OPINIÃO

O açoite de Joana

Caro leitor, cara leitora, pare alguns segundos e imagine aqui comigo: como seria levar uma chicotada nas costas? Pense em apenas uma açoitada, o estalar do chicote no seu dorso nu. Conseguiu imaginar? Agora some mais 99 açoites seguidos e tente imaginar de novo.

Pois a escrava Joana recebeu 100 açoites por ordem de Antônio Felix de Mendonça, “juiz de paz” (vejam só que paz…). O ano era 1832 e Joana era escrava do administrador do Correio desta eterna província norte-rio-grandense, João Damasceno e Albuquerque. A mulher foi denunciada às autoridades pelo “distinto senhor” José Joaquim de Castro por supostamente ter batido em seu filho, dado uma “bofetada” como registra o mandado de prisão publicado na edição de nº 22 do jornal O Natalense, em dezembro de 1832.

O mandado só foi tornado público pelo “juiz de paz” por conta de uma reclamação que edições anteriores do jornal trouxeram a respeito do procedimento para a prisão de Joana na casa de João Damasceno. Segundo o relato do juiz Antônio Felix, a casa do proprietário de Joana foi cercada pela força policial para o cumprimento da ordem. “Eu estou suspirando que se cumpra esta Lei n’esta Província”, escreveu o juiz.

A ordem de Mendonça, assinada pelo tabelião público José Bonato de Paiva, foi de prender Joana e recolher a escrava para o “calabouço” da cadeia de Natal, onde os 100 açoites seriam aplicados. A pena de açoite, vale lembrar, só seria abolida oficialmente no Brasil em 15 de outubro de 1886.

Esta curta história, registrada no jornal O Natalense, em dezembro de 1832, de certa forma vai de encontro a um dos mitos que cercam a história potiguar, que é a da escravidão “soft”, da boa convivência entre senhores e escravos em terras de Poty, situação tal que faz com que você, caro leitor ou leitora, tenha pouco ouvido falar sobre a presença negra no RN até hoje. A história de Joana é mais uma que se perdeu no tempo, guardada em poucos registros de carcomidos jornais guardados na Biblioteca Nacional, mas ainda assim é mais uma luz que se acende para mostrar que o povo preto potiguar esteve e ainda está por aqui.

O calabouço onde Joana foi açoitada não existe mais. O prédio da antiga Casa de Câmara e Cadeia da capital, que foi derrubado no início do século passado, ficava nos arredores do que hoje é a Praça André de Albuquerque, na Cidade Alta. Então, caro leitor e cara leitora, encerro 2018 com um pedido a você: cada vez que passar pela região tente lembrar que ali também está a história de Joana e dos seus 100 açoites.

Nos encontramos em 2019.

Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *