OPINIÃO

O ataque à universidade pública

            O governo Bolsonaro desfechou nessas últimas semanas um verdadeiro ataque às universidades públicas e à educação no país. Redução drástica de verbas de custeio, cortes de bolsas de estudo até mesmo da pós-graduação, desqualificação do ensino nelas ofertado, acusação de que são ineficientes, que não formam adequadamente para mercado de trabalho. Nas redes sociais as hordas bolsonaristas, seus robôs e perfis falsos patrocinados por empresas e grupos de extrema-direita iniciaram verdadeira campanha de desmoralização das universidades, com a postagem de imagens falsas associando às universidades a lugares de degradação moral, onde gente nua anda pelo campus, onde todo mundo se droga, um antro de esquerdistas e comunistas doutrinadores e assediadores. Todas as fantasias perversas saída de cabeças doentias, todas as mentiras que se repetem como se fosse verdades, todos os delírios persecutórios e catastrofistas são utilizados para o ataque às nossas melhores instituições de ensino, aquelas que são responsáveis pela quase totalidade da produção científica no país e pela maior parte das pesquisas em todas as áreas de conhecimento.

            Mas esse ataque que parece despropositado, que parece nascer de um ódio militante contra a inteligência, o conhecimento, contra a racionalidade científica, contra o espírito crítico, imediatamente nomeado de “marxismo cultural”, segundo a conceituação pseudofilosófica do guru da família Bolsonaro, possui, na verdade, motivações bem concretas e racionais. Na raiz desse ataque às universidades públicas está o lobby das empresas privadas da área da educação, das universidades privadas, que têm representação importante nesse governo. Em apenas quatro meses cresceu em mais de 70% o credenciamento de novas instituições de ensino superior privado. A irmã de Paulo Guedes, ministro da Economia, preside a Associação Nacional de Universidades Privadas (Anup) que têm total interesse no esvaziamento e sucateamento das universidades públicas federais. Há muito tempo, o sonho dourado dos empresários da educação é poderem se apropriar de um patrimônio como as universidades federais, com toda sua infraestrutura, com tudo o que resultou do investimento, durante décadas, dos impostos de toda a população brasileira. A inviabilização financeira do funcionamento das universidades atende a intenção de que, dada a precarização completa das condições de trabalho, aqueles que fazem as universidades públicas não mais se oponham à sua privatização. O sucateamento também levaria ao barateamento desse patrimônio que, na atualidade, poucos teriam recursos para adquirir pelo preço justo.

            O ataque às universidades públicas faz parte também de uma estratégia da extrema-direita, em todo mundo, em desqualificar o saber produzido pelas universidades e pela ciência. Os delírios, fantasias e imposturas ideológicas da extrema-direita vê nas universidades, nos saberes aí produzidos, notadamente na área das ciências humanas, um obstáculo e uma ameaça à prevalência de suas teses estapafúrdias, reacionárias e anticivilizatórias. Setores ligados a grupos religiosos obscurantistas, inimigos declarados de dados saberes e teorias desenvolvidas no campo científico, fazem parte dessa cruzada contra o saber universitário. Esses grupos com enorme presença no governo Bolsonaro sempre tiveram no controle do Ministério da Educação e das políticas educacionais um de seus objetivos. A luta que assistimos entre militares e olavistas no interior do Ministério representa a disputa entre setores que querem conferir uma maior racionalidade e adotar um maior pragmatismo na adoção de medidas, e um grupos de fanáticos ideologicamente orientados que buscam destruir a educação nos moldes racionalistas e republicanos definidos na Carta de 1988 e na legislação e políticas que dela adveio. O ressentimento de Olavo de Carvalho em relação às universidades, que rechaça o que ele diz e escreve como qualquer coisa que possa ser levado a sério no campo científico, explica esse ódio à universidade e aos profissionais que aí militam. Esses setores querem calar a universidade, querem desqualificar e desmoralizar essas instituições para com isso fazer o mesmo com o pensamento e os conhecimentos que produzem. Estamos diante de uma luta pela hegemonia em torno do conhecimento e da verdade, não é por mera coincidência que o filósofo e militante político Antônio Gramsci tem sido tão lembrado por esses detratores do saber acadêmico. O antiacademicismo militante mal esconde a tentativa de hegemonizar a opinião pública, de formar, com as teses da extrema-direita, o senso comum, de normalizar formas de pensar presididas por valores que são rechaçados pelo saber universitário.

            Convencidos de que as universidades formam as pessoas para terem senso crítico, o que segundo o presidente Bolsonaro não deveria ser seu objetivo, essas forças reacionárias querem destruir esse enorme patrimônio da nação brasileira, como vêm destruindo e entregando ao capital estrangeiro outros patrimônios. A militarização do ensino, a sua redução a mera formação técnica e para o trabalho, para servir às demandas do mercado, é uma visão pobre da educação, uma visão que retira dela o seu papel de formadora da cidadania e das subjetividades. A proposta da volta do ensino domiciliar mostra bem que o que essas forças odeiam nas universidades é o que elas representam de um projeto universalista de conhecimento e de uso da razão, o que elas representam de um projeto iluminista que visa produzir homens e mulheres preparadas para serem livres à medida que governam a si mesmas através do uso metódico e consciente do juízo. Um governo de gente sem juízo, não pode prezar por instituições que nele se baseiam. A ideia de que os valores e vontades das famílias devem prevalecer na hora da formação das crianças e jovens ataca um dos pilares da vida republicana e democrática: o direito de cada criança e de cada adolescente de ter acesso a diversas formas de ver e pensar o mundo, para fazerem as suas próprias escolhas. As universidades americanas encarnam bem esse projeto republicano de retirada dos jovens do âmbito dos valores domésticos e sua formação em valores nacionais e republicanos. Toda universidade americana pressupõe que os alunos ao nelas ingressar abandonem as sua casa e passem a viver, a morar nos próprios campi, onde vão ser formados nos valores da nação e da República, embora possam cultivar, também aí, seus valores domésticos, como: a crença religiosa das famílias e os rituais e práticas culturais de sua etnia, de seu grupo social, de sua região de origem. A universidade, como o próprio nome diz, vai retirá-los de sua educação e formação particularistas e privadas e vão dar a eles o acesso a uma educação e uma formação universalistas e públicas. As universidades não são locais feitos para referendarem o pensamento, a ideologia e os valores da família ou dos grupos privados de onde advém os alunos, mais sua missão é pôr em discussão e questão esses valores, para que conheçam e possam optar por outro conjunto de valores e formas de pensar. Por isso a universidade é perigosa para esses grupos conservadores que não aceitam ver suas convicções postas em questão.

            Interesses econômicos privatizantes e privatistas e desejo de hegemonia no âmbito da cultura por parte da extrema-direita e de outros grupos conservadores explicam o ataque a universidade pública, a tentativa de inviabilizá-la, de sucateá-la, de desmoralizá-la. O governo Bolsonaro representa, justamente, o encontro desses interesses, que veem nas universidades um obstáculo a seus projetos econômicos e ideológicos, já que elas representam núcleos de racionalidade que se opõem as mais superficiais e estereotipadas das campanhas de abastardamento do saber. As universidades servem de contraponto aos meios de comunicação e às redes sociais onde os interesses do grande capital em se apossar do setor da educação superior no Brasil, um dos poucos grandes países do mundo a manter o ensino superior público e gratuito, vem se somar ao ressentimento crescente dos setores médios da sociedade brasileira ao verem as universidades e o ensino superior, com as oportunidades de ascensão social que eles conferem, serem franqueadas aos setores mais pobres da população. Para esses setores médios a privatização das universidades públicas seria a garantia de que só seus filhos teriam acesso ao ensino superior. Como disse o anterior ministro da Educação, a universidade não deve ser para todos, os filhos dos pobres devem continuar, inclusive na cabeça de nossas elites empresariais, a ter como único destino o de serem trabalhadores braçais, mão-de-obra desqualificada ou qualificada apenas para a realização de dadas tarefas básicas, permitindo assim que lhes sejam pagos baixíssimos salários, aumentando os lucros das empresas. Para que filhos de pobres formados em sociologia e filosofia, sabendo fazer uma análise adequada da realidade social, sendo capazes de diagnosticar a exploração do trabalho e a expropriação do trabalhador que permitem a manutenção da ordem social capitalista? A existência apenas de universidades privadas, comprometidas com a ordem privatista e de exploração do capitalismo é tudo que essa gente sonha. Para essas pessoas a manutenção de um amplo setor de universidades públicas, onde se formam a maioria dos filhos de nossas próprias elites, como um lugar de problematização e questionamento da ordem e da realidade social, feitos a partir de múltiplos ângulos, é inaceitável.

            Existe uma guerra aberta em todo mundo, se utilizando das redes sociais, da internet não devidamente regulamentada e submetidas as mesmas exigências em termos de verificação daquilo que diz e publica, como é o caso do que se faz nas universidades, pela hegemonia em termos culturais. Com a derrota do socialismo real e com o fracasso dos projetos neoliberais, o crescimento da extrema-direita, em todo o mundo, veio acompanhado de uma utilização consertada, planejada, das fragilidades de controle do que se diz e publica na internet, para o estabelecimento de uma guerra cultural contra os pensamentos identificados como de esquerda, atingindo até mesmo valores liberais, identificados como valores civilizacionais trazidos pelo Ocidente. O Brasil não escapa dessa batalha que se trava em termos muito desiguais já que estes setores agem sem qualquer escrúpulo, não obedecem a qualquer protocolo ético, não estão comprometidas com o princípio da busca da verdade, não são premidas a embasar com experimentos, pesquisas, evidências, aquilo que dizem, o que ocorre com as universidades. Os enormes recursos oferecidos pelos meios digitais de manipulação de dados e de imagens, a capacidade que a internet possui de disseminar rapidamente informações que não são checadas, nem vem acompanhadas de provas, a possibilidade do anonimato e da falsidade da agência de discurso, quase impossível nas universidades, fazem com que se possa, como acontece agora, se lançar uma campanha de descrédito, de calúnia, de desqualificação apoiadas em imagens falsificadas e manipuladas, em informações e dados falsos, na pura mentira e desinformação. É preciso urgentemente que as nações discutam formas de controle do que circula nas redes sociais, sem atentar contra o direito da liberdade de expressão e informação, é fundamental que se elaborem legislações e protocolos que incidam sobre o funcionamento das grandes empresas nas redes, que cobrem das empresas que gerenciam as redes sociais a adoção de procedimentos de verificação das informações e imagens que veiculam, é preciso que existam mecanismos mais ágeis de identificação de robôs e perfis falsos na rede, que possam coibir ataques em massa a dadas pessoas, instituições e empresas, que exijam a checagem de todas as informações de qualquer usuário que queira ter um o perfil em dada plataforma. Essas plataformas devem estar submetidas a fiscalização para que não deem acesso ou vendam seus bancos de dados a grupos e partidos políticos, a empresas e a qualquer instituição. E são as universidades que podem contribuir com o desenvolvimento de tecnologias de monitoramento das redes e com a sugestão de leis protocolos para sua regulamentação, daí a tentativa de desmonte do setor público universitário e sua entrega a esses mesmos grupos que buscam se tornarem monopolistas quanto a informação, o pensamento e o conhecimento, que pretendem hegemonizar a cultura em termos globais.

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos

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