OPINIÃO

O ano dos avestruzes

O historiador Durval Muniz escreve aos domingos na agência Saiba Mais

             Há um mito popular segundo o qual o avestruz, uma ave proveniente das áreas desérticas da África, ao se ver ameaçado enfia a cabeça na areia, de onde surgiu a expressão “comportamento de avestruz”, que seria o de tentar não ver, não saber ou não conhecer alguma coisa que incomoda, ameaça, desagrada ou desmente a uma dada pessoa. O ano que está acabando, 2017, foi para os promotores do golpe jurídico-midiático-parlamentar de 2016, para seus apoiadores entusiastas, para os amarelinhos, coxinhas, antipetistas, para os militantes da direita, um ano marcado pelo “comportamento de avestruz”. Foi preciso muito esforço, foi preciso enterrar a cabeça muito fundo na areia, para não conseguir ver, não conseguir saber, não conseguir compreender o tamanho do desastre e do retrocesso econômico, social, político e até cultural que o golpe do impeachment sem base jurídica trouxe para o país. À medida que o desastre se amplia e se desmascara, à medida que o tempo passa sem que as maravilhas que iriam acontecer assim que a presidenta legalmente eleita fosse apeada do poder por um Congresso em que mais da metade de seus componentes respondem a processos na justiça, fica cada vez mais difícil culpar o antigo governo pela situação do país. Contraditoriamente, o governo de salvação nacional está destruindo o país, enquanto as suas vivandeiras continuam tentando culpar o governo anterior pelo descalabro administrativo em que vemos o país mergulhar.

O ano de 2017 foi o ano da pós-verdade, os fatos objetivos passaram a importar menos do que as crenças e desejos pessoais. A distorção dos fatos e o desconhecimento vendido como verdade e como conhecimento se expandiu nas redes sociais como “nunca antes nesse país”. À medida que a população, inclusive parcela da classe média, se dava conta do engodo midiático e global em que haviam caído, o Partido dos Trabalhadores, cujo fim havia sido anunciado (e para o qual a mídia, a operação Lava Jato trabalhou com afinco), passou a ganhar uma média de mil novos filiados por mês. Terminamos o ano com o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, disparado na dianteira de qualquer pesquisa eleitoral que se faça (apesar de toda campanha de difamação diária encetada pela imprensa e da perseguição judicial sem tréguas que vem sofrendo). Diante disso, a direita passou a disputar com os avestruzes quem enfia mais a cabeça na areia, quem mais finge que não vê o que está vendo, passando a deturpar todos os fatos, tentando, de toda forma, ver um país que não existe, vivendo de miragens de futuro sem qualquer base real. O prometido crescimento econômico do pós-golpe, prometido pelo Ministro da Fazenda dos bancos internacionais, resultou em dois anos seguidos de recessão, agravada pela aplicação de uma política econômica neoliberal, que já fracassou e enterrou a economia de vários países. Enquanto a ascensão de um governo de esquerda, com o abandono da política de ajuste neoliberal, a adoção de uma política econômica contracíclica e desenvolvimentista retirou Portugal (um dos países mais débeis economicamente e sem recursos naturais) da recessão e fez sua economia crescer 2.5% esse ano, aqui se volta a adotar uma política econômica que só favorece o rentismo, o capital financeiro, a especulação, de que passa a viver grande parte do próprio empresariado industrial e comercial que pouco investem.

Mas no reino da pós-verdade esse desastre já estaria previsto desde 2010, portanto o desastre do governo golpista é culpa do PT. Em que fatos se baseia essa afirmação? Os fatos, isso não importa. Os fatos, o que são os fatos? Mas como sou historiador e não vivo de pós-verdades vamos aos fatos. A escolha do ano de 2010 para marco inicial do desastre golpista, infelizmente, para os avestruzes, não é uma boa escolha. Em 2010, dois anos após o inicio da crise global do capitalismo, em 2008, dois anos após as cassandras da mídia golpista anunciar o caos, dois anos após os comentaristas de economia vinculados aos interesses que hoje desgovernam a economia pregarem a mudança necessária da política econômica desenvolvimentista e contracíclica levada a efeito pelo primeiro governo Dilma Rousseff, o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu 7,5‰, a maior alta em 24 anos. O PIB por habitante ficou em R$ 19.016,00, representando um aumento em relação ao ano anterior de 6,5% (isso mesmo crescimento da renda de 6.5% em um ano). O índice de desemprego em 2010 era de 6,5%, a menor taxa anual em oito anos, aproximando-se do que os economistas consideram o pleno emprego, já que se presume que cerca de 4% da população economicamente ativa, ou seja, aquela que pode trabalhar, que está em idade produtiva, não o faz porque não deseja, porque não precisa (nos anos seguintes essa taxa ia cair ainda mais chegando ao nível do pleno emprego, aconselho, portanto, que os avestruzes tenham cuidado ao escolherem seu marco inicial para o desastre que assistimos).  Terminamos após dois anos do governo de “salvação nacional”, do governo dos limpinhos, dos não corruptos (embora até apartamento cheio de dinheiro tenha se achado) com o desemprego batendo em 13,7%. Em 2010 os índices de pobreza no país recuaram 3,9%, continuando uma tendência que vinha dos dois governos Lula. Ao terminar seus dois mandatos como presidente da República, o presidente Lula havia reduzido em 50% a pobreza no país (isso são dados, encontrados facilmente na internet, se contrariam o desejo de muitos é outro problema. São esses dados que fazem dele um presidente inesquecível, ainda considerado o melhor do país em todas as pesquisas, para desespero dos avestruzes). Enquanto isso, dados oficiais mostram que a pobreza voltou a crescer no país nos últimos dois anos (22 milhões de pessoas voltaram para a miséria segundo dados da Fundação Getúlio Vargas). Peraí, dois anos, que coincidência não? O mesmo período do golpe, os dois anos livres da praga petista (corram para a areia avestruzes e finjam que os pobres que vocês veem reaparecerem nas ruas não são produto do descalabro político e econômico dos últimos dois anos). O salário mínimo continuou sendo beneficiado pela política de valorização implantado no governo Lula, destruída pelo atual governo. O salário mínimo em 2010 foi reajustado em 9,68%, muito acima dos 2% dado para 2018 pelo governo golpista, o menor aumento real de salário (descontada a inflação), desde 1994, no outro grande e glorioso governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, o ídolo dos avestruzes.

Sim, é verdade, é fato, que a situação das finanças públicas vinha se deteriorando desde 2013, com a queda brutal de arrecadação e com a equivocada política de redução de impostos para estimular o consumo, que beneficiou setores da indústria que estiveram justamente na linha de frente do golpe. Mas também é verdade que a presidente Dilma, em seu segundo mandato, tentou rever sua política econômica desenvolvimentista, contracíclica, já pressionada pelo golpismo, o que só aprofundou a crise. As medidas de correção dos rumos da economia que, naquele momento, podiam ter surtido efeito (é preciso lembrar que o presidente Lula em 2008 conseguiu que o país ficasse imune à grave crise internacional) e evitado o que vivemos hoje (um crescimento do PIB que não chegará a 1%) se não tivessem sido sistematicamente sabotadas no Congresso Nacional, notadamente na Câmara dos Deputados, chefiada pelo honestíssimo Eduardo Cunha que, sabemos hoje, recebeu uma fortuna dos empresários para formar uma bancada que impedisse o próximo governo, caso fosse do PT, de governar. Chegaram a aprovar medidas que expandiriam as despesas num momento de redução de recursos. Não se combate recessão com a retirada de investimentos estatais, com a redução de salários, com o desestimulo aos bancos oficiais em investir, com a venda de empresas estratégicas nacionais, com a precarização do trabalho, com a redução do salário mínimo, isso tudo faz parte de uma política deliberada de fragilização da economia brasileira seguindo interesses internacionais (a entrega de uma empresa como a Embraer a uma multinacional diz tudo, embora a areia esteja aí para se enfiar o pescoço). Realmente é um espanto que o governo inepto que chegou ao poder depois do golpe tenha conseguido destruir o país em dois anos, mas isso é um fato, só não vê que não quer, pois sabemos que destruir é muito mais fácil e rápido do que construir. Em dois anos e numa velocidade brutal se destruiu as políticas sociais (desde que assumiu nenhum programa novo foi criado, mas vários foram extintos ou morrem à míngua de recursos, enquanto não falta dinheiro para comprar deputados)

Nessa época de pós-verdades, em que se fala as coisas mais equivocadas com a candura de um sábio, até o autor que escreveu um dos maiores libelos contra as políticas neoliberais e que faz a denúncia das mazelas trazidas pelo domínio do capital financeiro sobre o capital produtivo, Thomas Piketty, se torna argumento para defender o indefensável. Sim, os ricos ganharam muito dinheiro na era petista. Os governos petistas não foram revolucionários, muito pelo contrário, se apoiaram nas mesmas estruturas carcomidas da política brasileira, senão não teriam governado. A conciliação de classe foi a sua marca. A diferença de todos os demais governos foi que não apenas os ricos ficaram mais ricos, mas os pobres melhoraram de vida. A melhoria da renda dos mais pobres foi superior à dos mais ricos. Em 2014, um ano após as primeiras manifestações coxinhas, enquanto a renda dos mais pobres cresceu 6, 2%, a dos mais ricos cresceu 2,1% (foi isso que levou a revolta das elites, acompanhada por uma classe média ignorante que costuma acreditar em tudo que o Jornal Nacional diz). Esses dados são oficiais e mostram uma redução contínua das desigualdades sociais no país. Mesmo no período de 2008 a 2010, com o início da crise econômica internacional, ocorreu uma redução de 0,6 pontos na escala de GINI, que mede a desigualdade social. A redução das diferenças sociais em uma década foi um fato que chamou a atenção do mundo todo (creio que Picketty deve ter ficado sabendo pois ele até veio ao país se inteirar do que estava acontecendo). O presidente Lula passou a ser reconhecido e ter prestígio internacional (a ser o cara) por causa desse feito inédito, por isso recebeu inúmeros títulos de doutor honoris causa em universidades estrangeiras e passou a cobrar por suas palestras para empresários o maior valor possível (por isso é risível achar que ele precisava roubar para comprar um triplex no Guarujá ou um barco de lata em Atibaia). O golpe é resultado dessa inédita mobilidade social que não foi tragada pelas classes médias temerosas (daí o Temer) de perder seus privilégios. O fato dos ricos terem ganho muito dinheiro nos governos petistas e assim mesmo financiado e patrocinado o golpe só mostra o caráter mesquinho e tacanha das elites brasileiras, que só querem para si.

Mas os avestruzes no Brasil não apenas escondem o rosto para não ver, têm muitas certezas a dizer. Segundo eles foi o PT que destruiu a economia nacional. Se essa frase não se sustenta em nenhum dado, em nenhum fato, o que importa, o avestruz acredita nela, até deseja que seja verdade, faz de tudo para não ler nada que a contradiga. A presidente Dilma foi apeada do poder no inicio de 2016. Vamos ver a economia destruída que o governo golpista encontrou. Ao final de 2015, o país tinha acumulado reservas da ordem de 370 milhões de dólares. O pré-sal já produzia, ao final daquele ano, 2 milhões e 746 mil barris por dia (agora está sendo dado de graça às empresas internacionais e à política de compras nacionais destruída). A indústria naval previa a contratação de mais 100 mil trabalhadores em 2016 (agora está completamente destruída e paralisada). Entre 2003 e 2013 houve uma redução de 64% no número de pessoas vivendo na extrema pobreza. Em 2015 o país teve um saldo na balança comercial de 19,681 milhões de dólares. Esse ano teremos o maior saldo da balança comercial em 29 anos, não porque as exportações tenham crescido, mas porque as importações caíram drasticamente e a saída de dólares do país se reduziu com o empobrecimento do país e das pessoas. Esse sim é um dado econômico falso, que só tem valor estatístico, mas na prática beneficia muito poucos, acentuando a desigualdade à medida que favorece os exportadores que conseguem sobreviver a concorrência no mercado global.

Claro, isso são dados, mas o mais importante é como eles refletem na vida das pessoas (por isso o crescimento econômico na era petista não era falso, pergunte a cada pessoa que viveu esses anos como eles impactaram no dia a dia) e, nesse aspecto, por mais que os avestruzes tentem esconder, não dá para negar que a vida das pessoas está muito pior nesses últimos dois anos. Adquirir a casa própria para uma pessoa de baixa renda virou novamente uma quimera (o programa Minha Casa Minha Vida foi drasticamente reduzido e desvirtuado para beneficiar faixas mais altas de renda), milhares de pessoas retornaram para a miséria absoluta (muitas delas por causa da exclusão de mais de 1 milhão de famílias do programa Bolsa Família; que terá seus recursos ainda mais reduzidos ano que vem); os pobres voltarão a ficar banguelos porque o programa Brasil Sorridente acabou; em um mês de vigência a nova legislação trabalhista destruiu 12 mil postos de trabalho (e ela seria a solução para o desemprego, quando, na verdade, é a solução para aumentar ainda mais os lucros dos empresários que apoiaram o golpe para isso, já que, realmente, dinheiro não leva desaforo para casa); os recursos para ciência e tecnologia sumiram (o Edital Universal do CNPq, principal instrumento de financiamento da pesquisa no país não faz nova chamada há dois anos, claro, mais uma coincidência);  o investimento público caiu em 2017 para seu pior patamar em 10 anos, enquanto o prometido investimento privado, do dinheiro que não leva mas faz muito desaforo, não apareceu até agora; em 2018 a redução de investimentos em educação será de 30%, enquanto em 2015, segundo a OCDE, o Brasil era o terceiro país que mais investia em educação (corram para a areia avestruzes, cuidado com o rabo aparecendo!); em 2018 se pretende poupar R$ 166 milhões em saúde (poupar em saúde é ótimo), enquanto em 2015 houve um crescimento de 8,3% nos gastos nessa área. Seria enfadonho ficar enumerando e fazendo comparações, somente avestruzes podem não perceber a diferença, a maioria da população já percebeu, os níveis da aprovação do governo golpista falam por si mesmos.

Eu fico imaginando, se fosse verdade que o avestruz enfia a cabeça na areia, o que ele veria e como ele veria as coisas. Será que adquiriria uma visão surreal, uma visão para além do real ? Creio que não. Para se ter uma visão surreal é preciso, antes de mais nada, dominar minimamente a realidade. Para quem já leu sobre o surrealismo, sobre os artistas surrealistas, sabe que eles possuíam um grande domínio sobre o que seria a realidade de seu tempo e das coisas. Um surrealista não é alguém que fica aquém do real, mas alguém que vai além dele, que visiona algo que as demais pessoas ainda não veem. Creio que o olhar de avestruz está mais para um olhar aquém do que além do real. A forma avestruz de ver é aquela que distorce a realidade não porque deseja voluntariamente fazê-lo (tal como faziam os surrealistas), mas porque não consegue ou não deseja ver a realidade tal como ela é. Sem dúvida que a realidade brasileira desse ano, que felizmente está acabando, tem muito de surreal (ministros flagrados com malas de dinheiro em casa; um presidente denunciado por corrupção duas vezes e salvo por deputados comprados em leilões abertos e às claras; o senador candidato derrotado à presidência flagrado ameaçando de morte uma mula de propina, reintegrado pelo Supremo ao seu mandato; membro do Supremo que é acusado por um juiz de ter recebido uma mala gorda para soltar um corrupto; o juiz paladino no combate à corrupção flagrado em relações escusas com um sócio e que não quer saber de ouvir um depoente que denuncia as armações de suas delações premiadas; cinco estados que não conseguem pagar o salário de seus funcionários chantageados pelo Planalto para receberem recursos e apoiarem a reforma da  previdência; 70% dos ilibados juízes combatentes da corrupção desobedecem a lei recebendo salários acima do teto constitucional, inclusive os defensores da Constituição; a combativa Rede Globo de Televisão, líder da campanha pró-impeachment e de combate à corrupção, desde que seja do PT, flagrada em tenebrosas transações com a FIFA), mas ainda prefiro ver a realidade, mesmo que isso me custe muito caro, mesmo que isso dificulte eu desejar a todos um Feliz Ano Novo. Mas como diz um dos nossos poetas maiores: Amanhã vai ser outro dia! Queiram ou não os avestruzes.

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos