OPINIÃO

O amor nos tempos do coronavírus

Peço perdão a leitores e leitoras pelo título quase clichê, que possivelmente já foi usado por muita gente boa, desde que começou esse período de confinamento e pandemia, há cerca de um mês e meio. Mas, às vezes o clichê se torna aceitável e até necessário, da mesma maneira que muito do conteúdo deste texto será de clichês, já que tratarei do que muita gente ou quase todo mundo está dizendo, falando, escrevendo e sentindo.

Estamos todos, ou quase todos, ou pelo menos deveríamos estar, em Isolamento Social (aka Confinamento) de maneira a não propagar o Coronavírus e também não deixar que o sistema de Saúde Pública entre em colapso, permitindo que os casos graves tenham o devido cuidado e menos gente venha a óbito. Contudo, o necessário isolamento vem mexendo com todo mundo, e também alterando ou repaginando nossa sensações e impressões a respeito do amor e tudo que o circunda.

Comecemos pelos casais cuja dinâmica vem sendo brutalmente alterada pelo isolamento. Alguns casais que moram à distância um do outro, cumprem quarentena em bairros distantes ou cidades diferentes e devido a diversas circunstâncias (familiares idosos, grupo de risco, operacionalidade) e estão há um mês ou mais sem se verem presencialmente. Menos mal que existe internet, chamadas de vídeo, etc. Mas, todo distanciamento físico tem suas consequências.

Curiosamente, situação não menos delicada é a dos casais justamente que estão juntos em confinamento, tendo de viver 24h um com outro. Não parece nada de mais, a uma vista apressada. Mas, se registramos que boa parte dos casais pouco se vê durante o dia (trabalhos, reuniões, compromissos sociais, cuidar ou deixar filhos etc) a convivência forçada e diuturna (em muitos casos, inédita) pode estar também afetando as relações.

Existe ainda a classe dos solteiros e descompromissados, que, de repente, viram o cenário de liberdade, rolés e flertes ir para o espaço (isto é, para o espaço reduzido do isolamento social em casa). Flertes virtuais são possíveis? Claro, mas a impossibilidade (ou risco) de concretizar o encontro e mesmo de não haver condições sociais públicas para isso atualmente, possivelmente está afetando mesmo as chamadas paqueras virtuais.

E quanto ao amor, palavra que inicia o título deste texto e que é o mote do romance de Gabriel Garcia Marquez que estas mal traçadas linhas parafraseiam? Muita gente vem se perguntando como sairemos deste período de pandemia e de isolamento, e o questionamento também abrange o amor, tanto envolvendo relações interpessoais quanto em sentido mais amplo. Sairemos melhores disto tudo, mais capazes de amar ao próximo, como pregava aquele certo carpinteiro judeu cujo nome é tão usado em vão pelos que fazem arminha com as mãos? Ou sairemos menos capazes de amar, mais individualistas e ensimesmados em nossos medos e neuras a partir de agora?

Como uma escritora perguntou dia desses nas redes: Passando tudo isso seremos capazes ainda de abraçar nossos amigos? Trocar beijos com eles? Talvez o temor fale mais alto e vivamos a partir de então como naqueles filmes de ficção científica dos anos 1970 na qual as pessoas “do futuro” (ou seja, hoje) mal se trocam e se falam, numa espécie de assepsia emocional (na verdade Aldous Huxley e Ray Bradbury previram/enfocaram isso em “Admirável Mundo novo” e “Fahrenheit 451”, respectivamente.

Passado esse período, após a triste conta dos óbitos e a luta pela retomada da Economia global, o desafio será voltar a uma “normalidade” que tínhamos antes dessa pandemia, ou seja, há menos de dois meses atrás (mas que parece anos já) e dentro dessa volta à normalidade. q questão do amor, ou seja, do afeto entre as pessoas, terá um papel fundamental. E ainda imprevisível.

Voltando ao “O amor nos tempos do cólera”, o sentimento entre Florentino Ariza e Fermina Daza sobreviveu a décadas de separação, casamentos, revoluções. Mas, eram tempos pré-internet, ou, para citar outro gênio, Bauman, não eram “tempos líquidos”. Nestes tempos – líquidos e de vírus letal pelo ar – o amor poderá ganhar novas formatações. E ainda sobreviver, claro, os românticos sempre defenderão que o amor resiste a tudo, peste, guerras, desastres. Tomara.

 

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo