OPINIÃO

O amor das 18h

O chão das 18h é disputado por carros, ônibus, motos. Tudo recheado de gente. Cabe o mundo todo no chão das 18h. Por isso o meu assombro quando os vi ali, espremidos entre os muros, equilibrando cadernos e livros, entregues ao quereres. Quase camuflados no cinzento da cidade. Um arrojado ponto de calor no mormaço. Dois danados.

Vivo um tanto desse amor. Sinto-me parte. Pelo menos de segunda a sexta. Tornou-se um desafogo para as horas no trânsito. Quando não os vejo, imagino as piores coisas. Teriam acabado? Fantasio brigas, escândalos. Ou pior? Será que era só um caso fortuito? Um afago qualquer? Preciso continuar acreditando. Moldei o amor deles a meu gosto.

Sim, torço por eles, reparo na evolução dos carinhos. E principalmente nos sorrisos. Já vi gargalhadas e risadinhas minguadas, mas não houve um dia sequer sem risos. Parece que os dias alegres têm sido muitos. Também me alegro quando os vejo. Sofro da mesma ânsia: chegar logo o fim de tarde. Respirar entre os suspiros da cidade.

Certa vez, tentei captar algum ruído. Saber sobre o que conversavam. Nossos olhares se cruzaram. Logo baixei a cabeça. Não posso ultrapassar a linha que nos separa, o que me torna uma mera desconhecida. Não posso abrir mão da distância, é ela que nos mantém unidos afinal. Eu cá, eles juntos.

Mas, esses dias, quase não os vi. Cheguei a avistar um deles de relance. Não tenho certeza. É estranho, não reconheço a peça fora do todo que formam. Tá faltando a quentura, as escapulidas. Foi quase uma semana de escassez até que os reencontrei. Dessa vez não vestiam uniformes, não carregavam mochilas enormes. Estavam leves.

Se pudesse ouvir o converseiro, saberia que as férias eram o assunto. O tempo cuida de me alertar: já é dezembro. De meu nem tão confortável lugar de observadora, penso o que é feito dos amores colegiais nas férias? Espero que resistam e permaneçam leves e calorosos a cada novo ciclo de vida. E que pisem outro chão, mais sereno que o chão das 18h.

 

 

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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