OPINIÃO

Nosso país está doente

Acordei por volta das 7h30 nesse sábado, com o barulho de tiros e gritos de mulher, vindos do prédio ao lado do meu, em Águas Claras, no Distrito Federal. Quando olhei pela janela, havia polícia por todos os lugares, na rua, fechando o quarteirão. Fiquei assustada e a primeira reação foi trancar a porta. Os tiros pararam e ouvi os gemidos de dor de um homem. Gritos confusos, correria. Chegou uma ambulância, os bombeiros, o Bope. Perguntei se minha vizinha de baixo sabia de alguma coisa, porque ela também estava na janela, tentando entender o que acontecia. As primeiras informações eram de que um policial havia atirado na mulher e depois se jogado pela janela do segundo andar.

Rapidamente me lembrei que uma amiga minha morava no prédio ao lado, exatamente no segundo andar. Fiquei ainda mais preocupada e resolvi descer pra tentar entender. Foi a hora em que vi minha amiga, ajudando uma outra mulher, a vítima, que conversava com os policiais. Também foi o momento em que ouvi os mais terríveis comentários e pré-julgamentos, dos quais se sobressai o usual “isso é falta de Deus”. Mais tarde eu saberia, pela minha amiga, os detalhes de toda a tensão daquela tragédia, que poderia ter sido mais um caso de feminicídio, no dia seguinte ao 8 de março. O policial havia surtado, saiu atirando a esmo pelas escadas do prédio. Não atingiu ninguém, mas pulou da janela do segundo andar. Os familiares dele e da moça estavam lá.

Mas foi depois que conversei com a minha amiga que passei a ver o que aconteceu de uma forma ainda mais profunda. Aquilo tudo me levou a refletir como o país está doente, e como não temos estrutura ou capacidade nenhuma pra lidar com essas doenças nossas de cada dia. Poderia ser mais um caso de feminicídio, quase foi mesmo isso, mas muito além disso está a violência que nos adoece e torna todos nós passíveis de sermos vítimas ou mesmo de surtarmos assim.

“Isso nunca aconteceria comigo. Eu me cuido.” – ledo engano. A verdade é que ninguém está livre e precisamos sim de tratar da mente, sempre, e quisera que nesse país houvesse tantas instituições preparadas para cuidar da mente, tantos centros de apoio realmente equipados para atendimento psicológico de qualidade a todos os cidadãos, quantas academias que existem em cada esquina pra cuidar do corpo. E não é de eletrochoque que estou falando. O país precisa é de um divã. De lugar pra falar das dores, sem medo, tabu ou pré-julgamentos. De gente que ouve e trata, com o adequado cuidado, dessas dores.E essas dores podem existir mesmo com Deus. E quando elas te dominam, não é o diabo se manifestando. É a doença.

Esse cara teve um surto. Trabalhava há dez anos numa polícia totalmente despreparada para dar o necessário apoio psicológico constante, a mesma polícia despreparada que não soube como lidar com o surto psicótico, algo que realmente acho que ninguém nunca está totalmente preparado ou tem conhecimento prévio de como agir diante de tal situação, ainda que seja um fato que volta e meia se repete. Não estou aqui defendendo o cara, que mesmo que não tenha atingido ninguém de fato, espalhou medo e poderia mesmo ter ferido ou matado alguém. Mas acho que há ainda mais traumas, problemas, feridas e violências que precisamos dar um basta aqui.

E, no entanto, o atual governo representa, pra mim, ainda mais risco de tudo isso só aumentar. Poderia ser mais um caso de feminicídio e é mais um caso de uma mulher que até ontem tinha ao lado dela um cara que tratava o filho dela como se dele fosse, segundo ela mesma relatou aos policiais, transtornada, sem chão, logo após o ocorrido, custando a acreditar que ele tivesse feito tudo aquilo, que,  como ela disse pra minha amiga “você sabe, ele não é assim; nunca fez isso, tava surtado”…  Ele acabou morrendo a caminho do hospital…

Me envergonho de meus pré julgamentos, mas gosto muito de poder analisar as coisas até o mais profundo e, se isso me fizer mudar de ideia, não me envergonho nenhum pouco de admitir que estava errada. Não sei se vou me fazer entender direito com esse relato, mas era só pra dizer que sim, tô preocupada com o rumo desse mundo, da nossa sociedade doente, e dessa nossa pátria que tem sido subtraída, em tenebrosas transações… Que tenhamos força para resistir e existir, mesmo diante do caos…

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