OPINIÃO

No escurinho do cinema

São Tomé, cidade da região do Potengi, distante pouco menos de 130 km de Natal, lá tinha o cinema de “Seuenedino”, Sinedino, meu pai,  funcionário da Cooperativa de Algodão da Cidade, e proprietário do cinema que levava entretenimento, diversão,  ao povo mais humilde, a felicidade dos meios e finais de semana. O ônibus chegava com as “latas redondas” e muita gente cercava tentando descobrir, não sei como, nunca conseguiam, qual seria a atração. Teriam que esperar pelo cartaz colocado na calçada da rua principal.

A criançada, os moços da cidade, até mesmo os adultos ficavam na torcida para filmes de ação, de preferência os faroestes com Durango Kid, Apolônio Cassid, Bat Masterson, Zorro/Tonto e seus cavalos maravilhosos. Se não fosse western, a torcida recaía toda sobre Tarzan do Macacos, o rei da selva, campeão absoluto de bilheteria em todos os dias de sessão, o fantástico e original Johnny Weissmuller, campeão de natação, talvez o personagem mais imitado do cinema em todos os tempos, ele o mais famoso de todos interpretes dos mais de 20 filmes baseados no livro de Edgar Rice Burroughs.

Nos dias seguintes, filhos, netos levavam pais, avós familiares à loucura pendurados em galhos de umbuzeiros, mangueiras, cajueiros ou mesmo pulando das pedras e mergulhando nas águas do Rio Potenti depois do grito estridente – uouooooooooooooooooooooooooo -, diferentes estilos em cada um dos imitadores do Tarzan dos Macacos, e repetido por dez em cada dez garotos. Depois dos gritos, dos socos repetidos no peito, mergulhavam nas águas para lutar e derrotar os crocodilos imaginários, era uma loucura.

Os do time dos faroestes, não eram poucos, saiam para os matos em busca de varas de marmeleiro (acho que era esse o nome da madeira), raspavam a sua casca verde-escamoteada para que ficassem o pau branquinho da cor dos cavalos de Durango, Apolônio e Zorro. Mas tinha também os fãs do Tonto, estes tinham um trabalho maior, pois raspavam uma parte e deixavam outra em branco torneando os “cavalos pampos”, de duas cores, eram assim chamados por nós àqueles que, depois,  descobri serem os Appaloosa, uma raça que já existia 20 mil anos antes de Cristo muito apreciada pelos índios americanos.

Depois era fazer um corte na parte que seria a de cima, cabeça do cavalo, furar um buraquinho, amarrar um cordão, os mais bonitos que encontrassem, e pronto, cabresto feito, depois era só correr atrás dos bandidos, gesticulando, gritando e atirando com revólveres de ossos de animais, os mais parecidos encontrados.  Outro concorrido herói era o Flash Gordon, os seriados fantásticos e suas viagens interplanetárias que faziam a cabeça dos mais doidinhos. No estilo Tarzan, outro famoso era o o Jim das Selvas.

É claro, nem precisa dizer, que a família de “Seonedino” ia toda ao cinema, na época eram já dez filhos, acho que só Edward, o mais novo da tropa de onze ainda não tinha nascido. A frequência total no começo, depois, com o costume, naturalmente,  apenas os quatro meninos já grandinhos – Eduardo, Naldo, Doca e Dedo  (eu entre eles) e uma menina, Ediná, a mais ligada ao nosso  pai, filha de sua confiança para ficar no caixa, compareciam sempre. Um detalhe: os filmes da noite tinham que terminar impreterivelmente às 21h, pois às dez tocava o sinal da usina, o aviso, e todos se recolhiam pois a cidade ficava às escuras depois desse horário, era desligada a energia. Acho que era assim em todo interior do Estado.

Era quase um toque de recolher geral. Só dava  tempo de “Seuenedino” recolher a féria da noite, fechar as portas junto com Zé de Mabel, o homem que cuidava das máquinas, operador ( que levava as vaias quando a projeção parava ou provocava cortes ) e também da locução na boca de ferro da cidade,  juntar a filharada, passar pelo Clube Potengi para tomar uma Crush com solda preta (ele, pai, não lembro o que tomava) para depois rumar pra casa, bem pertinho, na segunda rua principal da cidade. Por falar em Zé de Nabel, já falecido, assim como meu pai, ainda ecoa nos nossos ouvidos as “Aves Marias”, textos belíssimos, copiados, outros criados, que ele narrava com sua voz marcante na esquina do mercado no possante microfone, todos os dias, às 18h, em ponto.

Naquela noite em especial, razão da minha narrativa, tínhamos como atração um filme de “Zé Trindade”, humorista famoso do time de Grande Otelo, Oscarito, entre outros. Lembro vagamente, pois não era dos nossos preferidos, acho que era uma  fita da famosa Atlântida, contava a história de um Quincas Cabeleiro, que se fazia passar por efeminado (essa era a palavra da época) para poder namorar as mulheres que iam ao seu salão. Não havia muita gente nesse dia, claro, afinal, não era o gênero preferido, nem de longe. Por isso, a contagem da féria foi rápida e nos dirigimos para o Clube Potengi já pensando na Crush laranja deliciosa daquelas boas noites de cinema. “Seonedino” conversou um pouco mais naquela ocasião, o toque da usina ainda nos pegou na rua, mas ele não se preocupou, era noite de lua, dava para ir, tranquilamente caminhando os trezentos metros que separavam o clubes da nossa casa.

De repente, uma pergunta angustiosa, saída quase com um choro assombrado da nossa irmã Ediná: Paim, cadê Naldo? Estava faltando um dos quatro filhos homens. O segundo da escada, encostado ao mais velho. Desespero total da irmã, e de todos.  Quando a notícia se espalhou foi um alvoroço na pequena e assustadiça, supersticiosa São Tomé, de repente todo mundo tava sabendo: “o filho de “Seuenedino” sumiu, assim que apagou-se a luz ele desapareceu como por encanto”, era o boato repetido. Enquanto nossa irmã, desesperada, chorando, de lamparina na mão saía batendo de casa em casa perguntando por Naldo, surgiam os boatos mais absurdos, porém, para nós, meninos, naquela época, era quase como verdade absoluta. Uma noite de horror, nosso irmão estava perdido, levado, Deus sabe para onde, pelas forças do além…

“Ele foi  levado pelo papa-figo”, outro chegava a afirmar que vira o menino caminhando na direção do “Fogo do Batatão” que, segundo a lenda, tratava-se de uma  fogueira acesa no mato, à distância, e que atraía as pessoas e a levavam pro inferno ou sei lá pra onde. Um outro  grupo jurava que era coisa da mula sem cabeça ou bicho-papão, lobisomem. E cada um que chegava narrava uma desgraça dessa para aumentar nossa agonia. “Ele tinha muito medo de ‘Barba-Azul’, acho que foi ele que carregou o menino, tem que ir procurar aquele doido, ele tem que dar conta dele”, aconselhava o vizinho, que chegava esbaforido chamando nossa atenção.

“Barba-Azul” – barbudo, mal vestido, sujo, cara assustadora – era desses pobres desmiolados, comuns nas cidades interioranas, vivia nas ruas, de favores, abandonado pelos familiares que, sem motivo comprovado, a criançada morria de medo e tremia à sua aparição. No caso específico de nosso irmão, queria ver ele arrepiar carreira onde estivesse, alguém gritasse “lá vem Barba-Azul!”. Ninguém via  mais nem sinal dele, que entrava em casa correndo como se estivesse visto assombração. Certa vez, no mercado público, o maluco barbudo foi passando e Naldo, agarrado à perna de nosso pai, ia rodando no sentido contrário da direção que o pobre homem vinha. Com a cara enterrada na calça sem levantar a vista, e só não abriu em desabalada carreira, como sempre fazia,  porque não deu tempo, mas não soltou as pernas de “Seuenedino”.

Bom, madrugada longa. O desespero toma conta de todo mundo. Nossas irmãs, as outras três incluídas na busca desesperada, a mãe, dona Toinha, primos, tios e tias, todos os parentes e amigos na agonia da procura pelo desaparecido, além de quase a cidade inteira. Depois de muitas idas e vindas, muito choro, desespero, nosso pai parou, tirou do bolso a chave das portas do cinema, olhou demoradamente, e, de estalo, saiu andando em passos apressados, e nós, claro,  atrás. tentando acompanhá-lo. Ele quase corria na direção do prédio do cinema. “Seuenedino”  lá chegando abriu a porta principal, precisou acender as luzes, pois ainda não era dia claro completo. Num canto, em um dos bancos – a platéia tinha que sentar em bancos de igrejas, que formavam duas filas, uma de cada lado do salão e o meio livre para andar, como na igreja- com a cabeça encostada na parede, babando pelos cantos da boca, Naldo dormia a sono solto, o sono dos justos. Foi acordado aos sopapos, gritos de revolta e alívio de todos.

O pobre quase desmaiou de susto, cada um que lhe passasse, como se tivessem direito, uma descompostura pelo deslize da soneca,  piorou quando ficou sabendo de toda a celeuma que provocou. Coitado, além de tudo, assim que chegou em casa, inda levou uma  surra da famosa “tira de sola”. Nem precisa dizer que, de vergonha, e castigo, Naldo passou um bom tempo sem ir ao cinema, sem poder ver seu heróis preferido, o Tarzan dos macacos ou os mocinhos dos faroestes, pois, bom cavaleiro e de porte físico atlético, era bom imitador dos dois estilos.

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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