OPINIÃO

Nostalgias

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Um leitor dá a letra: você é condescendente com Neymar. Sou? Não sei — o leitor que saiba por mim, completando o lance que eu inicio. Não é isto a escrita? Entre a bola que lanço e a que ele domina infiltram-se sentidos que dizem mais do ouvido dele do que da minha cacofonia, ensina o manual que eu nunca li.
Sei, porém, que a demonização sistemática do atacante tem o germe da intolerância com o diferente, que explica os bodes destes e de outros dias. Negamos o gênio do craque porque, retrancados na moral de circunstância, deploramos seus modos midiáticos, seus euros humilhantes, suas lambretas no bom mocismo. Somos uns pelés da mesmice, ofendidos pelo talento e o sucesso alheios.

Atribuímos a outros gênios — passados e presentes — padrões de humildade e ética que não têm, mas sabem fazer parecer que sim. Cotoveladas, carrinhos de rachar, dedadas, cusparadas, quedas cenográficas e mimimi também estão no repertório deles, de par com dribles, trivelas, voleios, chilenas, passes de 40 metros — e com a arte da hipocrisia, para que não aspeemos aqueles dois substantivos abstratos ali atrás. Comparar é o nosso modo de parar Neymar e de validar o rebaixamento.

O que digo são firulas do leitor-eu, que escreve por entrelinhas tortas. O leitor-ele despreza sutilezas analíticas. Joga o jogo de choque, típico dos volantes cuja ciência é tentar desarmar pela imposição, não pela habilidade para decifrar e, antecipando-se, interceptar o lance sem sujar o calção ou aterrar o adversário. A aversão a Neymar decorre dessa estratégia que anseia ser tomada por estilo.

O reclamante é leitor incomum. Além de ler, escreve sazonalmente sobre o ludopédio, em prosa que procura a poesia com o mesmo desespero do beque que, ao tomar uma caneta, tenta agarrar a sombra do driblador. E que padece de outra doença infantil do estilo: apelar à nostalgia, um terreno tão cediço quanto o patriotismo de chuteiras ou os conformes do politicamente correto.

O saudosismo é só uma forma imbecilizante de negar a vida e a história. O passado só é melhor na carteira de identidade. Lá, somos sempre mais jovens, a divisão do tempo não existe, o presente é o futuro em permanente construção. Sentimos saudades do sunguelo que éramos, não exatamente dos craques, escretes e jogos que ele testemunhou.

Outra babaquice da nostalgia é arregaçar com o escrete do professor Adenor, contrapondo-o a times de outras épocas. Como se o jogo fosse estanque e o que era eficiente em 1958 devesse continuar imutável seis décadas depois. Nosso adversário de hoje é um exemplo dessa fraude intelectual.

Três décadas atrás, enfrentaríamos um onze muito melhor que os parrudos da Sérvia, uma seleção cujo destaque é a média de altura (1,85m) dos jogadores, a maior no Matutão da Fifa. Mas, como a história não vive de nostalgia e o ludopédio não é imune à geopolítica, a fragmentação da Iugoslávia rebaixou os sérvios ao terceiro escalão do futebol europeu. Dos seis países resultantes da implosão, coube à Croácia o melhor pé-de-bola, responsável pela construção da legenda de “Brasil da Europa” — uma justa alusão ao trato diferenciado dos iugoslavos na pelota.

O que pode ajudar a Sérvia é que o escrete claudica na dependência do gênio baleado e do vir-a-ser chamado Coutinho, que tem toda a classe mas não tem ainda o fôlego necessário para passar de meio-campista a “todo-campista”, tornando-se assim o Kroos que falta para reger o escrete. Essa metamorfose (tão discreta quanto o próprio Coutinho) é, até aqui, a melhor sacada do professor Adenor para fazer o Brasil mais brasileiro. Com a bilionária contribuição do gênio que amamos odiar. Se os dois craques quiserem e Marcelo ajudar, ganhamos: 3 a 0.

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Jornalista e Poeta

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