OPINIÃO

Nem isto, nem aquilo: a terceira via é a direita disfarçada

Com o presente texto proponho uma análise sobre os últimos acontecimentos da conjuntura nacional nesse setembro tão marcante. Vou me dedicar, em especial, a análise dos atos bolsonaristas do último 7 e aqueles do sábado 12, puxados por setores da direita que hoje se opõem ao Governo do presidente e que contaram com presenças pontuais de parte da esquerda tradicional.

Faço minha reflexão sobre o tema a partir de um poema assinado por Cecília Meireles. A fluminense dispara sobre as dúvidas e como elas estão presentes em nosso cotidiano. Diz trecho da poesia: “ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro. Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… e vivo escolhendo o dia inteiro!”. A disjuntiva que a artista provoca cabe como luva para a encruzilhada política que atravessamos.

Os atos que aconteceram no fim de semana foram chamados sob a lógica do isto ou aquilo. Nem Bolsonaro, nem Lula era o que diziam os panfletos convocatórios. E como a disputa política é também simbólica, nem vermelho, nem canarinho: vamos de branco! O resultado: segundo estudo da USP, conduzido por Pablo Ortellado e Márcio Moretto, publicado pela BBC Brasil[1], 67% dos participantes da atividade se declararam caucasianos.

Esse dado contrasta com o perfil das manifestações do dia da independência bolsonaristas, cuja diversidade racial foi maior. Os professores apontam que 33% das pessoas que saíram em defesa de Jair Messias eram negras. Destacam ainda, Moretto e Ortellado, que os atos organizados pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e companhia eram compostos em média por pessoas mais jovens, mais ricas e com escolaridade superior que aquelas que atenderam o chamado bolsonarista.

Cumpre destacar ainda que em termos de massificação, as marchas pró-Governo no dia 7 estão longe de ser um “flop”. Segundo dados da Polícia Militar de São Paulo, mais de 125 mil pessoas ocuparam a paulista, sendo uma atividade cuja base de sustentação era exclusivamente bolsonarista. Ao passo que no dia 12, o MBL, o Novo, o PSDB, o PDT e demais forças da Direita, juntaram um público estimado em 6 mil participantes.

Além da medição desproporcional de forças, esses dos episódios revelam muito sobre como o tabuleiro do xadrez da política nacional está dividido. De um lado existem as forças da extrema direita bolsonarista, financiadas a rodo, mobilizadas e com sede de aprofundar o golpe de 16. No outro pólo, existe a direita “gourmet”, que longe de ser delicada, vê em Bolsonaro um péssimo cavalo para apostar nas fichas na disputa presidencial agendada e tenta desesperadamente lançar um nome próprio para a corrida. E, por fim, há o campo da esquerda que já vem puxando manifestações de massa desde o começo do último trimestre, apontando para as consequências devastadoras da continuidade desse Governo.

O que mobiliza cada um desses setores? Bom, o bolsonarismo aposta na tática do morde-e-assopra, cavando um pouco mais a tumba das liberdades democráticas a cada gesto autoritário e recuo envergonhado. As declarações do presidente que assanharam as massas, traziam o conteúdo antigo: não cumprir as decisões do Supremo Tribunal Federal e foram seguidas de uma carta redigida por outro pária especialista em missivas – Michel Temer.

Isso se dá por duas razões: a primeira é que o STF, tem poder de fogo contra o clã do presidente. Alexandre de Moraes tem acompanhado os inquéritos das Fake News e investido contra os bolsonaristas mais eloquentes, expedindo pedidos de prisão. Em segundo lugar, como lembra o profeta Jucá, a Corte está dentro do grande acordo nacional. O Supremo representa parcela da elite brasileira que tem acordo com as privatizações, a descentralização do Banco Central e outras coisas mais, contudo acha Bolsonaro difícil de engolir.

Concretamente, o colegiado reestabeleceu os direitos políticos de Lula colocando de volta ao jogo o principal adversário eleitoral de Jair. As pesquisas mostram o mesmo cenário de 2018 antes da prisão do ex-presidente ser decretada: o petista lidera as intenções de voto para 22. O que provoca a reação da outra parcela da Direita, a gourmet.

Da parte lde Dória, Ciro e a juventude reacionária, o cálculo é apoiar o impedimento de Jair Messias para dar gás ao nome do tal “caminho do meio”. E para isso, o velho e funcional antipetismo é acionado, a saudade da Vaza-jato bate e eles falam de uma frente ampla que continue a caça ideológica à esquerda e suas pautas históricas. Cumpre lembrar que o MBL foi vanguarda bolsonarista. Além de fotos icônicas com Eduardo Cunha, a juventude reacionária estava invadindo hospitais até pouco tempo querendo provar que a Covid19 não existia.

Mais de meio milhão de mortos depois, as memórias da defesa do racismo, e contra o debate de gênero parecem rarear. Para os vídeos que registraram os tímidos protestos dos “brancos”, via-se bandeiras LGBT. A pergunta que faço é: que tipo de luta pela emancipação política dos sujeitos minoritários – mulheres, negritude, diversidade sexual – se faz com quem ontem queria te ver morto até ontem? A quem serve um movimento de identidades liberal e anti-povo?

O resumo da ópera é que a fração das elites nacionais está sem saber o que fazer diante de seu parco apoio popular e da polarização real entre o bolsonarismo e as forças de esquerda, liderada pelo PT. E esse imbróglio não é fácil de resolver. O PSDB assumiu publicamente ser oposição a Bolsonaro por cuidar da democracia. É no mínimo risível depois de terem pedido recontagem de votos, que abriu margem para uma das principais narrativas de Bozo: o ataque às urnas e o sistema eleitoral.

Assim, a direita “gourmet” que vota casadinho com o Governo nas pautas que vem destruindo as condições de vida da classe trabalhadora, quer colocar o gênio de volta na garrafa, mas viu que não dá conta de fazê-lo sozinha. E não tenham dúvidas que esses sujeitos que agora marcham de branco e inflam bonecos tentando igualar Lula a Bolsonaro nunca apoiariam uma candidatura da esquerda.

A falsa equivalência entre o petismo e o bolsonarismo é necessária para que eles se mobilizem como alternativa, mas ela não é capaz de ser mais real que o rei. A população sabe que os resultados sociais dos governos petistas são totalmente contrários aos que experimentamos hoje.

A carestia corrói o salário mínimo que não tem reajuste real, a gasolina bate recordes de preço, a fome volta aos lares brasileiros, o feminicídio cresce. Nessa toada seguem a péssima gestão da pandemia, com os escândalos nas compras de vacina e com a morte de mais de meio milhão de compatriotas.

O impacto dessa política agressivamente neoliberal defendida pelo “verdeamarelismo” do dia 7 e pelo “branquismo” do dia 12, repercute diretamente nos nem-nem de verdade. O IPEA chama assim os jovens que não conseguem trabalho e tão pouco se sentem motivados a estudar.[2] Esse limbo é provocado pela completa estagnação das políticas macroeconômicas de responsabilidade da União e empurra especialmente as mulheres negras, periféricas e para uma condição de extremo empobrecimento e desalento.

E o que fazer diante disso? Bom, aqui vamos analisar o último bloco do cenário político posto. Para parte da esquerda fascinada com a doença infantil do “frente amplismo”, como alguns analistas vem chamando, se sentiram confortáveis em marchar lado a lado com quem é co-autor do genocídio em curso e que ontem apoiava Bolsonaro e segue defendendo seu projeto neoliberal de cabo a rabo. A esses setores, representados por alguns camaradas do PcdoB e lideranças do Psol, segue o encargo de avaliar os efeitos de suas próprias ações. Como diz o ditado popular, diz-me com quem andas, que te direi quem és.

Não cabe na luta popular pelo Fora Bolsonaro quem apoia as suas políticas. Nosso problema não é apenas com a “pessoa” Jair Messias, mas com o que ele representa. O bolsonarismo é maior que o presidente e isso ficou claro em como a turma seguiu organizada nos dias 8 e 9 de setembro. Emparelharam a Esplanada com mais de cem caminhões e interromperam as BR’s por algumas horas. E a base estava tão eufórica com a possibilidade da implementação da intervenção militar que vibrou com a fake news do estado de sítio e negou o áudio verdadeiro do próprio Capitão pedindo para cessar o bloqueio.

Sem tempo para vacilar, não podemos cometer os mesmos erros de análise do passado. Nem superestimar as forças da extrema direita bolsonarista, nem subestimá-las. A nós, do campo popular de esquerda, cabe organizar a classe trabalhadora, olhar para os desempregados, órfãos do genocídio da má gerência da pandemia e aumentar nossa capacidade ofensiva tanto do discurso quanto da prática.

São tempos, literalmente, de vida e morte. Sem ilusões nem com a direita que escova os dentes, nem com a direita que os afia. A nossa fortaleza é a luta pela defesa das coisas mais belas e organizar a classe trabalhadora.

[1]SCHREIBER, Mariana. Em ato convocado pelo MBL contra Bolsonaro, 38% não aceitam protestar com PT, mostra pesquisa. BBC Brasil. Disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-58540540> Acesso em 13 de set. de 2021.

[2] Conheça o perfil dos jovens que engrossam a fileira da geração “nem-nem”. PT. Disponível em <https://pt.org.br/conheca-o-perfil-dos-jovens-que-engrossam-a-fileira-da-geracao-nem-nem/mães> Acesso em 13 de set. de 2021.

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