OPINIÃO

O Canto de Iara: aulas presenciais e pandemia.

Já disse aqui nessa coluna, várias vezes, o quanto me orgulho e dá prazer ser professora. Essa semana ganhei um presente de uma ex-estudante que foi nossa discente e bolsista quando coordenei o Programa de Bolsas de Iniciação à Docência – PIBID, no Curso de Pedagogia, entre os anos de 2010 e 2014. Ela me achou em uma rede social e dizia ter falado de mim em sua primeira aula na especialização que começou a cursar, pois recordou o quanto perguntava coisas e como eu me detinha para explicar devagarinho… ela disse “A senhora esmiuçava em explicações todas as perguntas que eu fazia… Com o tempo, fui descobrindo que ali, a senhora estava me incluindo no processo de formação acadêmica […] Trabalho como contratada em minha cidade e dou reforço. Mas meu lema, sempre foi incluir meus alunos… E trago isso da minha formação, pelo que vocês fizeram por mim. O mundo dar tantas voltas e fazemos tantas escolas….”

Esse episódio me emocionou bastante! Me fez entender que as sementes distribuídas por professores não são plantadas no chão, são lançadas pelo vento e com ele seguem para se por um terreno que não alcançamos com o olhar, mas germinam e dão frutos e flores, alcançam outros tantos! O papel da escola/academia na vida das pessoas das camadas trabalhadoras é fundamental. Depois de quase quinze meses de pandemia estamos dando conta do quão inexorável é a necessidade da presencialidade no fazer educativo. Quando recebi a mensagem, imediatamente me lembrei dos pactos visuais e corporais que fizemos ao longo do tempo que ficamos juntas e de como isso foi fundamental na troca de mensagens para além das explicações orais e teóricas.

Desde o início da pandemia de COVID19 os especialistas em Educação alertaram para a necessidade de que instituição escolar, em especial a pública, fosse equipada rapidamente para que pudesse acolher seus estudantes, pois eles não teriam condições de encarar o ensino remoto. Em 15 meses muito pouco foi feito nesse sentido por falta de financiamento, descaso com a educação pública, má gestão e priorização da economia em detrimento do ensino. Planos de financiamento de acesso a internet e a computadores para estudantes e professores, foram vetados pela presidência e quando o veto foi derrubado no congresso, essa mesma presidência, recorreu ao Supremo Tribunal Federal para seu embargue. As adequações feitas pelas redes municipais estaduais e federais são pífias e provisórias, demonstrando falta de profissionalismo e compromisso que a temática merecia e nenhuma vontade de mantê-las permanentemente.

Amedrontados pela política necrófila que nossos governantes e com razão, os próprios profissionais da educação e seus representantes se enredaram no discurso de serem inseridos nos grupos de trabalhadores essenciais para que recebessem a vacina e pudessem voltar. Isso só ocorreu em abril de 2021 e a primeira dose da vacina em julho do mesmo ano. Ou seja, caíram no Canto da Iara! A primeira fase: a sedução. Foram levados a pensar que a única possibilidade de manter as escolas abertas era a vacinação.

Concordo que todos os setores educacionais que puderam se reinventaram e passaram a trabalhar no modelo remoto, mas tudo isso causou exaustão para os professores. Concordo que a política que nos tratou como rebanho em busca insana de imunização pelo contágio coletivo e o número exorbitante de morte nos deixou atônitos. Concordo que num governo solidário com seu povo teríamos tido o atendimento de propostas de vacinas para começar a imunização em novembro de 2020 e o que tivemos foram negociatas escusas para ganhar propina com sua compra. Concordo que os grandes empresários, que encheram as burras de dinheiro em plena pandemia, pressionaram de toda forma pois perceberam que sem o povo trabalhador a produção não se fazia sozinha. Concordo que mesmo com as escolas estruturadas teríamos evasão. Mas afirmo, as perdas seriam muito menores.

Se tivéssemos investido nas estruturas das instituições educativas para que pudessem receber a comunidade educacional com segurança e distanciamento, teríamos mitigado o tamanho do caos educacional em que enfiamos nosso povo, em especial o povo pobre, preto e periférico. Povo esse que foi exposto a ausência de seu espaço de segurança, a escola, foi jogado a miséria em menos de 9 meses de pandemia e ausência de políticas publicas de renda básica universal, garantia do trabalho e da moradia e condenado a maior dificuldade de ascensão social em décadas de nossa história republicana.

Não sabemos o impacto dessa lacuna educacional e por quanto tempo perdurará num pais que já tinha dificuldades de inclusão educacional desde muito antes da pandemia. Estamos vendo hoje, da educação infantil ao ensino superior, as perdas. As lacunas maiores estão na educação infantil, em especial nos anos que trabalham o processo de alfabetização que se atrasou por, pelo menos, 3 anos. E no ensino médio com a grande evasão dos jovens, que já tinham dificuldades de se manter na escola, por precisarem ajudar no sustento de suas casas. Sem falar da Educação de Jovens e Adultos que, essa sim, praticamente parou devido as suas características específicas difíceis de superar no contexto remoto.

Com essa situação caótica somos obrigados a ver, em rede nacional, um ministro de educação insípido, que assumiu a pasta em julho de 2020 e nunca se fez notar na defesa da educação pública nem desencadeou nenhuma ação junto aos ministérios da economia e da saúde para melhoria das condições educacionais no país (escrevo de propósito o nome dos ministérios em minúsculo, pois é o são, minúsculos) fazer chamamento de volta as aulas presenciais e defender dados de instituições internacionais, alinhadas a organizações inspiradas em modelos neoliberais de educação (Banco Mundial, UNESCO e UNICEF) com inspiração nos países dos grandes capitais para desenrolar o resto do Canto da Iara. A primeira fase, da sedução, foi colocar os profissionais da educação como trabalhadores essenciais e dar a eles a primeira dose da vacina. Agora é a fase do encantamento: já com uma dose podem voltar a presencialidade para satisfazer as avaliações em larga escala e as estatísticas, que servirão de argumento da campanha eleitoral de 2022, não sejam tão desastrosos.

Justo agora que as variantes do vírus estão mais poderosas, a vacinação dos jovens (população ativa) anda a passos de tartaruga, o desfinanciamento da educação corre como lebre e os professores estão exauridos com o trabalho remoto que, em muitos casos lhes tirou as férias, o ministro fantasma aparece para fazer convocatória e dizer que a culpa de tudo é de governos estaduais e municipais. Chegamos na última fase do Canto de Iara, o afogamento. Todos misturados nas ruas, transportes coletivos, escolas com novas cepas e esquema vacinal sem estar completo e muitos sem nenhuma dose da vacina, teremos uma eclosão de novos casos… quem sabe o plano é chegar em 1.000.000 de mortes para não ter que pagar direitos e sobrar mais para as negociatas?

Volto a minha querida estudante e o que tem feito para incluir pessoas. A presencialidade no processo educativo é fundamental, sim. Mas quando o processo educativo é desvalorizado e desconsiderado pelos governantes, precisamos levantar nossa voz para que os atores e heróis que conduzem de fato a educação não sejam anunciados como seus algozes e os governos saiam ilesos de suas responsabilidades. Vamos nos tornar presentes (os que se sentem seguros) nas ruas, junto com nossos estudantes! Não caiamos no Canto da Iara!

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