coisas como estão, para aprofundar políticas econômicas que facilitem retirar direitos e explorar mais a classe trabalhadora. Só com pressão externa é possível obter resultados mais favoráveis ao povo.

“O Congresso é um parlamento burguês que serve mesmo para manter as coisas como estão, para aprofundar políticas econômicas que facilitem retirar direitos e explorar mais a classe trabalhadora”.

Apesar de todas as análises negativas, o Brasil não sabia em 2018 o que seria um governo de extrema-direita e ele aconteceu em 2019 com ataques contra os mais pobres e o país em todas as áreas. Agora já se tem uma ideia do que esse governo é capaz. A oposição está preparada para 2020 ?

Acho que a gente começa 2020 mais organizado, já que passou o tempo para avaliar esse governo, teve um fator importante que foi a soltura do presidente Lula, que vai nos ajudar na mobilização popular, mas o mais importante para 2020 é não ter ilusão do que representa esse governo. Não só do ponto de vista econômica, mas também do autoritarismo. Fazer oposição a um governo de extrema-direita não é como fazer oposição aos governos anteriores, como Collor, FHC… estamos diante de um governo que fala abertamente em metralhar os adversários, que sejam presos ou saiam do país. Discurso político não é algo da boca para fora, tem o poder de inspirar as pessoas, seja para o bem ou para o mal. O próprio presidente busca legitimar a violência contra determinados grupos da sociedade. E a própria família dele está de tempos em tempos falando sobre o AI-5, a ditadura… o governo comemorou o aniversário da ditadura, permaneceu homenageando torturadores da ditadura…. 2020 vai ser um ano de muita luta, de muitos ataques econômico e esse governo não se sustenta sem uma agenda política autoritária. O neoliberalismo do governo Bolsonaro é irmão siamês da política autoritária.

O Bolsonaro está visivelmente acuado pelos escândalos que envolvem ele e a família dele, a exemplo do assassinato da Marielle Franco, o caso Queiroz… o Flávio Bolsonaro é acusado de empregar milicianos e de lavar dinheiro, e o Carlos Bolsonaro é suspeito de chefiar milícias digitais para espalhar fake news contra os desafetos. Por conta dessas pressões há quem tema um golpe de Estado dado pelo próprio presidente. Que avaliação você faz dessa possibilidade ?

Não podemos nos permitir baixar a guarda em relação a isso. Acabamos de sofrer um golpe em 2016 e sabemos o que representou o impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff para a nossa frágil democracia. Nossas elites nunca hesitaram em jogar a democracia no lixo se isso fosse para aumentar o lucros dela. E segundo porque todo o contexto que temos visto na América Latina. Nosso continente é uma luta incessante, não há um minuto de sossego todavia que um processo mais popular se inicie. E o Bolsonaro e a família dele testam essa possibilidade toda a hora. Falando sempre que, se houver ameaça comunista a história vai se repetir… e a gente viu o capital político dele cair até mais rápido do que a gente imaginava, mas está sempre em conflito com o legislativo, o judiciário…. não é algo que a gente deve baixar a guarda e descartar, mas o perfil do presidente atual nos leva a ficar bastante vigilante. A democracia não avisa quando está morrendo.

“O neoliberalismo do governo Bolsonaro é irmão siamês da política autoritária”

Você acha que é o Lula que vai liderar esse processo de mobilização popular ? Como você tem visto de dentro do Congresso essa reorganização da esquerda no Brasil ?

Acho que não é uma pessoa só, mas quando a gente tem uma liderança tão expressiva no país, do nosso lado, uma ligação tão forte com o povo brasileiro e isso nos ajuda. Mas acho que não devemos depender de uma pessoa só, mas a soltura dele foi muito importante para fortalecer a oposição, ajudar mesmo nesse processo. A gente sempre defendeu a liberdade do Lula por muitos motivos. A luta por Lula livre não é uma luta de petista nem uma luta da esquerda. Qualquer pessoa que percebeu o que estava acontecendo naquele processo entendeu que Lula foi preso por ser quem ele é, pelo que ele representava naquele momento, sendo o candidato que liderava as pesquisas. Acho que o Lula tem um grande papel em 2020 para viajar muito, mobilizar nos estados e ajudar. A população está muito desesperançada. Ter uma liderança que consiga falar de esperança nos ajudar a mobilizar.

O pacote anticrime enviado pelo ministro Sérgio Moro para o Congresso foi aprovado com mudanças. Essas mudanças representaram uma derrota para o Moro e foram comemoradas por alguns setores da esquerda, como o deputado federal Marcelo Freixo, que conseguiu incluir a figura do juiz de garantias e retirou o chamado “excludente de ilicitude”, interpretado como uma autorização para que o Estado matasse suspeitos sem que policiais fossem punidos. Você votou contra o pacote anticrime. Por quê ?

Por mais que eu reconheça o trabalho muito importante para quem estava naquela comissão, em especial o deputado Marcelo Freixo e Paulo Teixeira, avaliando o que restou do projeto que ficou ainda ficou muito ruim. Permaneceu com o caráter punitivista, aumento de pena de 30 para 40 anos e realmente não acredito que isso tenha impacto em combate ao crime. O que a gente tem lido não é esse tipo de medida que vai reduzir a criminalidade. Como a gente vai falar em com bate aos crimes sem falar na política de drogas ? se limitando a medidas de caráter punitivista ? O voto contra o pacote por melhor que fosse a redação original é muito ruim. Foi como a reforma da previdência: conseguimos tirar alguns pontos, mas aquele texto que restou não nos servia. E foi essa avaliação que fizemos no pacote anticrime. Inclusive o texto passaria sem os votos da oposição.

“Realmente não acredito que isso (o pacote anticrime) tenha impacto em combate ao crime”

Você chegou a protocolar projetos de lei ligados à Previdência. Como estão os trâmites das propostas na Casa ?

Fizemos projetos de lei após a posse como deputada voltados para o combate à sonegação fiscal, voltado para os grandes devedores, pautas que o governo disse que iria tratar da questão da sonegação e não trataram. Um dos projetos era para proibir o perdão a sonegadores da previdência e esses projetos estão estagnados nas suas comissões. A reforma da previdência deixou intocáveis os grandes empresários e grandes devedores e penalizou só os mais pobres. E não estou falando de qualquer devedor. Falo da Vale que bate recordes de lucros, de bancos que estão batendo recordes de lucros…

A reforma da Previdência será a grande pauta de 2020 no cenário local. Qual é a sua posição sobre o projeto que o governo Fátima vai enviar para a Assembleia Legislativa ?

Ainda não tem um texto final da reforma. Antes de haver um anúncio por parte do governo de que iria mandar uma reforma para o Estado nosso mandato vinha buscando os secretários para entender melhor a situação. Temos um posicionamento de que todas as alternativas devem ser esgotadas antes que atinja os trabalhadores do Estado. Teremos uma conversa com a governadora e os secretários para dialogar sobre o texto final. Acreditamos que ainda há opções a serem analisadas, como o debate que está sendo feito na Câmara sobre a cessão de créditos. Enfim, deve se buscar todas as alternativas.

Os sindicatos avaliam que o discurso do governo Fátima é semelhante ao do governo Bolsonaro em relação à reforma da Previdência…

Eu acho diferente porque o debate da previdência nacional foi feito em cima de dados falseados. Havia um relatório da CPI no Senado, mas hoje a gente entende porque escondiam os cálculos enviados para o Congresso. O debate da reforma da Previdência no Congresso foi baseado em fake news e passamos o ano denunciando isso. O problema não era estrutural, conjuntural, do aumento da informalidade agravado pela reforma trabalhista e vai se aprofundar ainda mais. E vamos cobrar do governo Fátima que esse debate seja feito da forma mais transparente possível. Até porque o governo dela tem outro perfil, um perfil democrático, transparente… e esse é o primeiro passo: fazer um debate honesto. Quando tivermos um texto final eu direi qual é o nosso posicionamento. Agora te adianto que é muito difícil a gente defender projeto que retire direitos dos trabalhadores do Estado sem que todas as opções tenham sido tentadas.

“O debate da reforma da Previdência no Congresso foi baseado em fake news e passamos o ano denunciando isso”

Você é membro da CPMI da Fake News e olhando de fora parece que essa investigação é uma espécie de bomba relógio contra o governo Bolsonaro. Até onde essa comissão pode chegar ?

O que eu já posso lhe falar é que existe uma máquina de fake news funcionando dentro do governo. Eu não estou falando de uma ação de campanha que parou. Estou falando de um núcleo estruturado, com servidores nomeados, que fazem essa máquina funcionar, que dão os comandos, acionam os robôs, uma rede de ódio que eles alimentam todos os dias. É grave, uma coisa que acontece no mundo todo. Mentira na política não é uma novidade, mas a gente sabe que com as novas tecnologias a massificação isso se tornou um problema que está afetando as democracias. Não é à toa que tem tanta gente investindo dinheiro nisso, em deixar essas redes ativas para alterar a opinião das pessoas de forma mais baixa. Essa rede está preparada para se estruturar e agir nas próximas eleições de novo.

O problema é que também não existe lei para punir esses abusos. A CPMI também tem esse papel de elaborar uma legislação para esses crimes ?

É um tema muito desafiador. Se por um lado não podemos deixar essa status atual, com pessoas cometendo crimes, também não podemos retirar a liberdade da expressão das pessoas. Mas a CPMI tem esse objetivo de propor legislação, essa é uma parte da comissão que é tão importante como a outra.

O depoimento da deputada Joice Hasselmann foi revelador nesse sentido…

O deputado Alexandre Frota já tinha sido importante por trazer muita informação mas, de todos os depoimentos que ouvimos, sem dúvida o deputada Joice Hasselman foi o mais importante porque trouxe toda uma sistematização do que acontece, com nomes de assessores nomeados, identificou pessoas que estão no Palácio do Planalto, nos gabinetes dos deputados federais e estaduais também. E por ter sido vítima, ela também está empenhada em punir essas pessoas.

Você também já foi vítima de fake news….

Eu sou vítima de fake news e também de um judiciário despreparado para lidar com tudo isso. Logo depois da campanha do ano passado, uma pessoa postou uma menina sem blusa com os seios de fora e disse que era eu. Havia um texto com ofensas, mas focando na história da fake news, havia uma pessoa que não era eu e a quem estavam atribuindo a mim àquela foto. A gente ganhou na primeira instância e na segunda foi revertido porque o juiz disse que eu como pessoa pública estava sujeito a críticas. É obvia que como pessoa pública eu estou sujeita à críticas, mas acontece que aquilo não era crítica, mas uma mentira. Isso mostra o tamanho da dificuldade de se debater esse tema. Na campanha mesmo houve uma fake news que tentamos tirar do ar, mas não conseguimos. Já sofri até ameaça de estupro. E as respostas têm sido muito incipientes.

Você saiu de uma casa legislativa com 29 vereadores e foi para uma com 513. Além da dimensão das pautas, qual é a diferença ?

São espaços muito diferentes, a começar pelas pautas. Quando fui candidata à deputada federal tínhamos expectativa de debater as pautas estruturantes, nacionais. Morar em duas cidades é muito puxado, outra coisa é que lá funcionam as bancadas dos partidos. Elas se reúnem, formam seus posicionamentos em relação aos temas que serão votados. Até pelo próprio tamanho a gente precisa que as bancadas funcionem muito.

Você foi vítima de machismo na Câmara ?

Sempre. Embora sejamos maioria no país somos apenas 15% na Câmara. Até as pautas que tem a ver com as mulheres são definidas pelos homens.

Mas houve algum caso específico ?

Em debates, quando sou interrompida. Isso é comum, eu tenho o “agravante” de ser uma mulher jovem. Andando na Câmara, tentando em algum espaço, eles me barram sempre. Como a gente não tem “cara” de deputada, nem se dão ao trabalho de olhar a identificação. Os homens passam pela porta e pronto. Se eu estou com algum deputado, perguntam se eu estou acompanhando ele, perguntam cadê meu crachá de assessora. E conversando com outras deputadas mulheres, percebi que isso é generalizado. É isso, são espaços que não foram criados pelas mulheres. Na verdade a gente tem que ser muito melhor do que os homens para ser espaço. E não é apenas na política, na vida é assim também. E eu não estou dizendo que basta ser mulher que estaremos representadas, não é isso. Até porque o projeto que tenta acabar com o percentual de 30% do fundo eleitoral para as mulheres é de uma mulher. Estou falando de representação de mulheres que defendam o direito das mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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