OPINIÃO

O bebum tinha sido meu colega na escolinha do Olinto

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Lá ia eu pela calçada esburacada da Praia dos Artistas. Escrevo, conto esses causos, porque sei que pelo menos meu amigo Rafael Duarte me dá a honra de perder uns minutinhos para ler. Minha caminhada matinal, dos meus loucos personagens.
O desse dia ensolarado, uma sexta-feira, era novo, nunca tinha visto andando pelas praias, e olha que já havia esbarrado com todo tipo que se possa imaginar, até já contei causos de vários.
Já tinha percorrido quase seis quilômetros alternando trotes e caminhada. Na altura do shopping de artesanato um cara altamente bêbado, cambaleante mesmo, vem na minha direção.
Olhando fixo para mim, um olhar duro, quase de revolta, ele parecia disposto a me dizer alguma coisa, uma queixa. Como não o conhecia, e até fiquei temeroso, me esquivei, olhei em outra direção. Ele veio, veio, veio. E com o rabo do olho notei que ele passou quase esbarrando em mim, quase tromba comigo, tive que desviar um pouco meu caminho.
Respirei aliviado e apressei o passo. Andei uns cem metros, não menos, quando escutei a voz “engrolada” gritando com raiva.
-Ei! Ei! Deixe de banca viu, seu Edmo Sinedino. Deixe de banca, só porque é comentarista de porra de rádio e tevê, grande merda… – e anda falou um monte de coisa que, ainda bem, não entendi.
Meio irritado, parei para escutar, olhei para trás. Que porra era aquilo. O que diabo eu fiz para esse pinguço ficar me enchendo o saco?
E ele continuava indignado.
– Você tá pensando que eu não lhe conheço, conheço sim, conheço você desde o tempo que você era bem maguinho, só tinha a cabeça do joelho, era couro e o osso, treinando lá na escolinha do América com Olinto Galvão…- disse.
-Lembra do teu meião velho que tu tava usando, que Olinto perguntou se tinha sido do teu avô? – falou isso e deu uma tremenda gargalhada.
Fiquei surpreso. O cara me conhecia mesmo, só podia ser da mesma época. Como é que ele sabia dessa história? Esse episódio do meião foi no meu primeiro dia. Olinto, treinador,  olhou pra mim e perguntou em que posição eu jogava. Eu disse que era pivô. Ele me olhou de cima a baixo, parou a vista no meu meião velho, surrado, único que tinha, e fez a pergunta que o camarada cheio de canjibrina repetiu mais de 40 anos depois na calçada da praia.
Quando Olinto falou do meu meião, a meninada toda caiu na gargalhada zombando de mim, queria sair correndo, me enterrar num buraco, coisa de menino.
E o meu camarada cheio de meropéia, ao me ver estancar, concordar, sorrir surpreendido, ganhou confiança e deu vários passos na minha direção. E eu, sem saber o que fazer, esperei que ele se aproximasse, não podia mais sair correndo ou andando, não podia mais ignorá-lo.
O velho conhecido  chegou bem juntinho, daquele jeito que eles gostam de nos encarar, quase me “beijando”.
-“Rapaz, você pensa que eu não conheço você? Conheço, conheço e conheço – dizia batendo no peito e sacudindo um tremendo bafo de leão na minha cara.
– Quer saber como era seu apelido? Quer saber? Todo mundo chamava você de PPO, PPO, PPO…- e repetiu umas dez vezes. Isso já gritando, chamando a atenção de quem passava.
-Você ficava puto da vida, queria brigar, você era metido a brabo…- e ia me falando essas coisas já me agarrando, puxando meu ombro, apertando exageradamente minha mão.
Sorri sem graça com a presepada, não podia fazer outra coisa. Tentei retirar a mão, consegui, mas estirei a mão para ele de novo; e de novo ele apertou, me deu mais um abraço e começou a chorar, isso mesmo, começou a chorar, soluçava mesmo.
-Porra PPO, você jogava muita bola, jogava, mas eu também era bom…eu merecia ser titular também, perdi a posição para Tinho (ex-jogador do ABC anos depois), mas eu era melhor que os irmãos Baco – desfilava suas lembranças falando de antigos colegas que eu também conhecia.
E eu, claro, vendo que ele fazia parte daquela turma feliz, e  como não conseguia reconhecê-lo, fiquei sem entender ou saber o motivo das suas lágrimas.
Depois ainda conversou um bocado, falou das peladas do campo da Cosern, dos jogos no SESC , entre tantas outras coisas.
Citou Tinho, Pequeno, Cuíca, Zinho, Zé Carlos, Roberto Lili, Carlos, Zinho, Welbert, Toinho, Marcos Falcão, todos, todos meus amigos de infância das peladas e vários deles colegas da escolinha de futebol de salão, treinada pelo mestre saudoso Olinto Galvão da qual ele, cheguei a conclusão, também fez parte.
O danado em tudo isso é que eu tentei durante todo o tempo me lembrar dele, mas não consegui. Naquela época, a escolinha de futsal do América, com idade limite até 14 anos, tinha para mais de 70 garotos treinando todas às quartas-feiras à noite e domingos pela manhã.
Me despedi, quase não consigo, pois ele apertava minha mão, chorava, repetia histórias, enfim, consegui me desvencilhar dele pensando no meu novo “personagem” das caminhadas.
Lá na frente, o “Rei do Bronze”, outro mala da orla, já estava a postos, me esperando para mandar mais um recado para o presidente do ABC ou falar dos seus problemas financeiros insolúveis…
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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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