CIDADANIA

Notificações de automutilação e suicídio aumentaram quase 500% em 4 anos no RN

O número de notificações de violência autoprovocada passou de 227 casos em 2014 para 1.093 em 2018, um aumento de quase 500% no comparativo entre os últimos quatro anos.Entende-se por violência autoprovocada a automutilação e o suicídio. O salto não significa, necessariamente, que há mais casos de autoagressão acontecendo no Estado. Essa realidade mostra que os profissionais da saúde passaram a ter conhecimento de mais vítimas e, em razão disso, vêm tomando providência para que a rede psicossocial seja acionada com propósito de acolher o paciente.

De acordo com a secretaria de Estado de Saúde Pública, a notificação dos registros de casos de automutilação ou tentativas de suicídio tem sido um fator de prevenção à violência autoprovocada.

Segundo  dados repassados para a agência Saiba Mais pela Sesap, a faixa etária que vem apresentado maior risco de casos de violência autoprovocada é de jovens 20 a 29 anos, com 31,9% dos casos. Em segundo, pessoa de 30 a 39 anos, com 26,6% dos casos. Adolescentes entre 15 a 19 anos estão na terceira faixa etária que apresentam índices altos de autolesão, 19,43%. Casos de pessoas entre 40 e 49 anos representam 16,15% dos casos. Por último, pessoas entre 50 a 59 anos.

A Sesap-RN também informou que os principais fatores psicossociais que causam violência autoprovocadas são angústia, uso de drogas, transtorno mentais e crise psiquiátrica. Por isso, a pasta tem incentivado políticas de planejamento para proteção de pessoas com vulnerabilidade mental.

A reportagem conversou com duas pacientes que aceitaram conversar sob a condição de anonimato. A universitária S., de 27 anos, teve uma adolescência incomum, usando agasalhos sempre que saia de casa. A roupa e o isolamento dos grupos na escola eram algo que chamava atenção de outros alunos. A estudante disse que era vista como “a estranha” e não participava de vários eventos sociais e esportivos da escola. O real motivo por trás da roupa dela e o comportamento era um fator ainda mais grave: autolesões que ela mesma provocou no próprio corpo.

“Comecei com um arranhão simples e superficial, feito com minha unha. Mas depois, a vontade foi aumentando e eu cheguei a fazer meu primeiro corte, daí em diante, entrei no círculo vicioso da mutilação”, conta S., que diz ter necessidade de falar do assunto para incentivar outras pessoas não fazerem o mesmo.

Segundo relata, foi a partir daí que objetos viraram armas em suas mãos. Lâmina de barbear, estilete e até isqueiro eram usados pela universitária como forma de provocar alívio da sua dor mental.

– “No meu caso, eu tinha muitos sentimentos ruins, principalmente muita raiva. E eu fazia cortes no corpo, arrancava o cabelo. Minha única intenção era diminuir as minhas frustrações que começaram quando eu me senti culpada pela separação dos meus pais. Mas depois eu voltava a ter raiva por ter me machucado e me autopunia”, explica.

Hoje, a universitária diz que se sente “mais liberta” da doença, mas foi preciso reconhecer que havia uma doença de origem psiquiátrica e buscar as cicatrizes do passado bem escondidas no emocional:

“Fazer terapia foi fundamental”, contou.

Lei de prevenção ao suicídio e à automultilação é esperança

A política nacional de prevenção contra a automutilação e o suicídio vem sendo elogiada por especialistas da área de saúde no país. A avaliação é de que a nova legislação é um avanço na luta contra a violência autoprovocada no Brasil. A lei que instituiu a política foi aprovada pelo Congresso Nacional em março de 2019 e sancionada pela presidência da República.

A lei estabelece que entidade e instituições nas áreas de educação e saúde – como clínicas, hospitais, conselhos tutelares e escolas – tenham a obrigação de notificar a vigilância sanitária sobre casos de suicídio e automutilação. Com esta medida, os casos de lesão autoprovocada poderão ser acompanhados de forma mais próxima pelos profissionais e o auxílio às vítimas poderá ser mais eficaz.

De passagem por Natal para participar de evento na UFRN, o psicólogo Carlos Aragão defendeu medidas de segurança para prevenção ao risco de suicídio e automutilação no Brasil. Ele foi membro da equipe de profissionais de saúde responsável pela CPI de maus tratos contra crianças e adolescentes instalada em 2017 pelo Senado Federal.

“Fatores ambientais, sociais e religiosos podem influenciar no comportamento de pessoas positiva ou negativamente, é por isso que importante a orientação de profissionais de saúde”, explica o psicólogo.

Números

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o 8º país nas Américas em números de suicídios, o que corresponde a 11 mil casos de vítimas por ano, um número que alerta para a gravidade do problema. Já os dados sobre a automutilação ainda estão encobertos pela falta de estudo sobre o problema e tabus sociais.

“Pedir ajuda é um sinal de sabedoria”, defende psicólogo

Psicólogo Carlos Aragão afirma que dados de suicídio são subnotificados

O psicólogo Carlos Aragão relata que a experiência de acompanhar o luto de três mães de filhos que tiraram a própria vida o motivou a estudar métodos de prevenção aos suicídios, além do manejo em automutilação.

Segundo ele, a complexidade da narrativa de fatos como a dessas mães, atendidas em consultórios, é um alerta para o sofrimento e dor que está presente nos episódios de violência autoprovocada. Esse tipo de violência tem se revelado um grave problema de saúde pública em todo país, já que alia aspectos sociais e de saúde.

A tentativa de suicídio está inserida na definição de violências autoprovocadas, assim como a automutilação (autolesão causada ao corpo sem intuito de pôr o fim a vida). E essas, segundo o especialista, são um pano de fundo para um sofrimento ainda mais grave.

“Existem várias formas de se mutilar: morder, queimar, cortar, arranhar e outras. Mas todas têm um intuito de aliviar um dor emocional ou angústia que não consegue lidar”, afirma o psicólogo.

A dor que está no aspecto psicológico e na alma de quem sofre é algo que acaba se concretizando através da violência autoprovocada, que ao contrário do que muitas pessoas pensam, não tem intuito de chamar atenção, mas sim de aliviar uma dor emocional muito grande.

“Não saber lidar com a dor quando ela emerge é o que faz pessoas a se automutilarem ou a tentar deixar a própria vida”, explica Carlos Aragão, que também foi o primeiro brasileiro membro da Internacional Society for Study of Self-enjury (ISSS), organização mundial de estudos na área de automutilação.

De acordo com especialista, os dados sobre a automutilação no Brasil ainda estão encobertos pela falta de registros sobre o problema e tabus sociais. E precisam entrar em pauta para que haja assistência na solução dos questões de cada pessoa que carece da atenção.

Para o ex-membro da CPI dos maus tratos no Senado Federal, o ideal é todas as pessoas tenham consciência da notificar e procurar ajuda diante de um episódio como de violência autoprovocada.

“Caso seja você mesmo, rompa a barreira, não é fracasso pedir ajuda. Pelo contrário, pedir ajuda é um sinal de sabedoria, é uma proteção contra comportamentos autodestrutivos”, disse.

 

 

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