OPINIÃO

O 15 de maio de 2019: o esclarecimento e seu poder civilizatório

Foto: Aparecida Fernandes

Dentre os vários cartazes criativos e indignados da manifestação do 15 de maio “Contra os cortes e em defesa da Educação”, em Natal, particularmente, este me chamou a atenção. Ele carrega a ironia ao substantivo usado em larga escala com função adjetiva para descrever o presidente Jair Bolsonaro, desde a campanha presidencial de 2018. O termo “mito”, propalado pelos simpatizantes do presidente, foi ganhando força em meio às suas declarações estapafúrdias, de teor criminoso (como as apologias a tratar adversários à bala), de caráter racista, homofóbico, misógino. Essa caracterização decorrente desse discurso se configura uma total distorção do sentido dessa palavra. Afinal, o que é o mito?

Segundo o Dicionário de Sociologia, de Allan G. Johnson, “o mito é uma história sobre experiências humanas envolvendo o SAGRADO”. Usado para explicar experiências e fenômenos não elucidados pela ciência, assim como para referendar heróis e seus grandes feitos na formação de cidades-estado, o mito também serve como base para perpetuar arranjos de uma sociedade inteira ou afirmar, “de uma maneira ritualística o senso comum do ‘de onde viemos e como chegamos até aqui.” Em suma, o mito, em sua acepção filosófica, referenda os grandes feitos de homens e de povos, sem a sustentação da racionalidade. Em função disso, a língua, na sua dinamicidade, por analogia, criou o sentido do falso, do mentiroso para designar o caráter de ações, de pessoas, de fatos que são avessos à verdade.

Então, embora pensadores como Adorno e Horkheimer analisem que o esclarecimento que foi se construindo desde o Iluminismo não cumpriu seu intento civilizatório, mas ao contrário, concentrado nas mãos de pequenos grupos de interesse, legitimou também a barbárie – a exemplo do holocausto, das guerras, da exploração do homem, dos preconceitos, etc. – temos de convir que a sociedade continua a perseguir esse projeto de superação da barbárie por meio do conhecimento. E nossa história tem mostrado que esse projeto continua válido, se observamos os países mais desenvolvidos. Também quando observamos os não desenvolvidos. Tanto que, quanto menos esclarecida e comprometida com um projeto coletivo a elite de uma nação, mais a barbárie ganha terreno e mais se ataca a educação.

O staff governamental, liderado por Jair Bolsonaro, é a síntese dessa elite. O “mito” que incorpora não é aquele fundante, sobre o qual erigimos perspectivas de vida e que nos leva a lidar melhor com a racionalidade e lutar por ela.O governo Bolsonaro é a mentira encarnada, a falsidade, o obscurantismo que combate o esclarecimento, que se recusa a abrir-se à civilidade.

As manifestações do dia 15 de maio mobilizaram milhares de pessoas em quase todas as cidades brasileiras, em defesa da Educação, contra o sequestro de 30% do orçamento da educação pública federal e da educação básica, já aprovados em 2018 e já contingenciados. No Rio Grande do Norte, por exemplo, o elefante mostrou que não vai deixar arrancar suas presas de marfim para venderem a qualquer preço. O elefante pisou forte. Só na capital, foram quase cem mil pessoas.

Os potiguares e milhares de pessoas Brasil afora estão dando o recado: preferem as batalhas que somem rumo ao esclarecimento, à cultura, ao processo civilizatório.

Se esse governo não tiver um lampejo sequer de inteligência e reverta o bloqueio do orçamento, o processo social que se desenha é o da mudança. E nessa perspectiva, será a EDUCAÇÃO, pois, que vai derrubar o mito.

 

 

 

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