OPINIÃO

nu.

Eveline Sin escreve às quartas-feiras na agência Saiba Mais

um corpo persegue o mundo. cabeça, tronco, membros. complexo de tecidos vivos. um limite indomável que dilacera o real. carregado de jeitos desde a barriga. desde que era um dentro de outro. carregado de feitos. um corpo promete e cumpre. crescem dedos, pernas, calos. crescem caminhos. esconde asas. vestígios. dia a dia segue seu movimento particular. íntimo. erguer e se lançar. num mar por todos os lados. um corpo é terra a vista. uma pequena terra só nossa, tantas vezes perseguida. invadida. como se, por ser carne, devesse ser abatida. um corpo alcança galáxias. a pedra de um rio. o bico de um pássaro. o instante. sente a lama. sente a grama. sente a lança. e tantas vezes segue vazio, como a falta de uma irmã que não nasceu.

é cobrado a perfeição. vive exausto. caído. entregue aos pés da arte. que deseja. rasteja preciso e deita-se nu em busca de sentido. até ser um corpo vivo de novo como o dia em que nasceu. como o dia em que sentiu pela primeira vez as pernas de sua mãe. grita. só quer ser pele. mostrar-se tal e qual. sem risos. sem vergonha. sem batismo. mergulhar em sua própria água e percorrer distâncias. sem abismos. avistar o fogo e vestir-se dele. cada centímetro do corpo é dominado por um bicho. que sente a presa. que sente o medo. a fome. ternura. seu dente. e quando a mão reconhece seu próprio corpo? é crime. sentir é punição. o prazer é inafiançável. quando a mão reconhece seu próprio corpo alcança delírios. um corpo entra feito silêncio.

você

esquentou

aqui dentro

das minhas

roupas

de pele

o corpo é nosso grande livro. de geografia única. o corpo é uma nuvem com o desenho da revolução. não se acovarda diante da mediocridade. segue vivo. pesando nas costas dos ignorantes. pronto para criar história. no movimento. no cheiro. no pelo. o corpo é nossa bandeira. feito folha de bananeira no vento da curva do mapa. um corpo é a própria curva riscando a sem sentido linha reta. é camadas e camadas de frustrações. e todos os dias dá adeus ao corpo de ontem. derrete-se em devaneios. carrega nossas memórias. é preciso lembrar que o corpo é nossas portas e janelas abertas pra enxergar a beleza. mudo. o corpo é onde descansamos da vida. e na senilidade do tempo volta a ser nu. pois por não entenderem a suficiência da pele, nos deram o que vestir. mas um corpo só quer ser corpo. e é. nu.

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Eveline Sin é artista, poeta e grafiteira. Escreve às quartas-feiras.

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