OPINIÃO

O baile da escadaria e a face de 2021

Seguindo os costumes e mantendo as tradições, muita gente compartilhou votos de felicidades e mudanças para 2021. Eu também. Mas não acredito que teremos um “Ano Novo”. Baseio essa observação em fatos. São eles que definem a realidade, moldam os processos sociais, revelam a disposição política-cultural das elites e da massa, fixam a continuidade da história. Também podem fecundar e parir mudanças, mas só quando submetidos à ação de forças e ideias orientadas pela consciência e a vontade revolucionárias, o que não é o caso. O fato predominante é que 2021 será o segundo ano da peste, tão difícil e até pior que o primeiro.

Alguns desses fatos, pela própria objetividade, não requerem maiores comentários. É o caso do crescimento no número de infectados no Rio Grande do Norte. Em dezembro, foram 2.908 novos casos confirmados, o maior número de novos casos desde o primeiro registro em março. É a comprovação da existência de uma segunda onda da pandemia, espalhando-se de forma mais rápida e, ainda que menos letal (304 mortes no mês), preocupante pela forma como a rede pública de saúde se aproxima dos limites de exaustão para atender uma nova demanda por leitos críticos de UTI. Menos evidentes para a interpretação do público, são os exemplos de como os governantes entendem o combate à pandemia: a falta de seriedade nas relações com os laboratórios que estão produzindo vacinas; a ignorância na abordagem de questões cientificas relativas a evolução e controle das taxas de transmissão; o amadorismo nos preparativos necessários à compra de insumos e montagem da infra estrutura para imunizar a população; a mudança nos discursos quanto a preservar vidas x salvar a economia.

Desde o início da crise, entre a classe política e a elite empresarial pairou uma tensão sobre o que deveria ser considerado prioritário. Jair Bolsonaro, perdido na megalomania que lhe é própria, não teve dúvidas sobre o que optar, mas poucos ousaram admitir pensar como ele. Havia as eleições municipais e os políticos calcularam certo: a atitude relativa a pandemia contaria em votos. Passadas as eleições, alguns discursos e posições não são mais úteis. Além das “liberações para eventos privados com controle sanitário” – que de resto não foi observado nem seria exequível – algumas “compensações” aos interesses econômicos foram postas em prática. É o que se pode deduzir da proibição da Prefeitura de Natal aplicada aos quiosques/ambulantes na orla marítima (pequenos e micro empreendedores) de abrirem após às 18h, na noite do réveillon, ao mesmo tempo que liberava bares e restaurantes (médios e grandes empreendimentos) para funcionarem até 1h da madrugada. Ah, o poder público não patrocinou a tradicional queima de fogos! Sim, mas permitiu que empresários o fizessem em frente aos seus estabelecimentos, o que não deixou de ser uma “atração” para a concentração de clientes e do público em geral.

Entre todos os acontecimentos que marcarão a face de 2021, nenhum é mais eloquente que o “Baile da Escadaria”. Na noite do réveillon, milhares de jovens e adultos se reuniram onde, seis anos atrás, um deslizamento de terras abriu uma cratera que condenou dezenas de famílias de Mãe Luiza a ficarem sem teto e ameaçou tragar prédios de condomínio de luxo na avenida Silvio Pedroza. O desastre teve repercussão internacional (era o ano da Copa no Brasil) e o poder público levou algum tempo para recuperar a área. Foi construída uma escadaria monumental ligando a comunidade à praia de Areia Preta.

O local não poderia ser mais representativo das contradições do modelo social, econômico, politico e cultural pelo qual Natal pode ser caracterizada e identificada nas últimas décadas (e uma vez que a região metropolitana da capital concentra 57,5% do PIB e 46,2% da população potiguar, o modelo vale, em certa medida, para boa parte do RN). Trata-se de uma “área limítrofe”, na qual se observam e, eventualmente, se cruzam durante os passeios pelo calçadão, a elite que habita os prédios de luxo e os moradores dos muitos barracos e ruelas que sobem os morros até os limites do Parque das Dunas.

O “Baile da Escadaria” começou cedo e às claras, desrespeitando decretos e recomendações do Executivo estadual, da municipalidade e do Judiciário. Não exigiu a obrigatoriedade do uso de máscaras, dispositivos de álcool em gel para higienização das mãos, pontos de medição de temperatura corporal ou testes negativos para o corona vírus. Afinal, dado o “caráter popular da iniciativa”, não foi necessária a hipocrisia das medidas profiláticas com as quais alguns prefeitos e empresários justificaram a autorização para as já citadas concentrações da elite em vários pontos do litoral potiguar. Também não foi um evento improvisado. Teve palco, tendas, iluminação especial e banheiros químicos, ou seja, infraestrutura que levou tempo para ser montada e requereu investimentos para funcionar. Tampouco foi espontâneo. Durante toda a programação, DJ’s profissionais se revezaram para manter o ritmo, o entusiasmo e som altos, garantindo a presença do público até o início da manhã do dia seguinte. O evento foi a coroação do sentimento negativista que se enraizou entre a população, incluindo a rejeicão às vacinas.

Apesar de todo o aparato e contatos que demandou, da visibilidade que adquiriu, o “Baile da Escadaria” foi realizado sem qualquer contratempo ou interferência das equipes de fiscalização e policiamento, destacadas pelo município e o Estado para “fazer cumprir” as medidas contra aglomerações. Poder-se-ia levantar dúvidas sobre a “ineficiência, conivência, corrupção” do aparato estatal/municipal, mas prefiro destacar o fracasso da estratégia adotada no enfrentamento à pandemia. Nos faltou uma política ampla, um conjunto de ações interligadas, desde o aparato médico/hospitalar até ações educativas quanto à gravidade do momento.

Fica evidente que o “Baile da Escadaria” resume os equívocos no controle epidemiológico, a inadequação material, os desvios comportamentais, o descompromisso político e a prevalência econômica no trato com a Covid-19. Tudo isso vai continuar em 2021… e na pior das hipóteses, além.

 

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