OPINIÃO

O Brasil de “meu” Galego nos seus 21 anos

Eu não queria, nem no meu mais terrível pesadelo, acreditar, “meu” Galego”, que esse seria o Brasil no dia de seus 21 anos.  Festejo tão somente a tua saúde, a tua lisura, caráter, decência, inteligência que me orgulha, tua faculdade que me enche o peito, mas nunca imaginei que teria mais medos e incertezas agora que, juro, do tempo em que, desempregado, junto com sua mãe, dávamos voltas e volteios para não deixar faltar nada aos seus irmãos mais velhos.

E neste dia em que completas 21 anos, “meu” Galego, nunca pensei que esses mesmos irmãos estariam tão prestes a se enganarem com a repetição da velha frase de “que você e sua irmã Ludmila chegaram numa época de bonança”. Até então, “meu” Galego, eu concordava totalmente. Mas hoje…

Quando você corria feliz pelas areias do Planalto, o meu único medo, terror mesmo, vinha daquelas histórias escabrosas do rapto de crianças no bairro, que era notícia quase todos os dias nos jornais. Você nem imagina, talvez hoje sim, o que eu passava. Meu coração acelerava (vocês sabem o quanto sou doido nessas coisas), morria de medo ao saltar do ônibus, quase dez horas das noite, e só sossegava, respirava aliviado, quando você e sua irmã surgiam em desabalada carreira ao meu encontro, os dois gritando: “Painho chegou! Painho chegou!”.

Aqueles, “meu” Galego, eram tempos, já, do governo Lulinha, lembra? O saldo devedor de nossa casinha, que só aumentava, passou a diminuir incrivelmente, e pelos cálculos nossos, já, já quitaríamos. Aliás, como quitamos, utilizando somente o saldo do FGTS. Naqueles tempos, seus irmãos têm razão,  já eram de bonança, o gás já não aumentava todo dia, os preços já não disparavam a cada anúncio de aumento do barril de petróleo nos EUA, notícias bombásticas do fatídico Jornal Nacional.

O meu salário de jornalista já não era tão vilipendiado, defasado, dava para pagar todas as contas e, vejam só, até uma pequena reforma deu para fazer – um puxadinho de varanda – acredite, já fazendo planos de comprar um carrinho zero. “Meu” Galego, naquela época nossa feira era farta e ainda sobrava dinheiro para comprar um novo “boneco” para sua coleção, todos os sábados, no camelódromo da Cidade Alta. Lembra? Depois da visita na casa de sua vó (Toinha, tão amante e boazinha) você e Bibi, antes de pegar o buzão para a “viagem” de volta, ainda me faziam passar na Docelândia para as baganas semanais.

Sei não, “meu” Galego, mas ando medroso desde o fatídico mês passado com o Brasil que você vai ter que encarar daqui pra frente. Concursos, especializações, mestrado, doutorado, facilidades para aprendizado, intercâmbios, investimentos em educação? Não creio. Tem nada não, pois sei bem do que és feito, você, seus irmãos e sua irmã. Se eu, agarrado somente à mão de tua mãe, consegui vencer tempos de Sarney, Collor e FHC, não há de ser um governo fascista, construído à base de fake news, manipulações de todas as formas, conchavos sujos e corrupção, que vai nos meter medo.

Apesar de tudo, “meu” Galego, felicidades, sorrisos, confiança, pois agora, lá em casa, não somos dois, somos quatro, somos seis, somos oito, e mais de sessenta milhões de brasileiros que não se deixaram enganar e nunca, tenho certeza, vão deixar de acreditar no triunfo do bem sobre o mal.

PS: ainda fui o responsável por fazer de “meu” Galego mais um sofrido torcedor do Botafogo. Seria demais também fazê-lo alecrinense,  a mãe o levou para o lado abcdista e o discernimento, mais tarde, o transformou em torcedor do Real Madrid…eu lamento, mas entendo.

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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