OPINIÃO

O Bicão

Anúncios

Quem me acompanha, quer dizer, a meia dúzia de leitores que me seguem desde os tempos de Diário de Natal, sabe quem é o Bicão. Escrevi vários textos sobre essa personagem. Um demente alcóolatra, sujeito de índole ruim que sempre se fez de doido para prejudicar pessoas de quem ele tem inveja ou não prestavam atenção. Um doente que merece dó, muita gente achava que eu nem deveria perder tempo com ele, mas, com o tempo, desmascará-lo, zombar de suas cartas anônimas (ainda era esse tempo) passou a ser uma diversão, depois o esqueci.

O Bicão sempre frequentou altas rodas, muitas vezes chegou a me criticar de várias formas e até pensou me atingir, me chamando de “Canguleiro”. Teria muita honra e orgulho se tivesse nascido nas Rocas, mas sou natural de São Tomé e tive minha formação molecal, traquinal, boleiral na Cidade Alta, circulando por todos os buracos onde tinha uma bola rolando – Praça Santa Cruz da Bica, Padre Pinto, pegado ao muro de Maria Boa, campo da Cosern, quadra da Casa do Estudante, Mangueirão (onde é terreno da CAERN, vizinho à Cosern), sítio do Doutor Choque, Régulo Tinôco e seus campos, antiga sede do Força e Luz, quadras de futsal do América, enfim.

Mas deixa eu voltar ao Bicão. Dávamos gargalhadas com as cartas do maluco para Albimar Furtado, superientendente do DN, fingindo ser leitor, leitores, criticando minha postura como editor de Esportes. O beberrão, ignorante, coitado, se traía, pois o seu texto pobre era repetitivo e a gente logo descobria de quem se tratava. As cartas, e-mails, muitas vezes até telefonemas para a redação nunca paravam de chegar, tudo isso porque eu nunca dei a ele espaço para publicar suas mentiras, seus devaneios loucos para se fazer importante. A marca registrada do  perverso era se fazer passar por amigos de famosos, principalmente atletas de futebol e radialistas, e seus preferidos eram do Flamengo, seu clube no Rio.

Tão doido o Bicão que bastava saber que um figurão da bola ou do rádio viria a Natal e ele se plantava no Aeroporto para receber o convidado importante como se fosse representante do governador (tinha um cargo na governadoria e se valia dessa mentira) e levava o cara, muitas vezes, à presença do político que, diante de um nome nacional, não ia dizer que o safardana mentia. E assim ele se fez conhecido de Zico, Milton Mendes, Bebeto, Raimundo Fagner. Sem falar nas vezes que disse ser íntimo de Ricardo Teixeira, Márcio Braga e até do Ronaldo Nazário, passando outros nomes menos votados.

Sobre um jogador do Flamengo, um episódio engraçado. Ele tanto aperreou o atacante famoso que a mulher dele, que o acompanhou na viagem, adiantou por um dia sua volta ao Rio de Janeiro porque não aguentava mais ver a cara do Bicão. Ele chegava de manhã no hotel e passava o dia levando o desavisado (que pensava ser ele importante) ex-atleta, para todos os lugares, apresentando-o como se fosse amigo de longas datas. As histórias do Bicão, acreditem, daria um livro de muitos capítulos. Muitos outros – artistas, atletas – depois que conheciam a fama do tresloucado, ao sinal de sua chegada, se escondiam, mandavam dizer que não estavam, fugiam dele como o diabo da cruz.

Bom, voltemos ao presente. Fazia muito tempo que deixei de ouvir falar no Bicão. Nem mesmo os seus amigos da Rádio Globo lhe davam mais espaço. Creio que na AABB, onde aparecia sempre e aprontava sempre, deve ter acontecido a mesma coisa, assim como em locais tradicionais frequentados pela Elite. Ele sempre teve doença por parecer, querer ser das altas rodas. De repente, estou na Cigarreira do Açoita, na Cidade Alta, ao lado do Bar do Naldo, local que ele, certamente, em outros tempos, se recusaria a pisar por achar de “baixo nível”, “local de pobres”, eis que surge o famigerado personagem, como sempre, às quedas, embriagado de não poder falar. Fez os costumeiros sinais, ninguém lhe deu atenção e ele arriou numa cadeira para depois ir embora. Surpreso, comentei com Bora Porra e demos boas risadas.

Uma segunda vez, novamente, estamos no mesmo local e chega o Bicão, da mesma maneira de sempre. Dessa vez (talvez já tivesse me notado no sábado passado)  ele me viu e deu um jeito de sentar perto de onde eu estava. Em voz alta, as histórias, mentirosas, as mesmas. Amigo de famosos jogadores, de dirigentes e de políticos, ladrões, os dele, todos. E como sabe bem tudo que penso dele, da política e do futebol, danou-se a falar mal de Lula ao mesmo tempo que fazia elogios aos bandidos locais que sempre lhe deram guarida e como não poderia ser diferente: bolsominion. Claro, ninguém lhe deu atenção, ele ficou falando sozinho e incomodado por ver as pessoas chegarem na minha mesa, puxar conversa, fazer elogios ao meu trabalho, entre outras coisas. Mentiu mais um pouco e se foi.

Depois dessas “visitas”  virou quase uma figurinha carimbada nos locais que frequento. Nas primeiras sextas-feiras de todos os meses ele está presente no encontro de Choro e Samba, com Debinha e sua turna, na Vigário Bartolomeu. E se incomoda, anda para cima, para baixo, em busca de um alô, de quem escute e dê atenção às mesmas velhas conversas sobre futebol e política ou lorotas de sua vida pessoal. Acho que o Bicão me segue e ainda alimenta o sonho de que, um dia, eu também passe a acreditar nas suas doidivanas conversas movidas a álcool, e quando recebe um alô, depois de muito forçar a barrar, de Debinha, de Cabañas ou Zezinho, olha na minha direção com o ar de triunfo. Bom, bem sei, vou ter que aguentar o “mala” por muito tempo ainda.

Para encerrar o texto em homenagem ao picareta, uma historinha curta só para que vocês conheçam o quanto ele é pernicioso. Eu ainda era editor do Diário de Natal e tinha a coluna Drible Curto, assinada, claro. Num sábado à tarde, caminhava pelo shopping e duas senhoras, já idosas, vieram ao meu encontro. Confirmaram se estavam falando com o jornalista que escrevia as notas sobre o tal Bicão. E perguntaram, mas já sabendo, qual a identidade secreta do vilão, eu, confiando nelas, confirmei. Elas deram muitas risadas, disseram que já imaginavam que fosse a pessoa indicada. Depois, me incentivaram a continuar “metendo o pau, pois o tal não valia nada”. Curioso, perguntei se elas o conheciam e me responderam: “ele é nosso sobrinho”.

E foram embora felizes da vida.

 

 

Artigo anteriorPróximo artigo
Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *